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Segunda-feira, Junho 21, 2021

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Alcanena: Arnaldo Anacleto – “O navegante” da Louriceira

Arnaldo Anacleto, 67 anos, nascido e criado na Louriceira, foi durante vários anos um dos rostos da informação de Alcanena. Da luta pela despoluição do rio Alviela ao blogue de informação “O Navegante”, tem-se dedicado a realizar o registo histórico do concelho e das gentes da freguesia da Louriceira, sobretudo no último século. Conseguiu reunir cerca de um milhar de fotografias, algumas dos fins do século XIX, que narram hábitos e costumes de um povo rural e vítima da miséria. Hoje trabalha menos, já chegada a reforma, mas continua a ter um olhar crítico e assertivo sobre a sua terra.

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Há quem afirme que o jornalista é um historiador frustrado. A divisa tem uma série de reformulações, adaptando-se à ambição no mundo das letras que ficou cumprida pela metade. Arnaldo Anacleto porém conseguiu criar obra nas duas áreas, ainda que o seu percurso inicial em nada o encaminhasse para tal destino. Trabalhou na indústria metalúrgica, passou pelo serviço militar, pelos têxteis de Minde e foi terminar à EDP, a prestar serviços como informático. Quando o questionam como no meio de áreas tão divergentes se decidiu a dedicar à História e ao jornalismo, começa pela reforma e vai contando o percurso em ordem inversa. É que o mundo da informação teve várias fases e surgiu quase por acaso na vida deste industrial.

Arnaldo Anacleto tem cerca de um milhar de fotografias do povo da Louriceira. foto mediotejo.net
Arnaldo Anacleto tem cerca de um milhar de fotografias do povo da Louriceira. foto mediotejo.net

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O ponto de viragem na vida de Arnaldo Anacleto deu-se, curiosamente, aos 54 anos, quando teve direito à pré-reforma. “Cai em casa, isolado, sozinho. As pessoas diziam-me para ter cuidado com o isolamento. É uma ilusão (a ideia da reforma), que somos livres para fazer outras coisas”, constata. Foi nessa época que começaram as suas primeiras investigações sobre a aldeia da Louriceira.

“Gosto muito da minha aldeia”, começa por frisar. “Lembrei-me de fazer uma recolha fotográfica” das gentes da terra, acabando por organizar uma série de vídeos que foram projetados em alguns eventos da freguesia. “As pessoas ficaram surpresas”, sublinha, explicando que o projeto seria bem recebido.

Ao mesmo tempo, começa a elaborar vários cadernos com investigação histórica sobre a Louriceira, o rio Alviela e o concelho de Alcanena. Um deles dedicou-se à recolha e organização das crónicas do “Zé Contribuinte”, personagem anónima que escreveu durante os anos 90 no extinto jornal “O Alviela”, único periódico de Alcanena. No final desta rúbrica dedicada à crítica social, escrita em modo irónico e com a sua dose de sarcasmo, saber-se-ia que o autor era José da Luz Saramago, outro habitante da Louriceia.

família da Louriceira do século XIX. arquivo Arnaldo Anacleto
família da Louriceira do século XIX. arquivo Arnaldo Anacleto

Arnaldo Anacleto folheia o único exemplar que lhe restou desta caderno em particular, verdadeiro testemunho sobre os problemas e as gentes de Alcanena, e lê em voz alta alguns parágrafos. O estilo reverencial, pejado de subtexto, tão característico quanto acutilante, é uma memória viva que Arnaldo Anacleto conseguiu preservar da história da sua terra.

“Vª Exª é uma personagem pouco vista. Pouco conhecida. Quase nunca sei onde se encontra e, quando bato à porta certa, quase sempre faz ouvidos de marcador.

Por tudo isto e para que Vª Exª possa dispor de tempo de resposta, resolvi escrever-lhe hoje e cada vez que os meus direitos de cidadão sejam atropelados ou, simplesmente, quando tenha alguma dúvida (o que não significa que tenha razão).”

Zé Contribuinte “A Quem de Direito” (22/02/92)

O tempo livre leva-o a dedicar-se também a projetos jornalísticos, como o blogue “O Navegante”, que vai mantendo com informação sobre o concelho de Alcanena e o Ribatejo durante algum tempo (hoje já não atualiza). Para este efeito já lhe servira a experiência a trabalhar, nos anos 80/90, nas rádios Pernes e Voz de Alcanena (extinta), onde desenvolvia vários programas de conversa. Em Pernes sobre prevenção e segurança no trabalho e em Alcanena com o “Tvários”, programa dedicado também à música. Chegou ainda a fazer os Domingos Desportivos com o jornalista Paulo Cintrão, hoje uma das vozes da TSF.

família da Louriceira de meados do século XX. arquivo Arnaldo Anacleto
família da Louriceira de meados do século XX. arquivo Arnaldo Anacleto

A tudo isto se dedica durante cerca de uma década, até que a reforma oficial chega e decide parar. Permanece o interesse pela história da Louriceira, que ainda vai investigando, e sobre a qual gostaria de realizar mais estudos. “Tenho uma monografia simples com recolhas de pessoas amigas, com datas de obras e presidente de junta de freguesia”, adianta, mostrando o pequeno livro que reúne toda a informação sobre a história oficial da Louriceira. “A freguesia é muito antiga, chegou a pertencer ao concelho de Santarém e só passou para Alcanena há 100 anos, com a formação do município”, explica.

