“Agroal | Um paraíso no rio Nabão”, por José Alho

O Agroal é, no território do Médio Tejo, um espaço de características singulares, na envolvente da nascente mais significativa do Rio Nabão.

PUB

Este local situado no limite do concelho de Ourém, a poucos quilómetros de Tomar, revela-se de uma beleza natural extraordinária, mas tornou-se conhecido sobretudo pela fama das suas águas que, pela sua suposta qualidade medicinal, têm sido muito procuradas pelas populações locais em especial nos meses de verão.

A tradição fez deste local uma “praia fluvial “muito frequentada, mas durante largos anos deficitária em condições de salubridade e de infraestruturas de apoio.

PUB

A reconhecida riqueza paisagística e a sua diversidade biológica têm despertado a atenção de ambientalistas e investigadores. Desse trabalho continuado resultou a sua integração num território classificado no âmbito da principal figura de conservação da natureza europeia-Rede Natura 2000,no designado Sítio Sicó – Alvaiázere.

DSC00018.A sua natureza calcária associada à extraordinária abundância de água criou uma diversidade de condições de habitats que suportam uma complexa biodiversidade.

PUB

Aqui encontramos das maiores e mais bem conservadas áreas do País de carvalho-cerquinho e também manchas notáveis de azinhais em bom estado de conservação, nas zonas mais secas.

Nas margens do Nabão existem notáveis galerias ripícolas de amieiros e salgueiros, constituindo-se como corredores ecológicos de excelência, ricos em flora e fauna diversa.

Os muitos afloramentos rochosos são colonizados por comunidades casmofíticas que sobrevivem num reticulado de fendas com pouco substrato. Nos solos menos pobres surgem prados associados onde normalmente assumem protagonismo diversas espécies de orquídeas.

Ocorrem também cascalheiras calcárias, pobres em vegetação quer pela instabilidade do substrato quer pela ausência de solo à superfície.

Aqui estamos numa das áreas mais importantes para a conservação da flora calcícola, sendo de realçar, uma espécie de Junco, o Juncus valvatus, que é um endemismo lusitano.

A nível da fauna existem vários abrigos de morcegos, importantes a nível nacional, que albergam colónias de criação de morcego-rato-grande, de hibernação de morcego-de-ferradura-grande e de criação e hibernação de morcego-de-peluche.

As suas escarpas acolhem aves de rapina com destaque para o Bufo-Real, maior ave de rapina noturna da Europa.

A Bacia hidrográfica do Nabão é um dos poucos locais de ocorrência confirmada da, até agora conhecida, como lampreia-de-riacho.

Recentemente, investigadores da Faculdade de Ciências de Lisboa em colaboração com colegas da Universidade de Évora e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, vieram demonstrar que se tratava de uma nova espécie para a ciência batizando-a de Lampetra auremensis, em homenagem a Ourém (Auren) onde corre a Ribeira de Seiça, afluente do Nabão, onde foi descoberta pelo Eng.º Pedro Cortes, em 1988.

O espécime-tipo ou holótipo de Lampetra auremensis foi descrito pelos investigadores Mateus, Alves, Quintella e Almeida em 2013 e integra a coleção de zoologia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência de Lisboa.

Esta pequena lampreia não migradora constituiu-se como um ex-libris para os ambientalistas locais.

Todos estes valores naturais representam potencialidades para a prática de novas atividades, nomeadamente o turismo de natureza, acrescentando valor aos usos tradicionais populares e podem ajudar a definir um modelo de desenvolvimento para a região, onde os valores da natureza contribuam para a melhoria da qualidade de vida das populações e onde estas possam retirar da Natureza uma utilização nobre e equilibrada de acordo com os princípios da sustentabilidade.

As obras de requalificação concretizadas pelo município de Ourém são contributos, que associados à existência de um Parque de Natureza e circuitos pedestres existentes, poderão abrir novas perspetivas para a qualificação dum local até agora quase esquecido pelos poderes públicos.

É fundamental, no entanto, que sejam salvaguardadas estruturas sanitárias, balneários e apoio à segurança e higiene dos muitos utilizadores de forma coerente com o potencial aí existente, num sentido de modernidade e qualificação e definir medidas conducentes a uma equilibrada capacidade de carga nos meses de Verão.

É também imperioso garantir um tratamento integrado da “praia fluvial” do Agroal uma vez que cada uma das margens do Nabão pertence a uma autarquia diferente.

Ourém e Tomar têm de unir esforços para uma reabilitação conjunta de modo a planear um modelo de desenvolvimento que não defraude, nem ponha em causa o potencial natural e turístico deste local paradisíaco!

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- publicidade -
Artigo anteriorEntroncamento | PSD acusa socialistas de terem “congelado o município”
Próximo artigoTomar: IV Mostra de Grão de Bico apresenta 20 pratos de gastronomia tradicional
José Manuel Pereira Alho Nasceu em 1961 em Ourém onde reside. Biólogo, desempenhou até janeiro de 2016 as funções de Adjunto da Presidente da Câmara Municipal de Abrantes. Foi nomeado a 22 de janeiro de 2016 como vogal do Conselho de Administração da Fundação INATEL. Preside à Assembleia Geral do Centro de Ciência Viva do Alviela. Exerceu cargos de Diretor do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, Coordenador da Reserva Natural do Paúl do Boquilobo, Coordenador do Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire, Diretor-Adjunto do Departamento de Gestão de Áreas Classificadas do Litoral de Lisboa e Oeste, Diretor Regional das Florestas de Lisboa e Vale do Tejo na Autoridade Florestal Nacional e Presidente do IPAMB – Instituto de Promoção Ambiental. Manteve atividade profissional como professor convidado na ESTG, no Instituto Politécnico de Leiria e no Instituto Politécnico de Tomar a par com a actividade de Formador. Membro da Ordem dos Biólogos onde desempenhou cargos na Direcção Nacional e no Conselho Profissional e Deontológico, também integra a Sociedade de Ética Ambiental. Participa com regularidade em Conferências e Palestras como orador convidado, tem sido membro de diversas comissões e grupos de trabalho de foro consultivo ou de acompanhamento na área governamental e tem mantido alguma actividade editorial na temática do Ambiente. Foi ativista e dirigente da Quercus tendo sido Presidente do Núcleo Regional da Estremadura e Ribatejo e Vice-Presidente da Direcção Nacional. Presidiu à Direção Nacional da Liga para a Protecção da Natureza. Foi membro da Comissão Regional de Turismo do Ribatejo e do Conselho de Administração da ADIRN. Desempenhou funções autárquicas como membro da Assembleia Municipal de Ourém, Vereador e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ourém, Presidente do Conselho de Administração da Ambiourem, Centro de Negócios de Ourém e Ouremviva. É cronista regular no jornal digital mediotejo.net.

1 COMENTÁRIO

  1. E uma praia fluvial com grande potencial mas as entidades responsáveis estão a esquecer a segurança já foi roubado fiquei com o prejuízo.devia de haver um posto Movel durante o verão.também um parque de estacionamento para o futuro o investimento esta garantido .

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here