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Segunda-feira, Novembro 29, 2021

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Alcanena | CCV Alviela celebra 10 anos a trabalhar pela consciência científica

O Centro de Ciência Viva (CCV) do Alviela celebrou no dia 15 de dezembro de 2017, a sua primeira década de vida. Instalado na praia fluvial dos Olhos de Água, na ex-freguesia de Louriceira, concelho de Alcanena, o Centro tem tido nos últimos anos uma forte dinâmica didática e científica, que o tem aproximado da população. A encabeçar esta transformação está a diretora, Paula Robalo, que frisa também o apoio do município ao projeto. Num concelho conhecido por uma certa tradição em problemas ambientais, o CCV Alviela, ou Carsoscópio, está há 10 anos a trabalhar pela consciência científica, com uma forte componente de consciencialização ambiental.

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Numa das primeiras salas da exposição do CCV Alviela há duas maquetes 3D com os percursos subterrâneos da água na rede cársica, em concreto – visualizemos – a Serra de Santo António. Na primeira maquete, junto a uma alavanca, pode ler-se: “O que aconteceria se um camião cisterna derramasse toda a sua carga (gasolina) sobre o carso? Quando esta luz estiver verde acione o manipulo e descubra”. Damos à alavanca e um pequeno camião tomba, projetando uma luz vermelha sobre, primeiro, o solo e depois sobre a rede subterrânea até vários metros de profundidade, contaminando os lençóis de água.

Uma explicação simples e muito elucidativa sobre as consequências da poluição que afeta, sob diversas formas, a região.

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Foto: D.R.

Paula Robalo mostra sem problemas o CCV Alviela e autoriza a captação de imagem. O objetivo é sempre promover o Centro e a divulgação científica, seja com debates sobre drones ou espécies raras em vias de extinção, seja como iniciativas mais lúdicas, como o recente Baile dos Morcegos. Há ainda as saídas de campo, onde os passeios noturnos para ver morcegos são dos mais característicos deste Centro. Anualmente, o espaço recebe em média 17 mil visitas, a maioria de escolas.

O CCV Alviela nasceu em 2007 em consequência de um projeto prévio, dos anos 90, para um centro de interpretação das nascentes do Alviela, ao qual se associou a Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica. A associação foi formalmente constituída em 2011, integrando a Câmara de Alcanena, a Ciência Viva, o Instituto Politécnico de Leiria e o Instituto para a Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF). O financiamento do espaço parte da bilheteira e do próprio município.

Não obstante, a diretora fala da necessidade de encontrar novas parcerias para manter a dinâmica do projeto e as iniciativas que promovem o crescente interesse da população. A passagem de Elvira Fortunato pelo Centro foi dos eventos com mais adesão, devido também à particularidade de ter raízes no concelho, mas também as noites dedicadas à robótica e aos drones. O CCV Alviela é um projeto que se quer junto das pessoas, permitindo também uma maior capacitação para a cidadania.

A programação de 2018, adiantou Paula Robalo ao mediotejo.net, focará bastante a problemática da água e da poluição.

Para quem não sabe, o que é exatamente a rede de Centros Ciência Viva?

Paula Robalo (PR): A rede de Centros Ciência Viva é uma rede nacional, única na Europa e eventualmente no mundo também, que promove e divulga a cultura científica. Surgiu com o professor José Mariano Gago, em 1996, com esse intuito de promover a educação experimental nas escolas. A nossa prioridade também são as escolas. Incentivar os jovens para as ciências, para o ensino experimental, melhorar também a cultura científica.

Isto resultou de um estudo que o então Ministro da Ciência e Tecnologia, que era o Mariano Gago, mandou fazer nas escolas para tentar perceber como estava a cultura científica em Portugal.

E como estava esta cultura científica em 1996?

PR: Estava muito mal. Numa altura em que se queria acompanhar a Europa, que estava com os olhos virados para a ciência e tecnologia, houve essa necessidade. O José Mariano Gago foi um visionário e criou este programa da Ciência Viva para melhorar a cultura científica dos portugueses.

Há vários Centros Ciência Viva no país, com várias temáticas. Aqui o foco é o Carso. O que é que as pessoas que vêm aqui podem ver?

PR: As pessoas que vierem aqui podem ver tudo o que esteja relacionado com o património natural. Temos o Carso sim, mas não só. Nós estamos ao lado da maior nascente cársica do país, a nascente do Alviela. O tesouro do século XXI: a água. E portanto nós também temos essa componente de sensibilização para a proteção da água. E neste ano de seca tão dramático temos que promover esta necessidade urgente de proteger a água, de evitar gastos desnecessários.

