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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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Alcanena | Entrevista a Rui Anastácio: “A democracia não é um dado adquirido”

Aos 51 anos, o empresário hoteleiro Rui Anastácio, uma figura já conhecida da vida pública de Alcanena, conseguiu que uma candidatura com o apoio do PSD, CDS e MPT conquistasse um concelho tradicionalmente socialista. Apesar dos apoios financeiros a que teve que recorrer, e de admitir que tem as suas obrigações a cumprir, o presidente eleito continua a afirmar-se um independente, assim como o movimento que liderou, os Cidadãos por Alcanena. No início de um novo período político no concelho, são já evidentes as alterações de perspetiva em temas estruturantes, como a economia e a ação social. Anastácio traz consigo um plano económico ambicioso. E não parece disposto a perder tempo. 

A campanha eleitoral foi tensa na terra dos curtumes. A chegar ao fim do terceiro mandato, o PS tinha que mudar de cara, o que abria espaço à entrada de uma nova cor política na gestão municipal. Porém, estamos a falar de um concelho industrial que desde 1974 teve quase sempre na sua gestão figuras socialistas ou independentes com ligação anterior ao PS. É preciso regressar ao mandato 1979-1982 para encontrar a breve presença da Aliança Democrática (PPD-PSD, CDS, PPM, Reformadores) na presidência.

A tarefa não era fácil e em vésperas das eleições, sem dados de sondagens à população, ao observador externo eram palpáveis, contudo, as incertezas quanto à vitória. Os Cidadãos por Alcanena haviam começado a campanha cerca de um ano antes das eleições, apostando nas redes sociais e em ações de rua, falando diretamente com a população, muito antes dos seus concorrentes, o PS e a CDU, terem efetivamente entrado no esforço eleitoral. Rui Anastácio também não era uma figura estranha à população, sendo um ex-militante PS que já integrara o executivo autárquico, tanto do lado vencedor (1997-2001), o PS, quanto da oposição, já nos Cidadãos por Alcanena. 

No final dos anos 90, integrou como vereador a gestão PS, tendo estado envolvido no então projeto de requalificação dos Olhos de Água Foto: mediotejo.net

Há cerca de um mês na presidência e no mesmo dia em que se aprovou o orçamento para 2022, o mediotejo.net falou com o novo presidente e procurou esclarecer muitas das polémicas levantadas durante a campanha. Quis também saber quem é Rui Anastácio, o empresário hoteleiro que, em plena crise financeira, conseguiu abrir um negócio de sucesso vocacionado para o turismo de natureza na Serra de Aire e Candeeiros: o hotel de charme de quatro estrelas Cooking and Nature, ao qual juntou posteriormente outro projeto chamado The Nest by Cooking and Nature (em Alvados, Porto de Mós).

Natural do concelho de Alcanena, amante da natureza, é um engenheiro florestal que pouco exerceu. Um dos seus livros favoritos é “Sinais de Fogo”, de Jorge de Sena, e aponta-nos como filmes de referência “África Minha” e “As Pontes de Madison County”. Está subjacente nestas obras “a ideia de que ninguém pertence a ninguém”, algo que valoriza, como deixa escapar no decorrer da conversa, que passa frequentemente pelo tema da liberdade, nomeadamente na forma como encara a democracia e a ligação às estruturas partidárias. Rui Anastácio afirma-se um homem de liberdade – um ideal que quer devolver à política em Alcanena. 

Durante a sua campanha referiu que em criança andava sempre a correr. Quem era Rui Anastácio, como criança?
Era um miúdo agitado, irrequieto sobretudo. Cresci no centro histórico, com muitos miúdos. Saía de manhã, ia almoçar, ia lanchar e ia jantar, desde que não estivesse a chover. E às vezes quando estava a chover também arranjava outros sítios para estar. A minha vida foi passada na rua, desde tenra idade. Aquelas noites de verão… éramos 30 ou 40 a jogar às escondidas, a jogar ao lenço. Foi uma infância desse tipo, saudável.
Depois, fiz sempre muito desporto. Atletismo, andebol. Era um miúdo irrequieto, mas sempre com tendência para as ciências e um cliente diário da biblioteca. Hoje não é muito frequente, os miúdos ou são muito ratos de biblioteca ou são do desporto, eu era um pouco as duas coisas. Era um miúdo da rua, mas sobretudo a partir do 5º ano, com as ciências… Devo ter sido dos primeiros birthwatchers [observador de aves] do distrito de Santarém.

