Alcanena | Alcanenense não quer sair do Estádio Municipal

A assembleia-geral do Atlético Clube (AC) Alcanenense reuniu na noite de sexta-feira, 4 de maio, para discutir que posição tomar quanto à notificação da Câmara Municipal de Alcanena. O município notificou o clube a sair do Estádio Municipal depois da atual época desportiva, por forma a que o espaço fique livre para as obras de requalificação de que tanto necessita. A decisão, tomada de forma “unilateral” segundo vários dos presentes, não agrada ao Alcanenense, que acredita poder continuar a utilizar o Estádio no decorrer das obras.

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O Estádio Municipal de Alcanena tem perto de 50 anos e os sinais de degradação das bancadas, vedação e balneários são visíveis e têm feito notícia nos últimos meses, com críticas mútuas de quem o utiliza e de quem detém a propriedade. Na reunião camarária de 19 de março o executivo socialista de Fernanda Asseiceira votou favoravelmente o encerramento do Estádio até final da época, para que se avancem com as obras necessárias, previstas para meados da próxima época. O principal utilizador, o Atlético Clube Alcanenense, teria assim que procurar novo campo.

A decisão não obteve consenso, com a oposição dos Cidadãos por Alcanena a votar contra e a abster-se. Na sexta-feira o AC Alcanenense manifestou-se sobre o caso, permitindo à comunicação social que acompanhasse a assembleia-geral da associação.

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ex-presidentes e sócios de longa data lembraram o papel do Alcanenense na aquisição do terreno do Estádio Municipal Foto: mediotejo.net

O presidente da assembleia-geral, Luís Azevedo, constatou de imediato a sensibilidade de toda a situação, considerando que a Câmara Municipal deveria ter conversado primeiro com o clube antes de tomar uma decisão unilateral.

“O Atlético vai ter que pedir uma reunião à Câmara”, defendeu, propondo que se organizasse uma comissão que discutisse o tema com o executivo e levasse um documento vinculativo da posição de toda a associação. Este documento seria delineado no fim da sessão.

Mas porque é que o AC Alcanenense se considera no direito de discutir com o município a utilização do Estádio Municipal? Numa sessão onde estiveram presentes vários ex-presidentes do clube e sócios de longa data, a história da construção do Estádio foi recordada com factos e os documentos que os atestam.

No final dos anos 60, com a boa prestação à época do clube na divisão em que jogava, começou-se a sonhar com o alargamento do seu campo, então no espaço onde funciona atualmente o Mercado. Um conjunto de esforços da altura, conjugados com o apoio do presidente da Câmara de Alcanena, Joaquim Baptista, à iniciativa, fizeram com que o município adquirisse um vasto terreno, designado por Cabeço do Lavradio, onde posteriormente se viria a construir o Estádio e vários outros equipamentos municipais.

A intervenção do clube para a compra do terreno, angariando 100 mil escudos para a Câmara e conseguindo outro tanto montante de desconto na compra, e posteriormente no apoio às obras, fez com que o AC Alcanense obtivesse privilégios de usufruto, sendo o utilizador prioritário do Estádio Municipal a seguir ao município. Existe um regulamento de utilização do Estádio e um protocolo entre a Câmara e o Alcanenense, entre outros documentos apresentados, que atestam esta prioridade e a ligação do clube ao espaço.

Ao longo dos anos a convivência entre as duas entidades nem sempre foi pacífica, tendo sido recordada na assembleia-geral uma situação em que o Tribunal chegou a intervir num diferendo entre Câmara e o AC Alcanenense pela utilização do Estádio. Entregar as “chaves nunca”, foi o conselho deixado pelo presidente do clube dessa época, Herculano Gonçalves.

Estádio Municipal de Alcanena está degradado e a precisar urgentemente de obras Foto: mediotejo.net

Para José Torcato, atual presidente e treinador do Alcanenense, há alternativas à saída do Estádio, considerando também que o município devia ter ouvido o clube antes de tomar a decisão de encerrar o espaço, sobretudo quando o calendário de obras ainda nem sequer está definido.

Constatando o conjunto de problemas que se irão gerar se o clube passar a treinar no campo da Escola de Futebol do Concelho de Alcanena (EFCA), sugeriu que a associação defendesse a sua permanência no Estádio, alugando por exemplo balneários móveis (estimativa de 750/800 euros mês apresentada) ou conjugando-se obras mais sensíveis, como eventualmente uma mudança de relvado, com os meses de verão.

“Nós sairmos daqui é penalizante para o clube”, argumentou.

A discussão envolveu os cerca de 25 sócios presentes, com a proposta de Luís Azevedo a ser aceite unanimemente, assim como a ideia de José Torcato de defender-se a conjugação das obras com a permanência no Estádio.

Ficou decidido pedir uma reunião à Câmara Municipal, onde uma comissão composta por cinco pessoas, encabeçada por José Torcato, vai debater o problema. O grupo levará um documento com os argumentos do clube, nomeadamente: o enquadramento histórico que deu ao AC Alcanenense os privilégios no usufruto do campo e as alternativas discutidas de permanência no campo enquanto decorrerem as obras.

José Torcato admitiu no decorrer da discussão que existem algumas questões pessoais com a atual gestão camarária de Fernanda Asseiceira, mas defendeu que “as coisas não se podem confundir”.

“Esta foi uma situação de muito mau gosto da Câmara para com o clube”, afirmou.

No final da assembleia, José Torcato manifestou ao mediotejo.net a sua satisfação com o consenso encontrado e a adesão dos sócios ao debate, com a presença de ex-presidentes. O AC Alcanenense foi fundado em 1942 e o Estádio Municipal foi construído em 1969 sob o impulso do clube. Atualmente é uma associação desportiva com cerca de 400 sócios.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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