“Albino Forjaz de Sampaio”, por Armando Fernandes

Herdei um exemplar da vigésima edição da obra Palavras Cínicas da autoria deste exitoso (ao tempo) escritor, jornalista, investigador e gourmet de fino quilate. A dita obra só no século XX terá vendido à volta de cem mil exemplares a deixar muito mal colocados os escritores de agora se nos lembrarmos da inexistência de televisão, cadeias de distribuição, alta taxa de analfabetismo, fraco poder de compra e tutti-quanti na esfera da edição. O escritor morreu em 1949.

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O fecundo homem de letras iniciou-se no jornalismo aos 16 anos debaixo dos auspícios de Fialho de Almeida e Brito Camacho (outro apreciador da boa comida), revelando desde logo vibrações estilísticas a mais tarde lhe granjearem enorme legião de leitores, ferroadas de cariz ideológico e despeitos de natureza profissional, legou-nos mais de uma centena de títulos.

Este texto não tem o propósito de analisar a obra de Forjaz Sampaio repartida nos diversos interesses do autor, desde a história da literatura até à cerâmica, passando pelo romance, a crónica, a poesia, o ensaio, a biblioteconomia, e…obviamente, as artes culinárias, fundamento matricial da gastronomia. O cerne da sua produção no referente à gastronomia está na obra VOLÚPIA, a primeira edição saiu em 1940.

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Os felizardos que possuírem a obra em causa podem fruir leitura amena a enunciar as principais virtudes da cozinha portuguesa, técnicas, e célebres criações no referente à preparação de comeres. Também menciona autores dedicados a tão nobre arte, fazendo relevante (se bem que reduzida) incursão história, saliento a descrição dos banquetes ocorridos por ocasião do casamento do infortunado filho de Dom João II, da autoria de Garcia de Resende, o texto de Fialho de Almeida, ainda as particularidades das cozinhas de vários países a provarem quão versado na matéria era o polémico autor.

A usura do tempo, o crescendo da iliteracia escorada no jargão o tecnológico, a burocracia instalada no domínio da leitura pública (muita parra folclórica e pouca uva ler/lendo) contribuem para o obscurantismo reinante no que toca a escritores de todos os tempos merecedores de atenção, mesmo os do século passado menos referidos nos programas escolares já caíram nesse alçapão.

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Não só o autor do Livro das Cortesãs, outros do século XX o acompanham no ostracismo, relembro uma dúzia deles, todos de grandes méritos, façam favor de ler: Raul Brandão, Carlos Malheiro Dias, Teixeira Gomes, José Rodrigues Miguéis, Teixeira de Pascoaes, José Régio, Tomaz de Figueiredo, João Araújo Correia, Branquinho da Fonseca, Carlos Oliveira, José Gomes Ferreira e Vitorino Nemésio. Mais chegados ao final do século anoto David Mourão Ferreira, Vergílio Ferreira. Quem os lê? Quem os esquece? Porquê?

Esta escolha está eivada de imperfeições, nem a poetisa Natália, nem a romancista Maria Judite Carvalho inclui. Outra vez será.

Armando Fernandes

  1. Julgo que as Bibliotecas têm nos seus acervos obras dos autores trazidos à ribalta.

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