É a este centenário que se dedica Arnaldo Anacleto, levantando-se e mostrando as fotografias que recolheu durante os últimos 10 anos. A vivência das pessoas, constata, dividia-se sobretudo entre os casados e os solteiros. “Os casamentos eram em casa, os jogos de futebol eram entre casados e solteiros, as pessoas andavam de burro e bicicleta”, vai explicando, passando de fotografia em fotografia. “As habitações eram pobres”, salienta, lembrando as estradas enlameadas, os pés descalços e a miséria. “As três profissões nas décadas de 40 a 70 eram o trabalhador rural/cavador, o alfaiate e o sapateiro. Eram as profissões predominantes nas aldeias”, explica, mostrando uma foto ilustrativa deste facto.

Da Louriceira ao Alviela, Arnaldo Anacleto escreveu uma série de cadernos que contam a história da sua terra. foto mediotejo.net
Da Louriceira ao Alviela, Arnaldo Anacleto escreveu uma série de cadernos que contam a história da sua terra. foto mediotejo.net

Arnaldo Anacleto lembra que, em criança, via homens com inchadas a irem para Alcanena todas as segundas-feiras. Um dia seguiu-os. Descobriu que iam à procura de trabalho para essa semana, “trabalhavam de sol a sol”, e aqueles que não conseguiam regressavam a casa por atalhos e caminhos alternativos, “cheios de vergonha de não terem sido escolhidos”. Mas “dentro da miséria ainda havia alegria e lá se juntavam e conviviam aos domingos no largo da aldeia, com música”.

“Quem conheceu isto e quem conhece agora é que dá o valor”, constata, passando pelas fotografias de mulheres lavando a roupa no Alviela, homens a pescar no Inverno, os carros antigos, os cântaros à cabeça. “Haviam as tabernas, que eram os centros de convívio onde se falava com os mais idosos para adquirir conhecimentos de outros tempos”, refere, lamentando que este tipo de reuniões sociais tenham vindo a desaparecer com os anos.

Antes de se construir a ETAR, Arnaldo Anacleto foi um dos impulsionadores da legalização da Comissão de Luta Antipoluição do Alviela. “As pessoas sofreram ali muito”, ainda recorda, contando vários episódios, trabalho que deu origem ao caderno “Rio Alviela – Impactos da Poluição (2002-2005)”. Nesta pequena obra, relata a esperança da população coma criação da ETAR e como em 2005 a poluição parecia estar de regresso ao Alviela.

“O cheiro, a espuma, a cor tinham praticamente desaparecido, foi até possível mergulharmos no rio durante um passeio de BTT. Os peixes, as rãs, as aves aquáticas e outras espécies de serem vivos voltaram a ocupar um território que lhe tinham retirado e a formar de novo um ecossistema valioso na nossa região.

(…)

O anos de 2005 continuou a ser um ano bastante problemático. Em janeiro registámos enormes mortandades próximo da foz. Em Agosto voltou-se  a assistir à mortandade nos Açudes de Azenha e Soirinho e em Outubro a situação repetiu-se até ao Açude do Moseiro numa forma mais dispersa”.

In “Rio Alviela – Impactos da Poluição (2002-2005)”

Terminamos a nossa conversa a perguntar o que se poderia fazer mais pela Louriceira e por Alcanena. Na freguesia, o jornalista/historiador/metalúrgico/informático acredita que a população beneficiaria com a realização de colóquios com historiadores, “para dar a conhecer ás pessoas a sua história”. Para Alcanena o mesmo. “Podia-se fazer muito mais, porque o concelho tem artistas importantíssimos que são desconhecidos da população”, refere. “Minde é rico em cultura e muita gente desconhece essa riqueza”.

Os três trabalhadores típicos da Louriceira em meados do século XX: o cavador, o sapateiro e o alfaiate. arquivo arnaldo anacleto
Os três trabalhadores típicos da Louriceira em meados do século XX: o cavador, o sapateiro e o alfaiate. arquivo arnaldo anacleto

Num concelho casa vez mais envelhecido, era importante contar aos jovens as histórias da sua terra, num momento em que todos partem para as grandes cidades. Ao mesmo tempo, constata, há uma cerca radicação de famílias de meia ideia no município. Fenómeno interessante, reconhecemos, mas que o investigador não consegue explicar.

Arnaldo conclui que gostaria de investigar mais o abandono da agricultura, “perceber o menosprezo”. Cada pessoa tem o seu pedaço de terra, mas a poluição do Alviela desmotivou durante muitos anos as culturas. Depois há os roubos.

Arnaldo Anacleto. foto mediotejo.net
Arnaldo Anacleto. foto mediotejo.net

“Gostava de perceber porque está isto a acontecer”. Mas, divaga, “fazer estas coisas sozinho também é difícil. Antes as pessoas falavam todas, antes todos conversavam”. Hoje o mundo parece isolar-se dentro das suas casas…

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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