Também temos muito próximo de nós um importante abrigo maternidade de morcegos. Morcegos cavernículas. Na gruta da Lapa da Canada, de abril a setembro, chegam sempre aqui cerca de 5 mil morcegos que vêm ter as suas crias. Existem em Portugal 27 espécies, aqui estão identificadas 12, nove das quais estão em extinção. Cabe-nos a nós também sensibilizar também para a importância destes mamíferos. Temos até inclusive, instaladas nessa gruta, quatro câmaras de infravermelhos. Temos um observatório de morcegos cavernículas, que está a transmitir em direto na Ecoesfera do (jornal) Público e também na nossa página. Um projeto também pioneiro, em Portugal e na Europa, quando ele surgiu em 2003.

O carso, a água e os morcegos são as nossas temáticas aqui no CCV Alviela. Promovemos também o conhecimento sobre o maciço calcário estremenho. Esta grande unidade geomorfológica que existe em Portugal, de onde se extrai grande quantidade de pedra. Fazemos também passeios científicos, que dão a conhecer a fauna, a flora, a geologia, a diversidade aqui do maciço calcário estremenho. É importante as pessoas conhecerem para proteger.

Para além da componente didática, também se realiza aqui investigação científica?

PR: Por norma os Centros Ciência Viva têm esta componente de divulgação de ciência. Nós neste âmbito, uma vez que temos associado a nós este observatório – que eu continuo a considerar uma excelente ferramenta de investigação científica, porque há muito poucos abrigos maternidade tão grandes como este em Portugal – estou a tentar junto das Universidades que comecem a pedir aos alunos de mestrado, projetos de final de curso, para utilizarem esta ferramenta para a sua investigação. Nós propriamente não fazemos, mas queremos ser um recurso para quem faz investigação.

Têm interessados?

PR: Na Universidade de Évora estão bastante interessados. Nomeadamente em fazer observação, usar as imagens captadas no nosso observatório para fazer investigação na parte comportamental dos morcegos.

O público é maioritariamente escolas, é verdade. Mas isso também é o core business do Ciência Viva, faz sentido. Mas é com muito agrado também que eu constato, de ano para ano, que o público individual, as famílias, têm comparecido com maior frequência. E isso observa-se nos meses de férias e aos fins de semana

Estamos a falar de certo modo no estudo do equilíbrio do ecossistema, porque os morcegos têm essa função de controlo de pragas…

PR: Sim (…) Os morcegos comem metade do seu peso todas as noites em insetos. Só esta colónia que aqui está, cerca de 5 mil morcegos, são capazes de comer quase 50 quilos por noite de insetos. São um excelente controlador de pragas. Cabe-nos a nós também sensibilizar as pessoas para tirarem aquela ideia mítica e errada dos ratos com asas, que mordem e comem animais. Os nossos morcegos aqui comem insetos.

Que balanço faz destes 10 anos?

PR: Sou suspeita para falar (risos). Estou aqui no Centro há quatro anos. O Centro esteve encerrado cerca de um ano e meio para fazer a requalificação. Houve um tornado aqui nesta zona em 2008 que danificou uma parte do edifício. Entretanto as exposições também estavam a precisar de ser renovadas e foi nessa altura que se constitui a associação para recuperar o CCV Alviela. A Câmara ficou incumbida de regenerar o edifício, surgiram novas áreas, a Ciência Viva ficou responsável pelos conteúdos científicos, para recuperar as exposições, e o Instituto Politécnico de Leiria fez a parte dos módulos, toda a tecnologia que temos aqui. O ICNF deu apoio na parte científica.

Nessa altura surgiu uma nova direção, para a qual eu fui convidada para participar. Eu estava a trabalhar no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. Eu estou na Ciência Viva há 18 anos e tinha know-how. Isto é um local maravilhoso que merecia ser muito bem reaproveitado. E portanto é o que estou a fazer aqui desde 2013, quando reabrimos ao público depois desta requalificação, e acho que o saldo tem sido bastante positivo.

Vejo as pessoas a reconhecerem o Centro Ciência Viva e o trabalho que fazemos aqui. Já se começam a habituar que há coisas a acontecer e isso vê-se muito nos nossos Café Ciência, por exemplo. Temos sempre público, mais de 30 pessoas aqui, e isso é muito bom. Isto tem sido sempre um crescendo, as pessoas começam a habituar-se às nossas atividades. Por isso é muito importante para nós termos esta programação paralela, não ser só as exposições, a oferta contínua é muito importante. E oferta de qualidade. As pessoas já se habituaram que se vierem aqui sabem que têm um programa de qualidade.

Continuamos a ter uma média de 17 mil visitantes por ano. O público é maioritariamente escolas, é verdade. Mas isso também é o core business do Ciência Viva, faz sentido. Mas é com muito agrado também que eu constato, de ano para ano, que o público individual, as famílias, têm comparecido com maior frequência. E isso observa-se nos meses de férias e aos fins de semana. Antigamente era muito pontual e neste momento temos sempre gente aqui aos fins de semana. Isso deixa-me muito satisfeita e também demonstra que estamos a fazer um bom trabalho.

O CCV Alviela acaba por ter uma programação muito diversificada: desde a Elvira Fortunato, aos drones, à alimentação do futuro, etc. Como planeiam este programa?

