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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021
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Alcanena | Carlos e Pedro estão a dar voz aos atletas sem voz que lutam por títulos nacionais

Câmara de Chamada” é um canal de youtube que nasceu em tempo de confinamento, na aldeia de Monsanto, concelho de Alcanena, pela mão de dois irmãos, ex-atletas de decatlo em alta competição. Carlos Santos, 34 anos, e Pedro Santos, 32 anos, têm feito da vida a prática desportiva, sendo o primeiro o responsável pelo Centro de Marcha e Corrida de Alcanena. Na tentativa de manter os alunos motivados em confinamento, Carlos lembrou-se de fazer vídeos sobre boas práticas em desporto. Dos vídeos saltou para as entrevistas a atletas nacionais, procurando dar a conhecer tudo o que está por traz dos títulos e dos pódios. O canal tem evoluído, começando a dar voz a muitos dos problemas que afetam o atletismo nacional, setor que mais medalhas tem trazido ao país.  

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Carlos e Pedro entraram no atletismo pela mão do treinador Paulo Constantino, que em meados dos anos 90 procurava formar uma nova equipa de decatlo na Casa do Povo de Alcanena. “Ele estava à procura de talentos para a escola de atletismo da Casa do Povo”, recorda Carlos. “Nunca saímos do clube, apesar de termos sido tentados a isso”, admite Pedro.

Sempre em Alcanena, os irmãos mantiveram-se assim ao longo dos anos num registo de atletas profissionais/amadores, treinando ao nível dos melhores e representando Portugal em Taças da Europa, Mundiais de Atletismo e Campeonatos Ibero-Americanos, mas sem nunca se chegarem a profissionalizar. A Casa do Povo de Alcanena, afirmam, deu-lhes sempre as condições para competir, razão pelas quais se mantiveram ligados ao clube.

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Num percurso desportivo rico e com alguns pódios alcançados, os irmãos nunca conseguiram, porém, concretizar o objetivo de competirem um contra o outro. “Somos irmãos, amigos, competidores”, admite Carlos. O afastamento da prática competitiva deu-se apenas nos últimos anos, devido às lesões de Pedro e a persecução de outros objetivos por Carlos. Nenhum dos dois se retirou porém completamente, dedicando-se a outras modalidades, como por exemplo o BTT.

Nunca foi pela competição, admitem, “era por gosto”, pelas amizades, pela participação. “O maior prémio que temos é o reconhecimento de termos dedicado tanto ao atletismo”, salienta Carlos.

Pedro e Carlos tem centenas de medalhas e dezenas de taças, uma vida dedicada à prática desportiva Foto:mediotejo.net

A “câmara de chamada”, explicam, é um espaço que todos os atletas conhecem, por onde todos passam. É o lugar onde aguardam a autorização para entrar na pista e competir.

Durante o confinamento, Carlos lembrou-se de fazer vídeos para continuar a motivar os alunos do Centro de Marcha e Corrida de Alcanena, que atualmente conta com 127 inscritos.

“Comecei com os diretos no facebook, mas rapidamente fiquei sem assunto”, recorda. Lembrou-se então de fazer entrevistas a atletas profissionais, dando a conhecer o seu quotidiano de treino e ambições de competição, numa perspetiva de dar a conhecer as suas histórias aos alunos. Depois de mais de duas dezenas de entrevistas começou a ter um público a pedir cada vez mais conteúdos. Nasceu assim um novo canal, a “Câmara de Chamada”.

Carlos e Pedro envolveram-se a fundo neste projeto e já entrevistaram alguns nomes sonantes do atletismo nacional, como Jéssica Augusto, Inês Henriques, João Vieira, Aurora Cunha, Paulo Guerra, Patrícia Silva, entre outros. A maioria destes nomes só são mencionados quando ganham um grande prémio ou eventualmente conseguem ir aos Jogos Olímpicos. Fora destes cenários, constatam os irmãos, são desportistas relativamente desconhecidos fora do meio, que se mantêm na competição por vezes com grandes dificuldades.

“Tentámos pegar nestes exemplos para motivar, porque deixaram de haver competições”, explica Carlos, “tentamos dar a conhecer o que está por trás do atleta, pormenores que não estão ao alcance de todos”. “Não queremos a parte dos resultados, mas o que está por trás. Eles abrem-se”, constata Pedro.

Carlos e Pedro sentem que estão a fazer um trabalho pela divulgação do atletismo que tem falhado junto da Federação de Atletismo. Nas entrevistas surgem frequentemente desabafos de problemas burocráticos relacionados com a instituição e não tanto por falta de apoios monetários. Esta tem-se tornado assim gradualmente uma forma de dar voz aos atletas que não se sentem ouvidos pela Federação e cujos problemas burocráticos crónicos afetam por vezes a competição.

“Gostávamos que o atletismo tivesse o lugar que merece na sociedade”, admite Carlos, recordando que é o setor desportivo com mais medalhas. Entretanto os irmãos já estão a diversificar a oferta de conteúdos, fazendo entrevistas de rua para avaliar a literacia desportiva ou transmitindo e comentando a o Campeonato Mundial de Meia Maratona.

“Só estávamos a acompanhar os resultados dos portugueses, mas tivemos brasileiros a assistir a perguntar pelos resultados” das equipas brasileiras, situação que os surpreendeu.

A “Câmara de Chamada” transmitiu e comentou o Campeonato Mundial de Meia Maratona, ficando os irmãos surpreendidos por terem brasileiros a perguntar pelos resultados das suas equipas Foto: mediotejo.net

Nas entrevistas, tem-se procurado “esquecer” a pandemia, situação que tem afetado muito a prática desportiva. Mas há dificuldades, constatam, que já duram há muito mais tempo.

O futuro do projeto é uma incógnita e para já os irmãos querem apenas continuar as suas entrevistas e a dar voz aos atletas nacionais. À porta de um ano de Jogos Olímpicos, é objetivo de Carlos e Pedro começar a acompanhar a preparação das equipas que vão representar Portugal. Os órgãos de comunicação tradicionais, refletem, só se lembram dos atletas nas vésperas da competição, o que se traduz numa grande pressão sobre estes. Os irmãos querem posicionar-se antes, dando a conhecer todo o processo até a Tóquio 2021.

“O nosso objetivo é mudar a mentalidade desportiva em Portugal”, admite Carlos. “No atletismo é um contra o resto do mundo”.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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