Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Terça-feira, Outubro 26, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Água gaseificada com álcool? Não, obrigada”, por Sara Cura

Sempre que vou almoçar ao bar do local onde trabalho, vejo um cartaz da última invenção: água gaseificada com álcool “só com 72 calorias” e “saudavelmente libertadora”.

- Publicidade -

A bebida não está à venda no local mas, na primeira vez que vi isto, pensei logo: “Bolas, anda uma pessoa a tratar da sua vidinha em recuperação, a levar sob o sol tórrido de verão com compulsivos cartazes refrescantes das principais marcas de cerveja, e agora mais esta: água gaseificada com álcool.”

Inodora e incolor, bebe-se sem se dar por isso e, melhor, ninguém nota. Naturalmente eu continuo o meu caminho, com a minha garrafinha de H2O pura (nem sempre fresca, mas é o que se arranja), no entanto, como poderão imaginar, para alguém em recuperação isto suscita as mais variadas reflexões.

- Publicidade -

Não pensem que sou como aqueles ex-fumadores insuportáveis e reacionários com quem fuma. Claro que não, cada um e cada uma faz com o seu corpo o que quer (o fundamental é que o faça sabendo das consequências). Nem sou anti publicidade, mas gosto tanto da sua criatividade, como odeio a sua subliminar manipulação.

Falando justamente em fumar e em publicidade, este anúncio de uma água alcoólica “saudavelmente libertadora” imediatamente me recordou as “Tochas da Liberdade”, do Edward Bernays. Este publicitário norte americano foi absolutamente revolucionário, sobrinho de Sigmund Freud, e cedo compreendeu a relação entre o consumo e os anseios emocionais da população. Assim, numa incrível campanha de publicidade, atrelou o consumo de cigarros pelas mulheres à sua própria emancipação.

Para mim, Bernays é um ser tenebroso, as suas intenções eram obviamente a venda do produto e não a libertação das mulheres, mas o assunto em termos de luta feminista é muito interessante. Não cabe aqui discutir isso. No entanto, o paralelo com a tal água de que vos falo é óbvio. Em 2021, esta campanha publicitária de uma água com álcool de 72 calorias é evidentemente dirigida às mulheres, é “saudavelmente libertadora” para estas. Também isto daria uma longa discussão (libertar-se do quê?), mas adiante.

O último Relatório sobre a “Situação do País em Matéria de Álcool” (2018) evidencia dados verdadeiramente preocupantes no que diz respeito ao consumo de álcool diário e padrões de consumo binge ou embriaguez severa em todas as faixas etárias entre os 15 e os 74 anos. À altura do relatório, nos últimos 12 meses “2,8% da população (4,9% dos consumidores) tinha, nos últimos 12 meses, um consumo considerado de risco elevado/nocivo e 0,8% (1,3% dos consumidores) apresentava sintomas de dependência (AUDIT), sendo as proporções correspondentes nos 15-34 anos de 2,4% e 0,4% (4,7% e 0,7% dos consumidores)”.

Em relação a 2012 os valores aumentaram e um padrão global de agravamento encobre evoluções negativas particulares preocupantes, como as do grupo feminino (as consequências e comorbilidades associadas a alcoolismo são muito mais graves nas mulheres) e das faixas etárias acima dos 44 anos. Por outro lado, não se bebe da mesma forma em todo o país e “os Açores destacam-se com as prevalências mais elevadas de consumo binge, embriaguez e dos consumos de risco ou dependência, quer na população de 15-74 anos, quer na de 15-34 anos”.

Em suma, Portugal é um dos países onde se bebe mais no mundo e eu não creio que a maior parte dos bebedores estejam conscientes dos riscos e de como para alguns a fronteira entre o social e o nefasto é ténue, sobretudo naqueles que bebem para se aliviarem de uma pesada realidade. Isto tem todo o tipo de consequências sociais e sanitárias.

Peço-vos que não se confundam, eu estou em recuperação, mas não sou fundamentalista, nem tão pouco acredito em proibições. Pessoalmente assumo que não é fácil caminhar num campo minado, num país onde o consumo é socialmente incentivado, onde a publicidade metralha status quo através de novas e originais bebidas. Enfim, onde o álcool está em todo o lado.

A solução jamais será a proibição desta ou de qualquer outra substância que se possa tornar aditiva, mas parte dela é com toda a certeza a informação. As pessoas são livres de escolher, mas que o façam de forma informada.

O abuso mata e há cada vez mais pessoas que precisam de ajuda como eu precisei. Essa ajuda existe no nosso país e é de enorme qualidade em muitos casos, porém é desconhecida da maior parte da população.

É por isso que acho fundamental falar destas coisas para além do tabu e do estigma das vidas dilaceradas.

Sara Cura

Natural de Vila Nova da Barquinha, formou-se em Arqueologia na Faculdade de Letras de Lisboa e especializou-se na Sorbonne, em Paris, tendo trabalhado quase 20 anos como arqueóloga no Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo, em Mação. Atualmente exerce funções no Gabinete de Apoio à Investigação e Qualidade da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome