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Domingo, Outubro 17, 2021

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“Ainda votamos por convicção num partido?”, por Hália Santos

Havia lá por casa umas canecas com as caras de uns líderes políticos. Havia lá por casa dois livrinhos com as primeiras ideias defendidas pelo PS e pelo PPD logo a seguir ao 25 de Abril. Lá por casa, as orientações políticas resultavam do percurso de vida de duas famílias que se juntaram, pelo casamento dos filhos. Gente muito humilde, de um lado regista-se a estória de uma avó que foi pedinte na sua infância e, do outro lado, o próprio avô contava a estória do seu primeiro par de botas, usadas, compradas com o dinheiro que ganhou na apanha da azeitona, “pago como uma mulher”, mas com a mesma capacidade de trabalho que um homem.

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Foram vidas de muita privação, de um lado e do outro da família, que fizeram com que estas pessoas acreditassem que um determinado sistema político permitia que, quem trabalhasse a sério, poderia subir um pouco na vida. Sobretudo, podia proporcionar aos filhos uma vida melhor. Também sabiam que famílias muito numerosas seriam mais difíceis de sustentar e de fazer voar para outras condições, para um patamar superior. Isso, aliado a uma viuvez e a uma separação, fez com que a família ficasse mesmo muito pequena.

A força de trabalho, de um lado e do outro da família, foram permitindo que passassem de muito pobres a pequenos proprietários. Mal sabiam ler e escrever e conseguiram fazer aquilo que o sistema lhes dizia que seria uma espécie de poupança reforma combinada com seguro de saúde: compraram propriedades. Trabalharam confiantes de que o Estado era pessoa de bem e que o que lhes era dito seria cumprido. Tinham palavra. Pediram dinheiro e pagaram. Honraram todos os compromissos, incluindo uma pensão de viuvez durante décadas a uma senhora cujo marido morreu numa obra de uma casa deles, quando não havia seguros.

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Aquela gente que nasceu no início do século passado conseguiu atingir os objetivos. Os filhos tiveram uma vida bem melhor e as netas ainda mais. Não se vai aqui contar, outra vez, a estória das rendas congeladas nem a estória da miséria que foi o final de vida desta gente que não fez mais nada na vida senão trabalhar. O que aqui se conta é a confiança que tiveram no Estado e no sistema político. Apesar de traídos (porque, afinal, não conseguiram retirar das propriedades que compraram, com muito suor e talvez muitas lágrimas, o rendimento de que necessitavam para o fim das suas vidas), mantiveram sempre uma fidelidade ao sistema político que achavam que lhes tinha permitido deixar aos filhos um pequeno património de suposta tranquilidade.

Ensinaram os filhos que aquele sistema político reconhecia quem trabalhava. Os filhos acreditaram e transmitiram às filhas. Uma não quis saber de políticas nem de votos, a outra desconfiou. Porque viu esse sistema trair a família e porque via muita gente, ao lado, que trabalhava e que não conseguia nada na vida, muitas vezes, nem sequer estudar. As convicções desta família fragilizaram-se e abalaram as certezas sobre a confiança nos partidos políticos. Nas eleições, muitas vezes não votaram. Às vezes, votaram em branco. Às vezes, deixaram de lado as certezas adquiridas. Outras vezes, votaram como forma de protesto. Um voto muito volátil que não é mais do que um reflexo de uma avaliação do que propõe e do que faz cada partido, em cada momento, num enquadramento próprio de cada indivíduo.

Olhando para as últimas eleições europeias, não terão os resultados sido a consequência desta instabilidade política ao nível micro, de cada voto. Que percentagem de votos serão de pessoas que votam sempre no mesmo partido? Haverá ainda tanta fidelidade como no passado, quando cada eleitor acreditava que o ‘seu’ partido seria sempre ‘seu’? Se as relações entre as pessoas são cada vez mais descartáveis, não serão as relações com os partidos cada vez mais um vai-e-vem, dependendo de uma cara, de uma frase, de uma lei que se apoia ou de uma proposta que nos prejudica?

Se no futebol o apoio a um clube é quase sempre por razões afetivas, nunca se mudando de clube, por muitos campeonatos que perca, na política a fidelidade deveria ser por convicção, por muitas eleições que o partido perdesse. Mas os eleitores que assim pensam parecem ser cada vez mais umas raridades porque os partidos se têm esquecido de convocar para o debate as ideias de fundo, na identificação com princípios, valores e causas.

Não espanta, pois, que haja cada vez menos militância política, assim como elevados números de abstenção, e pouco nos espantaria que boa parte dos eleitores, de facto, fossem votando ora num ora noutro partido, sem convicção e sem emoção.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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