O que ambicionava ser quando criança?
Ornitólogo. É um ramo da biologia que estuda as aves.

De onde vem esse fascínio pelas aves?
Sempre fui muito ligado às ciências da natureza. As minhas idas à biblioteca eram sempre um bocado atrás disso. Não havia guias de aves em português, embora tenha encontrado um manhoso na Biblioteca, muito mau. Foi o meu tio que foi a uma livraria do Chiado e me comprou um em inglês.

Devo ter sido dos primeiros birthwatchers [observador de aves] do distrito de Santarém

Os Cidadãos por Alcanena apostaram numa campanha eleitoral diferente. Em vez de começarem pela apresentação oficial e depois seguirem para a campanha propriamente dita, começaram pelas redes sociais um ano antes, estiveram meses neste registo, realizando atividades de rua, e só mesmo no final fizeram uma apresentação oficial. Porquê esta estratégia?
Nós tínhamos a perceção de que tínhamos que começar cedo. Há quatro anos e há oito anos integrei as listas e sempre senti que se tinha começado tarde. E é muito difícil começar tarde. Nós começámos a trabalhar em abril do ano anterior às eleições. Porquê? Porque quando há um poder instalado muito forte, torna-se muito difícil. A não ser quando o poder está muito desgastado, o que não era o caso. Vários amigos meus diziam-me “eles ainda não estão suficientemente desgastados”. Não me esqueço destas palavras. Nós achámos, com riscos, que a única maneira era trabalhar cedo para conseguir uma coisa muito difícil, que era ter candidatos bons em todas as freguesias. Isso, felizmente, conseguimos, mas esse trabalho durou mais de um ano. Porque é muito difícil quando há poder instalado, tentacular – e nem digo isto em sentido depreciativo – mas quando há esse tipo de poder é muito difícil, porque as pessoas não querem dar a cara. Foi um trabalho muito árduo, as pessoas tinham que ir acreditando.

Andaram muito pelas ruas. Do que é que se apercebeu? O que é que a pessoas lhe iam contando?
Quando começámos a perceber que tínhamos hipótese de ganhar foi quando sentimos que as pessoas tinham ânsia de mudança. A ideia de que “é preciso mudar”. Agora, esse sentimento também precisa de um projeto consistente. Acho que foi o nosso trabalho, e não estou a dizer que é melhor ou pior. Consistente, com ideias claras, com uma comunicação inteligente, fresca. Também tivemos um grupo de jovens muito interessante, que deram alma e alegria.

Quando é que teve consciência que tinha hipótese de ganhar?
Desde sempre. Mas sabia que era difícil.

Apesar de reconhecer que o PS não estava desgastado?
Eu sempre acreditei. Se não acreditasse não me tinha metido nisto, não gosto de perder. Sempre achei que tínhamos hipótese, desde que conseguíssemos reunir um grupo de pessoas bom e que se conseguissem dar bem. Nós somos muito amigos uns dos outros e dizemos tudo o que nos apetece, mas de uma maneira saudável.

Sempre achei que podia ganhar [as eleições]. Se não acreditasse não me tinha metido nisto, não gosto de perder.

Os Cidadãos por Alcanena são um grupo de independentes ou são PSD-CDS? Esta questão foi recorrente na campanha.
Nós somos um grupo de independentes que foi apoiado pelo PSD.

