Alcanena | Acácio Santos, o senhor dos chícharos de Bugalhos

Acácio Santos foi fotógrafo e autarca em Alcanena, tendo presidido durante 12 anos à junta de Bugalhos. Foto: mediotejo.net

No rescaldo de mais um Festival dos Chícharos de Bugalhos, o mediotejo.net falou com Acácio Santos, ex-autarca, ex-fotógrafo, cozinheiro, colecionador, artesão multifacetado e o impulsionador da iniciativa em torno dos chícharos, que este ano celebrou a sua oitava edição. Na sua casa em Bugalhos fez nascer, sem dar por isso, um pequeno museu a que deu o nome de “Adega do Pimpão”. É ali que nos conta a sua história, que começa aos 11 anos quando a mãe o encaminhou para a arte da fotografia e passa hoje pelas mais diversas criações de artesanato. A sua última obra, a Igreja de Bugalhos feita em fósforos, foi uma das sensações do último Festival dos Chícharos.

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A casa chama a atenção pelo jardim. Não são propriamente as flores ou as plantas espalhadas ordeiramente junto ao átrio de entrada, mas as mais variadas criações de engenharia que conferiram ao espaço um toque carismático, muito à imagem de quem dele cuida. Um velho tanque para lavar roupa é hoje um aquário (com direito a vários peixes cor-de-laranja de dimensão já significativa), as cabeceiras de duas camas antigas deram lugar a dois bancos de jardim, acompanhado por uma mesa que foi outrora uma clássica máquina de costura.

À chegada, Acácio Santos mostra-nos de imediato um velho barril que transformou num pequeno móvel nos tempos em que se casou e não havia dinheiro para mobiliário. Discretos, dispersos um pouco por toda a moradia, encontram-se sempre imagens de santos: Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora das Graças, São Luís, Santa Justa, entre outros. Uma espécie de homenagem ao nome de família, confessa.

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Artesão multifacetado, Acácio fez de um velho vasilhame um bar. Foto: mediotejo.net

Acácio nasceu a 13 de maio de 1953. Na semana em que completou a 4ª classe, com 11 anos, a mãe arranjou-lhe um emprego como fotógrafo, na antiga “Fotomaroço”. “Tinha 28 quilos”, recorda, “passava a vida doente”, pelo que procurar trabalho nos curtumes estava fora de questão. Pelo que “fui aprender fotografia”, profissão que abraçou para o resto da vida, com negócio próprio nos últimos 20 anos de atividade profissional. Reformado, Acácio guarda hoje algumas preciosidades do mundo da fotografia na sua “Adega do Pimpão”, nomeadamente uma máquina fotográfica de fole que ainda usou durante 15 anos.

“Fui ganhar cinco escudos por dia”, recorda, lembrando que se apaixonou pelo processo de tratamento fotográfico, “muito bonito”, ainda em salas escuras, com placas metálicas e passagens variadas por água. Nesse tempo, a foto nem sempre ficava perfeita. Alguém fechava os olhos, olhava para o lado. Os fotógrafos tinham muito trabalho, inúmeros casamentos e festas, sendo a fotografia um bem menos banal, mais precioso, que no mundo digital de hoje.

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Colecionador, a sua adega acumula um conjunto de objetos que narram a história da sua vida. Foto: mediotejo.net

Com 15 anos fez o seu primeiro trabalho artesanal, um barco em fósforos que ainda preserva. Depois veio a tropa, na qual ficou apenas 11 meses devido aos problemas na vista, o casamento.

Em 1983 foi desafiado a concorrer a presidente da junta de Bugalhos. Venceu e permaneceu no cargo até 1995, tendo-se ainda candidatado à Assembleia Municipal de Alcanena, onde exerceu funções de secretário. Sempre pelos socialistas. Ao fim de 20 anos de vida autárquica, decidiu parar. “Era tempo de virem outras pessoas”, comenta.

Admite que gostou de ser presidente, mas que também foi aí que arranjou os únicos inimigos que possui. A vida de autarca “é complicada”, reconhece. “Pelo menos quando se quer levar” em frente os projetos e a oposição, de outras cores partidárias, só dificulta. Hoje “a política continua a ser a mesma história”, frisa simplesmente, mas “se calhar é mais fácil porque está tudo feito”.

Com a reforma voltou-se para o artesanato, talento que deixara esquecido nos seus 15 anos. Na sua adega, que herdou o nome “Pimpão” da alcunha do pai, coleciona um pouco de tudo, de garrafas a velhos instrumentos agrícolas. Faz licores, aguardente (possui um alambique), fez um bar a partir de um grande vasilhame. Destas suas atividades para ocupar o tempo livre, iniciou a construção de miniaturas de alguns edifícios simbólicos da freguesia. As réplicas do Moinho do Charuto e da Igreja de Bugalhos, feitas a partir de fósforos, chamaram a atenção no último Festival dos Chícharos.

A Igreja de Bugalhos em fósforos foi uma das sensação do último Festival de Chícharos de Bugalhos. Foto: mediotejo.net

Na igreja, em particular, terá gastado cerca de 150 caixas de fósforos. O empreendimento necessitou de várias medições da Igreja original e visitas para atender aos mais variados pormenores. Hoje  estrutura tem luz e um pequeno relógio integrado que assinala as horas. Um trabalho que lhe ocupou muito tempo e um certo esforço, uma vez que a visão só lhe permite trabalhar durante o dia e a atenção da mulher e o filho para o alertarem para os pormenores em falta.

Acácio Santos é, de resto, um empreendedor. Lembra que foi sua a ideia de trazer o Festival dos Chícharos para Bugalhos, aproveitando uma leguminosa que existe na freguesia e que era o prato comum nos seus tempos de mocidade, quando a pobreza era geral e pouco havia de variedade. No Festival assumiu a cozinha, com uma equipa de curiosos por este prato tradicional, que se quer preservar junto dos novos.

“O chícharo não tem sabor, a não ser o tempero que se lhe coloca. É um prato dos mais velhos, não dos jovens”, constata. Depois da sua oitava edição e muita afluência, acredita que o Festival “tem pernas para andar” dentro do modelo que encontrou.

Avaliando a sua vida, afirma que gostou de fazer de tudo, de fotógrafo a autarca, de artesão a cozinheiro de chícharos. É um curioso e vai sempre experimentado novas habilidades. “Também fui columbófilo”, recorda, atividade que abandonou após casar-se.

Mas, apercebemos-nos, mais que qualquer outra coisa, o sr. Acácio é um colecionador. Na sua adega criou inadvertidamente um pequeno museu, onde vai contando em objetos a sua história. Desde a máquina fotográfica de fole às mais modernas, ainda a rolo, a igreja de fósforos e o barril transformado em peça de mobiliário, o forno que construiu para os petiscos, as várias balanças e seus pesos que foi juntando, as garrafas características em vidro, os arados, as foices, as ceifeiras e os martelos, uma placa de madeira onde se lê Bugalhos – recordação de uma das muitas iniciativas da comunidade que vai integrando – as fotografias de antepassados e outras do que ainda vivem; os bibelots, muitos deles imagens de santos, que nos acompanham durante toda a visita.

A história do sr. Acácio conta-se na curiosidade de explorar os objetos. E nas memórias atrás da câmara que contam as muitas histórias da vila.

 

 

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