PR: Em equipa. Também dou liberdade à equipa para ter as suas ideias. Fazemos reuniões de brainstorming. Isto não é uma programação estanque, vão surgindo outras coisas ao longo do ano. Nós somos plataformas que promovem o contacto com os investigadores e o público em geral.

Quais os projetos que gostariam de desenvolver para os próximos anos?

PR: Nós gostávamos muito de ter uma oferta mais variada a nível de exposições. Mas isso é uma coisa que custa dinheiro. Precisamos de apoio, de investimento, para se conseguir ter aqui uma exposição de qualidade. As exposições também têm que ser renovadas. Gostávamos também de poder renovar o filme.

Um dos projetos que tenho é arranjar parceiros a longo termo e sobretudo atrairmos aqui mais turistas estrangeiros. Desde que aqui estou tenho procurado fomentar as parcerias locais, pois penso que é importante para fomentar a região. Temos parceria com a gruta do algar do Pena, com as grutas da moeda, a quinta do arrife (…) Mas precisava também de parceiros financeiros que nos ajudem a dinamizar mais o Centro.

Somos uma associação sem fins lucrativos, a nossa missão é promover o conhecimento científico, uma cidadania ativa baseada no conhecimento científico. Os preços da bilheteira são simbólicos, fazemos muitas atividades gratuitas. Mas era preciso mais para dinamizar o Centro como o espaço merece.

Foi lançado um cartão dos circuitos Ciência Viva, com todo um conjunto de descontos na rede. Como está a ser a aceitação?

PR: O cartão está a ter uma excelente adesão. Mais de 2 mil cartões já foram vendidos. Mas não nos podemos esquecer que isto é um trabalho de rede, não do CCV Alviela. É um trabalho que começou no Pavilhão do Conhecimento e que foi feito com toda a rede Ciência Viva. Importa também perceber que dada a importância e qualidade do projeto, a National Geographic já se associou. Reconheceu o interesse científico e a qualidade do circuito. Temos bons parceiros: a CP, a GALP, a SATA e sobretudo a Vodafone. É um trabalho com muita qualidade e que está a ser muito bem recebido. As pessoas têm circulado.

Nós gostávamos muito de ter uma oferta mais variada a nível de exposições. Mas isso é uma coisa que custa dinheiro. Precisamos de apoio, de investimento, para se conseguir ter aqui uma exposição de qualidade

As pessoas interessam-se por ciência?

PR: (risos) Eu acho que as pessoas têm curiosidade por ciência. Se assim não fosse eu acho que não se justificava os números que temos aqui e eu nem estou a falar do público escolar. Estou a falar do público em geral, as famílias, que visitam os Centros Ciência Viva. Eu acredito que as pessoas interessam-se por ciência. Podem gostar mais de uns conteúdos que outros, eu acho que a diferença pode estar aí. Mas de uma maneira geral todos nós temos curiosidade em saber como as coisas surgiram, o que se está a fazer e para onde caminhamos. O ser humano é um ser curioso por natureza e é essa a função dos Centros Ciência Viva: fomentar esta curiosidade desde pequenino.

MT: No dia 15 de dezembro vão ter aqui um programa de aniversário, com a presença do Dr. Diogo Abreu. Qual vai ser o tema da conferência?

PR: O Dr. Diogo Abreu, do Instituto da Geografia e Ordenamento do Território, vem falar da geografia humana. Vem falar da importância da nascente cársica para a fixação das populações, da indústria. Vem falar um pouco sobre as características do carso que fizeram com que surgissem produtos regionais típicos aqui na região, como o queijo de cabra, as oliveiras, o azeite. Isto porque de seguida vamos ter uma degustação de produtos da região. Vamos ter uma “Lagarada de Ciência” (evento solidário cujo valor adquirido reverterá para uma escola afetada pelos incêndios, para adquirir equipamento de ciência).

O CCV Alviela acaba por ter uma ligação muito forte à Câmara Municipal…

PR: Temos uma boa relação com a Câmara de Alcanena. Tenho a certeza que a sra presidente reconhece a importância e o valor que tem este Centro aqui no concelho. Nós também sempre que podemos colaboramos com o concelho (…) e somos também um pólo de dinamização.

O concelho de Alcanena tem tido alguns problemas de cariz ambiental. Já pensaram em realizar iniciativas dentro dessa temática?

PR: Eu ainda não discuti essa questão com a sra.presidente. As nossas atividades são no âmbito da sensibilização ambiental. Infelizmente não podemos fazer muito mais do que aquilo que fazemos. Tivemos aqui aquela situação na nascente e assim que nos apercebemos chamámos as entidades competentes. Fazemos a sensibilização quando as pessoas vêm e temos aquelas maquetes na sala do carso que mostram como a água circula. Temos uma maquete que fala na poluição, no que acontece quando se deita qualquer coisa para os algares. As pessoas até ficam surpreendidas. Mais do que isso…

 

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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