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Sábado, Julho 24, 2021

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Alcanena: Empreendedorismo também tem nome de Mulher

Mães, filhas, jovens, idosas, desempregadas, precárias, reformadas, deprimidas, deslocadas ou em busca de um novo objetivo de vida. Em Alcanena cerca de duas dezenas de mulheres reuniram-se num Chá do Dia da Mulher para, de uma forma informal, se falar de empreendedorismo e de exemplos de inspiração no feminino. Terça-feira, dia 8 de março, houve ainda tempo para fazer publicidade a produtos artesanais, marcar workshops e lembrar que nada se consegue sem muito trabalho.

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As histórias acabam por ser semelhantes: a jovem mãe que teve que abandonar os estudos para trabalhar, a licenciada que não encontra emprego na área, a desempregada depois de quase 20 anos a trabalhar na mesma empresa, a reformada que procurou descobrir um novo projeto de vida. Na Biblioteca Municipal de Alcanena, sete mulheres dispuseram-se a contar as suas histórias de luta por um projeto que as realizasse, depois de a vida as ter surpreendido com as suas inúmeras reviravoltas.

Os empreendimentos quase sempre envolvem a família, tendo sobretudo a figura da mãe como grande aliada. Nascem lojas de acessórios, cafés e pastelarias, minimercados, artesanato, produtos naturais. Em alguns casos este não é apenas um investimento! É o regresso quase forçado ao campo, à aldeia, depois de toda uma vida feita na grande cidade.

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Professora de Yoga, ílvia Morais dá ainda aulas de comida vegetariana e vende cremes naturais
Professora de Yoga, ílvia Morais dá ainda aulas de comida vegetariana e vende cremes naturais

É o caso de Sílvia Morais, que encantou o público com a sua história de recomeço. Formada em arquitetura, obrigada a deixar Lisboa por não ter dinheiro para pagar a renda. Pretendia ficar em Alcanena apenas alguns meses, mas já lá vão quatro anos. Entretanto começou a dar aulas de yoga e culinária vegetariana em várias localidades, tendo iniciado uma linha de produtos naturais que vai vendendo no passa-a-palavra. “Vou fazendo umas coisas ligadas à forma como vivo”, procurou explicar à assistência de mulheres, tentando enumerar as consecutivas atividades em que se foi envolvendo depois de assentar em Alcanena. Neste caso em particular é tudo muito numa perspetiva de “comunidade e partilha”, vendendo os seus cremes a pedido e criados especificamente para a pessoa.

“O meu percurso académico teve que ficar engavetado”, assim como o de tantos outros estudantes, é a explicação inicial de Carla Pereira, responsável da “Tasca da Esquina”. Tendo alguma relação com a restauração, encontrou financiamento e apoio num vasto conjunto de mulheres – da família à funcionária de uma instituição bancária – que lhe permitiram abrir o espaço que hoje possui, curiosamente um “negócio de homens”. “Este é um negócio que mais serve os homens, porque as mulheres não têm tempo, nem poder económico, ou mesmo por estatuto, porque se a mulher vai beber com uma amiga é porque não tem nada que fazer em casa”, constatou.

Sónia Bento licenciou-se, mas a área da História não lhe tem permitido viver da sua formação. Com a mãe fez um estudo das possibilidades de negócios e decidiram criar um minimercado em Alcanena, identificando aí uma necessidade. Um espaço que também possui um “intuito social”, uma vez que o seu pequeno café ganhou fama entre as senhoras da vila, que ali criaram um ponto de encontro. “Tornou-se um espaço convidativo às senhoras da zona, que falam da vida delas e pedem opinião sobre os filhos, os maridos, o desemprego. É um espaço de partilha”, refletiu.

Sónia Bento, à direita, arrancou do zero com o projeto de um minimercado. Salienta que é necessário muita reflexão, trabalho e disciplina para manter um negócio. foto mediotejo.net
Sónia Bento, à direita, arrancou do zero com o projeto de um minimercado. Salienta que é necessário muita reflexão, trabalho e disciplina para manter um negócio. foto mediotejo.net

Partiram também de Sónia Bento os conselhos mais práticos que envolvem o empreendedorismo. Tendo tido que arrancar com um negócio do zero, salientou as dificuldades que englobam o desbravar de qualquer empreendimento. “Isto é difícil, tem que se trabalhar muito, haver muita disciplina”, sublinhou. “Aconselho a que façam um estudo de mercado, não abrir por abrir, pensar com cabeça, tronco e membros”, afirmou, explicando que são necessários três a quatro anos para os negócios estabilizarem. “As coisas têm que ser feitas com muito trabalho e muita motivação”, advertiu, estimulando a que se aproveitem as oportunidades.

Já Gorete Capitão, dona do espaço “Anya”, loja de acessórios de moda e perfumes, foi comercial durante 17 anos, até ficar desempregada. “Apesar de me terem aconselhado a não investir aqui, esta é a minha terra”, começou por frisar, explicando de seguida que o conceito da sua loja serve muito o seu lema de vida: “sempre acreditei que podíamos andar bonitas sem gastar muito”. A sua loja é o exemplo disso, procurando ter produtos diversificados a preços acessíveis.

Lisete Vieira inspirou as mais jovens a não desistir! Com uma vida dedicada à docência e alguma tendência para a depressão, encontrou na criação e venda de bijuteria uma forma de terapia que recomenda e aplaude. Após a reforma decidiu sair da cidade e ir viver para a aldeia, mas nunca perdeu o gosto de se arranjar bem. “Estar ligado a uma coisa bonita dá prazer”, sublinhou por diversas vezes, “fazer bijuteria é melhor que ir ao psiquiatra, é melhor que um antidepressivo”. Os seus anéis e colares depressa correram a mesa do Chá, criados a partir de cristais Swarovsky. Lisete faz bijuteria como muitas mulheres fazem renda e “dá um prazer imenso”.

Lisete faz e vende bijuteria, uma atividade que diz funcionar como terapia. foto mediotejo.net
Lisete faz e vende bijuteria, uma atividade que diz funcionar como terapia. foto mediotejo.net

Sofia Grácio estudou Artes no 12º ano e iniciou um curso de estilismo, mas teve que abandonar os estudos quando ficou grávida. “Senti muitas vezes que por ser jovem e com uma filha pequena era difícil encontrar trabalho”, explicou à audiência, relatando que passou boa parte da vida a “saltar” entre empregos. “Até que um dia experimentei fazer pinturas em tecido e comecei a vender”. O trabalho ganhou fama, possuindo grande perfeição e detalhe, investindo agora Sofia em novas formas de artesanato.

A última oradora foi Andreia Oliveira que, à semelhança de Sofia, também enveredou pelo caminho do artesanato, vendendo os seus produtos através de uma página on-line. O projeto possui, como as suas congéneres, a ajuda e o apoio da mãe, que investe na conceptualização e criação de produtos em tecido. Andreia foca-se na bijuteria, vendo crescer a bom ritmo a marca “Made by me”, depois de uma primeira tentativa, com um nome mais popular, que não captou qualquer interesse do público.

O Chá terminou com um momento musical, encerrando-se assim o Dia da Mulher em Alcanena. A iniciativa inseriu-se no projeto “Crescer e Desenvolver Alcanena”, dentro do Gabinete de Apoio ao Empreendedorismo da Câmara Municipal.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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