Alcanena | Apoio regional tem que ser “robusto” para Materiais Diversos continuar

A Materiais Diversos apresentou no sábado, 24 de outubro, em Minde, no concelho de Alcanena, o livro “Paisagens Imprevistas”, uma obra que reúne entrevistas e ensaios em torno de uma década de trabalho da instituição, nomeadamente em torno do seu Festival. Nascida no concelho de Alcanena, a Materiais Diversos já se expandiu além do território, mas vê agora com incerteza o futuro pós-pandemia. Segundo admitiu a diretora artística, Elisabete Paiva, os apoios dos municípios têm sido inconsistentes e é necessário assegurar a sustentabilidade do projeto.

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Ao celebrar uma década, a Materiais Diversos decidiu fazer as contas e apercebeu-se de um investimento próximo de 1 milhão de euros no concelho de Alcanena, com cerca de 400 espetáculos, oficinas, residências artísticas, debates, conversas, exposições, envolvendo 70.000 espetadores. A estrutura de promoção cultural tem financiamento do Ministério da Cultura, através da Direcção-Geral das Artes, e atua também no município do Cartaxo, mantendo associadas a si seis pessoas. Desde 2017 que o seu Festival de Materiais Diversos passou a ser bienal.

“Este é um projeto muito importante a nível nacional, inspirado noutros que já existiam, mas que quer afirmar que a cultura é sempre no plural, são sempre as culturas”, constatou Elisabete Paiva, pelo que a arte contemporânea e a cultura popular “não têm que andar desligadas”. A Materiais Diversos permitiu afirmar que “fora dos grandes centros urbanos é importante, é necessário e é possível apresentar uma diversidade como este festival tem apresentado e envolver a comunidade numa reflexão, na construção de um sentido crítico”.

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Ao preparar o livro sobre a última década, a associação decidiu organizar as contas e apercebeu-se do elevado montante já investido em Alcanena. Segundo o “dossier” deste balanço, a Materiais Diversos concluiu que foram investidos no concelho um valor de 717.095 euros, a que se somaram 220.000 euros (170.000 dos quais no período entre 2009 e 2014) assumidos pelo município, tendo realizado neste território um total de 384 atividades, a que assistiram 61.555 pessoas.

“Nós não tínhamos a perceção que seria um valor tão elevado”, admitiu a diretora artística, constatando que o trabalho cultural é sempre gerado em torno de enormes dificuldades. “Achámos importante fazer um levantamento mais factual”, explicou, não só para fins de arquivo como de apresentação a potenciais parceiros.

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“Paisagens Imprevistas” é o balanço de uma década da Materiais Diversos Foto: mediotejo.net

Quanto ao futuro, a responsável constata que “a realidade é frágil” e imprevisível. “O mais importante neste momento é que na região e nos concelhos a que temos dedicado o nosso trabalho haja um equivalente financeiro que reconheça o valor” que o projeto tem trazido ao território, defendeu. O apoio estatal tem sido “robusto”, reconheceu, mas a nível regional e local não tem havido a mesma consistência.

Elisabete Paiva defendeu assim que “é importante que todos juntos façamos a análise destes 10 anos”, por forma a que o Festival possa continuar, assente numa colaboração conjunta e na diversidade de parcerias. A diretora artística lembrou que a estrutura trabalha a nível internacional, mas a sua base é local. Pelo que “sem um apoio local e regional robusto a sua sustentabilidade pode estar em causa”.

Quanto ao Festival de 2021, este encontra-se agendado para os meses de setembro e outubro e está-se a trabalhar num programa adaptado às novas circunstâncias. O modelo está porém ainda rodeado de grandes incertezas.

Na sessão de apresentação do livro esteve presente o vereador Luís Pires, que recordou o dia em que coreógrafo Tiago Guedes, cofundador da associação, se dirigiu à Câmara para falar do festival.

O autarca lembrou a forma como a população foi envolvida no projeto, o que causou inclusive algum atrito com as outras coletividades. “Nunca deixámos de apoiar, mesmo com dificuldades financeiras”, comentou, “quando precisarem de alguma coisa é só bater à porta”.

c/LUSA

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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