Sentem que devem uma obediência ao PSD?
Nenhuma, zero. Eu não sou militante. Das pessoas que estão nas nossas listas haverá meia dúzia de militantes do PSD ou do CDS. Essa foi a condição. Agradecemos o apoio, não somos ingratos desse ponto de vista, até porque foi muito importante, mas as listas foram feitas por nós. Não houve aqui um diretório a impor-nos o que quer que seja. Claro, temos as nossas solidariedades, não lhe vou dizer que não. Estamos obviamente mais alinhados com o PSD, mas não sentimos qualquer tipo de grilheta. Já fui militante de um partido e não voltarei a ser militante de mais nenhum.

Foi militante do PS?
Fui e vou-lhe dizer porque deixei de ser. Eu deixei de ser militante do Partido Socialista porque eu não quero ser militante de um partido que levou o meu país à bancarrota. Isto pode não parecer importante, mas eu acho que é. Eu saí do partido porque achei que um partido que tinha acabado de levar o meu país à bancarrota não merecia o meu trabalho e a minha preocupação e dedicação.
Fui a uma vez a uma reunião da JS, onde estavam uns ilustres membros atuais do PS, e vim-me embora a meio da reunião. Porque o que se estava a discutir era a forma como se havia de controlar o Instituto Português da Juventude. Eu achei que miúdos de 20 e poucos anos deviam estar preocupados com o seu país, com ideais, e não em controlar uma instituição.
Não acho que as pessoas que estão na política sejam mais sérias que as que estão fora de política. Já lidei com muita gente e a larguíssima maioria das pessoas que conheci na política tenho-as como homens e mulheres honestos, no sentido de não serem corruptos, não tirarem qualquer tipo de benefício próprio. Muitas vezes esta história de os políticos serem todos ladrões serve para ilibar muitos ladrões que não estão na política ou andam ali à volta. Desprestigiar os cargos públicos é um risco enorme para a democracia, porque as pessoas de bem deixam de se querer envolver nestas coisas e os que sobram são os oportunistas.
Isso é um risco muito sério, porque a democracia não é um dado adquirido. Basta olhar para o mundo e para Portugal. Estas novas gerações, a sua geração e até a minha, de alguma maneira, vê a democracia como um dado adquirido, e não é. Há muitas situações que supostamente são de regime democrático, mesmo nos nossos municípios, que têm muito de totalitarismo…o caciquismo. A falta de respeito, de pluralidade de opiniões… É muito triste quando se confundem as coisas.

Deixei de ser militante do Partido Socialista porque eu não quero ser militante de um partido que levou o meu país à bancarrota.

Como se sentiu quando começaram a sair as projeções na noite eleitoral e percebeu que ia ganhar?
Percebi que ganhámos quando saiu a primeira mesa de Alcanena, porque a nossa vantagem era muito grande para perdermos. Ao longo da campanha vamos percebendo as tendências e Alcanena era a pedra de toque. Apesar de termos perdido a junta, ganhámos claramente para a Câmara e isso percebeu-se logo na primeira mesa, que é como uma sondagem. 

E como se sentiu com essa evidência da vitória?
Nessas coisas sou bastante frio… As pessoas todas à minha volta estavam muito alegres, mas ainda não me tinha caído a ficha (risos). Sou uma pessoa mais de tristezas que de alegrias. Tinha detestado perder, mas não fico feliz quando ganho. Mas isso tem a ver com a natureza das pessoas…

E o que fez a seguir?
Fui jantar… (risos) Estava com fome.

Está na Câmara Municipal há dois meses, que realidade é que encontrou?
Encontrámos algumas surpresas, de não muita gravidade. A nossa preocupação é sobretudo termos muitos equipamentos a carecer de investimento. Mas isso é um problema que é de todas as Câmaras. As Câmaras ou têm uma nova abordagem do ponto de vista do financiamento, ou então vão-se limitar a fazer gestão corrente, porque não têm dinheiro para investimentos.
Sobram os fundos comunitários. Sabemos que vamos entrar num período interessante e desafiante para o país, mas também sabemos que o país dificilmente vai conseguir executar o que tem para executar. Eu diria até que se isso acontecer será quase um milagre. Quando se tem que gastar muito dinheiro de repente também se fazem asneiras, de uma maneira geral. Acho que o país ainda não conseguiu perceber o que tem que fazer, enquanto país. E enquanto o país não o perceber, vai continuar a ser ultrapassado.
Nós vivemos, desde sempre, um bocadinho de mão estendida, historicamente. Acho que o país ainda não se conseguiu estruturar para deixar de andar de mão estendida. Estes fundos comunitários são muito importantes, mas não nos resolvem os problemas. Temos que ser nós a resolver os nosso problemas e nós continuamos a achar que são os dinheiros dos fundos comunitários que nos vão resolver os problemas. Não são. Nós só resolvemos os nosso problemas com uma economia forte. Acho que há uma nova geração com um grande potencial. Espero que a minha não a estrague, se me faço entender…

