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Sábado, Julho 24, 2021

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Faz sentido celebrar um Feriado do Corpo de Deus?

2016 é o ano do regresso dos feriados, em particular do que se celebra esta quinta-feira, 26 de maio: o Corpo de Deus. Sendo uma das celebrações mais abstratas da Igreja, muitos se surpreendem ao constatar que a data torna a ser marcada como feriado nacional. O Corpo de Deus não tem muita tradição no Médio Tejo, mas há procissões e festas populares associadas, além dos rituais de Primeira Comunhão. Fará ainda sentido fazer do dia um feriado? O mediotejo.net foi tentar perceber a importância da celebração.

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As celebrações do “Corpus Christi” remontam aos tempos de el-rei D. Dinis e a um conjunto de histórias da época associadas a hóstias milagrosas que sangravam. Durante muito tempo, as celebrações eram dias de faustosa festa popular, que misturavam o sagrado e profano, com especial tradição no Norte do País. O Corpo de Deus é celebrado no 60º dia após a Páscoa, na quinta-feira que segue ao domingo da Santíssima Trindade. Neste dia, os católicos têm por obrigação ir à missa, havendo por norma procissões e a celebração da Primeira Comunhão.

O antropólogo especialista em religiosidade popular Aurélio Lopes começa por fazer uma breve análise do crescimento do culto. “É uma razão da Igreja”, constata logo à partida. O Corpo de Deus nasceu no século XIII, enquanto “combate ao culto dos Santos”. Apesar da sua aparente aceitação a nível da religião católica, os Santos são uma derivação cristã da idolatria a certas entidades sobrenaturais nos cultos pagãos. Nesta fase da história da Igreja, procurou-se criar um conjunto de cultos não corporizados, de “aspectos místicos”, como o Espírito Santo e o Corpo de Deus, que afastassem a população desse tipo de devoções mais terrenas.

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Ao longo dos séculos estas celebrações adquiriram contornos de grandes festas, muitas com encenações de histórias religiosas, ganhando importância cultural em vários pontos do país. A partir do século XV foram momentos que reuniam as elites e instituições governativas e eclesiásticas do reino, além de grande adesão dos fiéis, até que o constitucionalismo e a República lhes retiraram, lentamente, a importância.

Atualmente, constata Aurélio Lopes, a Igreja tem feito um esforço para recuperar os cultos místicos não corporizados, razão pela qual entendeu reanimar este feriado com a restituição dos feriados abolidos. Há reativação de festas e Igrejas, da qual o culto do Santíssimo Milagre de Santarém, cuja história é também do século XIII, é um exemplo.

Mas porquê cultos místicos abstratos se as pessoas estabelecem uma relação tão mais próxima e mais reconhecível com os Santos? Aurélio Lopes sublinha que o problema é exatamente esse. Estudioso dos fenómenos de religiosidade popular de toda a região, o antropólogo salienta que as pessoas pedem a estas entidades “as coisas mais egoístas possíveis, até para prejudicar” outros. Embora o Santo deva ser tido como um intermediário com Deus, acaba muitas vezes por ser assumido como uma personagem com poderes sobrenaturais.

O culto dos Santos acaba por ser muito “exterior à Igreja”, sintetiza. Há um “excesso”, destaca, um “mercantilismo da relação com os Santos que se quer combater”. As pessoas “através dos Santos estão sempre a fazer atalhos na relação com Deus”. A Igreja procura outro tipo de relação, em que a própria seja a intermediária.

Ao contrário da Festa do Divino Espírito Santo, que possui bastantes celebrações no Médio Tejo (Tomar, Torres Novas, Alcanena), o Corpo de Deus não possui festividades de maior significância. O Santuário de Fátima assinala a data, tanto na quinta-feira, com missa no recinto e procissão, como no Domingo. A solenidade litúrgica do Sagrado Corpo e Sangue de Cristo “começou a ser celebrada há mais de sete séculos, em 1246, tendo sido alargada à Igreja latina pelo Papa Urbano IV através da bula ‘Transiturus’, em 1264, dotando-a de missa e ofício próprio “, refere a respeito da data a instituição.

Segundo a Lusa, citando o Patriarcado de Lisboa, “no início, esta festa não teve muita repercussão no interior da Igreja, mas, aos poucos, foi tomando força e hoje é celebrada com grande solenidade em todo o mundo” católico. “O Sacramento da Eucaristia é levado às ruas como um gesto e expressão de fé e, ao mesmo tempo, como convite à renovação da própria fé”, refere a mesma fonte. É a “mais antiga e participada de todas as procissões”.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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