Acho que o país ainda não se conseguiu estruturar para deixar de andar de mão estendida. Estes fundos comunitários são muito importantes, mas não nos resolvem os problemas.

De onde acha que vem essa mentalidade de mão estendida? É cultural?
É uma questão de preguiça. Se não me tiver que esforçar e viver minimamente bem, não me esforço. Tem que haver um clima geral de exigência.
Falando aqui da região, não consigo perceber porque não há aqui uma universidade com massa crítica a sério e continuamos com três Politécnicos. Um realmente forte, com uma ligação à economia e com um trabalho muito interessante, que é o Politécnico de Leiria, e outros dois que podiam ser muito mais do que aquilo que são. Acho que podiam ser os três uma grande universidade.

De onde vem a sua visão macro? Do facto de ser empresário?
Não lhe sei responder a essa pergunta… Mas o facto de ser empresário leva-me a respeitar muito mais os empresários do que eles às vezes são. Porque ser empresário neste país é uma coisa muito dura, muito difícil. O ecossistema não está feito para empresários. Já foi pior, mas acho que falta dar muitos passos até chegarmos a um ecossistema que propicie o risco, o investimento. O país ainda está muito longe.

De onde lhe vêm os seus ideais e ética de trabalho?
O meu avô, o meu tio, eram pessoas muito empreendedoras. Mas eu sempre fui um miúdo com opiniões próprias, sempre gostei de opinar. 

Como vê a questão ambiental no concelho, o que será preciso fazer nos próximos quatro anos?
O plano está feito e está a ser executado. O plano de investimentos são 7,9 milhões para 2022/23. Ainda temos um problema, que não foi devidamente acautelado, que é o problema da reposição de lamas na ETAR. De taxas de TGR a AQUANENA vai pagar, em 2022, qualquer coisa na ordem do meio milhão de euros de custos para depositar as suas lamas no seu aterro. Que me parece despropositado, que me parece que não foi acautelado em devido tempo, porque já se sabia que isto ia acontecer, mas isso está a penalizar brutalmente as contas e temos que arranjar uma solução.
O plano estratégico foi desenhado, foi um bom plano no que toca à evolução e aos investimentos necessários para que a ETAR, primeiro, cumpra a licença de descarga e, segundo, que consiga controlar a emissão de odores. Espero que, de uma vez por todas, a gente consiga resolver isso.

Criar a marca Aire e Candeeiros e promover um azeite gourmet com origem em Alcanena são alguns dos projetos ambiciosos de Rui Anastácio Foto: mediotejo.net

Um dos projetos mais destacados da sua campanha, e que já vem no orçamento, embora sem dotação orçamental, é criar o produto “Aire e Candeeiros”. O que me pode dizer sobre esta ideia?
O que nós queremos, e estamos empenhados nisso, é convencer os nossos colegas autarcas do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, que temos aqui um produto de excelência para vender no país e no mundo. Esse produto tem que ser devidamente embalado, tem que haver produto – é um produto que tem que ser transformado em produto, porque é ainda teórico – e tem que ser vendido nas feiras internacionais, workshops internacionais, operadores de natureza sobretudo. Há milhares de operadores turísticos internacionais especializados nesta matéria, muitos conheço-os pessoalmente. Mas para isso temos que organizar o nosso produto. É preciso que as sete Câmaras se entendam, que a ADSAICA tenha uma estrutura para montar isso.
Aire e Candeeiros tem um potencial brutal e nunca teve uma presença até no imaginário dos portugueses. Não tem imagem de marca, as pessoas muitas vezes vão a Alvados mas não têm a noção que vão a Aire e Candeeiros. Mas isso tem que ser organizado.

Esse projeto pode beneficiar com a proximidade de Fátima? O turismo espiritual também pode ser turismo de natureza…
Ando a dizer isso há 20 anos. Cheguei a fazer um trabalho de pós-graduação nessa área e ninguém acreditava nisto. São pessoas e as pessoas têm vários interesses. Hoje os empresários de Fátima sentem necessidade de vender dias e não noites e isto quer dizer que têm que ter oferta que promova ficar mais noites. Aire e Candeeiros não pode esquecer Fátima. 

No seu programa tem várias ideias para parques tecnológicos, assim como um projeto para o azeite de Alcanena. O que me pode adiantar sobre estas ideias?
Tudo isso vai avançar. Temos um subaproveitamento brutal do nosso olival, porque os agricultores, neste momento, não encontram retorno para o investimento. Na campanha encontrei um agricultor na Serra que me disse que ia deixar cair para o chão 100 toneladas de azeitona, porque ao preço que estão a pagar o azeite não justifica. São olivais extensivos, de oliveira galega com 70/80 anos, que produz um azeite do melhor que há no mundo. Mas é preciso embalar isto e vender isto a 20/30 euros o litro, quando não a 40 ou a 50. Agora isto dá muito trabalho, esse é o desafio. Temos que encontrar também financiamento, vamos-nos organizar. Eu gostaria que a sede deste projeto fosse na freguesia do Malhou, porque tem um lagar que é da junta de freguesia. É uma das coisas que eu gostaria de agarrar já no próximo ano. Vamos juntar os lagareiros, vamos tentar perceber o que podemos fazer. É um dos projetos em que me penso empenhar pessoalmente.

Acha que haverá procura para o azeite?
Acho. Temos é que saber vender. Muitas vezes somos nós que fazemos o mercado. Eu próprio, a titulo de exemplo, fiz um mercado. As pessoas não ficam no meu hotel porque querem ir a Alvados, vão a Alvados porque querem ficar no meu hotel. Acho que temos que embalar o produto, saber comunicá-lo de maneira inteligente, com uma imagem de marca muito forte, mas sustentada por um produto de qualidade.

Desprestigiar os cargos públicos é um risco enorme para a democracia, porque as pessoas de bem deixam de se querer envolver nestas coisas e os que sobram são os oportunistas. Isso é um risco muito sério, porque a democracia não é um dado adquirido.

Pensa que o seu olhar empresarial vai ser útil para a vida municipal?
O tempo o dirá.

Tem sido difícil conjugar? Tem dois hotéis, como vai conseguir conjugar a vida municipal com a vida pessoal?
Pois...(suspiro) Não sei… vou tentar.

Ainda não pensou no assunto?
Não, já pensei. Tenho uma estrutura. Quando decidi candidatar-me sabia que corria o risco de ganhar. Pensei: se correr bem, estou lixado… E pronto, foi assim que correu. E estou lixado. Não é fácil.

Já estive no seu hotel, o Cooking&Nature. É um hotel de conceito, que se percebe que foi bastante pensado, não é algo que se abra a reproduzir uma coisa que já existe. Como se envolveu num projeto de conceito desta natureza, aproveitando um contexto pouco explorado?
Eu gosto muito daquele sítio. Na altura, identificámos três locais. Na campanha eleitoral fui muito apontado por ter investido fora do concelho. Um argumento parvo e deprimente. Como se qualquer pessoa não tivesse o direito de investir o seu dinheiro onde bem entende. Até porque eu investi o dinheiro que não tinha, muito alavancado na banca. Correu bem, mas se corresse mal ninguém me ajudava. Obviamente, se estou a correr riscos, corro onde eu entendo. E isso não é criticável, nem sequer é assunto. Quando se traz isso para o debate é realmente lamentável. As minhas opções de investimento são minhas, porque quem tem que pagar as dívidas sou eu. Nunca trouxe a vida pessoal de ninguém para a política. Orgulho-me disso. A vida pessoal das pessoas é a vida pessoal das pessoas, não tem nada a ver com questões político ideológicas. Esse é realmente um assunto que me zanga. Acho execrável esse tipo de comportamento. Acho que é apelar ao sentimento mais primário das pessoas. Eu, na altura, tinha identificado três sítios com potencial paisagístico, era só disso que se tratava: o Covão do Feto, Alvados e o Vale da Serra, em três concelhos diferentes. Começámos no século passado, nos anos 90, a procurar casas. Sempre fui muito da natureza, até comecei a escrever uma tese sobre turismo natureza, mas nunca acabei. As coisas acabaram por evoluir. Apanhámos a crise de 2011 quando estávamos a construir, foi no olho do furacão, e nós já com imenso dinheiro investido. Nunca me esqueci do que sofri, foi duro, passei noites sem dormir… e isso aconteceu porque alguém permitiu que este país fosse à bancarrota. 

Aire e Candeeiros tem um potencial brutal e nunca teve uma presença – até no imaginário dos portugueses –, não tem imagem de marca.

Mas seguiu em frente. É um homem de desafios?
Sim, e sou uma pessoa com pouca paciência, embora já vá tendo alguma.

O que resultou ali em Alvados?
A diferenciação. Resolvemos correr riscos. Corremos riscos muito grandes, tínhamos pouco capital próprio. Se tivesse corrido mal tínhamos ficado em muito maus lençóis.

Sente que a pandemia veio valorizar o tipo de conceitos que tem vindo a desenvolver nos últimos 10 anos?
Sim, as pessoas procuram coisas mais intimistas. Estes pequenos hotéis de charme também têm muito mais valor acrescentado, distribuem mais o dinheiro pelas comunidades. Houve um ano que o oleiro local fez uns 300 workshops de olaria.

Mencionou sobre os seus filmes favoritos que gosta da ideia de que “ninguém pertence a ninguém”. É algo de que não abdica, a sua liberdade?
Sou um homem que preza muito a sua liberdade e já tenho pago caro por isso.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

3 COMENTÁRIOS

  1. Pura mentira pois saiu do PS não pela bancarrota mas sim por perder as eleições para a candidata Fernanda Asseiceira em 2009 e não fez nada para ser eleito na altura pois estava mais interessado nos negócios da irmã.
    Já agora por que razão a campanha do PSD está instalada no jardim Municipal da Biblioteca será para ajudar o Parceiro das eleições.

    • O Rita é danado… Já me disse tanto mal do Rui Anastácio como antes me disse da sua antecessora! Como me disse dos candidatos do PS. A mim e a tantas outras pessoas. Ele sabe que eu sei que ele disse de algumas pessoas candidatas nas eleições autárquicas de 2021 pelo PS o que nem Maomé disse do toucinho.Antes dizia mal da anterior Sra presidente da CMA, agora e desde há algum tempo, “diz mal” do Rui. A vida é isto!

  2. Quero responder ao meu amigo Conde dado que sabe que o Rui Anastácio não saíu do PS por causa da bancarrota pois fazia parte da lista de 2019 á concelhia de Alcanena que perdeu e que fui eu o mais me expôs ao ponto do atual presidente tentar meter uma ação em Tribunal contra mim mas não conseguiu arranjar testemunhas depois do trabalho feito por mim e tendo ficado mal com a Presidente eleita até ao final do mandato apesar do Conde ter sido muito ajudado no restaurante pela Camara durante o seu reinado.
    Quero lembrar para acabar este assunto que o Conde e o Gomes estão na origem do LANCHE DO PERDOAME pois vieram buscar-me para o dito dado que o Rui queria fazer as pazes comigo tendo obrigado o Gomes a vir levar-me novamente a Alcanena.
    Quanto ao dizer mal sou igual a vocês.
    Obrigado

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