Quarta-feira, Março 3, 2021
- Publicidade -

“Agora, deveras, tenho pena”, por Adelino Correia-Pires

Lembras-te Lúcio? Lembras-te do dia em que morreu o poeta?

- Publicidade -

O Herberto partira e deixava-nos assim sem saber o que dizer.

Ao teu modo, enviaste-me então um mail, a negrito, como sempre fazes, a mim e a alguns outros dos teus amigos, mais amigos do que eu.

- Publicidade -

Escrevias assim:

“Não tenho muito jeito para homenagens e começo a esquecer-me como se chora. Mas, pronto, cá vai.
Abraço, Lúcio V.” 

A acompanhar, um poema “do outro mundo”.

Li, reli e pasmei. Respondi-te então: “Ó Lúcio, você tem de publicar isso, homem!”

No dia seguinte, entraste pela livraria, fitaste-me nos olhos, puxaste dum papel e disseste o poema com a força de quem o escreve.

Senti, naquele momento, a simbiose entre dois poetas maiores: um, o que acabara de partir. O outro, o que ali lhe lavrava a memória. Autobiográfico, talvez. Mas como só tu o poderias fazer.

Agora, dois anos e meio depois, num Dezembro de ventos e mistérios, algures numa Biblioteca que, apesar de tudo, tem feito ouvir do melhor que se escreve por aí, reencontro-te a ti, “vinte quilos mais novo”, num livro belíssimo “quase póstumo” como tu próprio dizes, brincando com o outro lado da vida.

Vou folheando o livro, como que desfolhando o cravo que o aconchega e reencontro também o poema. Não resisto e recupero a memória de uma resposta perdida no tempo: “Ó Lúcio, você tem de publicar isso, homem!” 

Como escreveu o Pedro Barroso num sublime prefácio tocado de ouvido, tu és mesmo um poeta maior. E ali estava o poema, aquele poema, (a)final e merecidamente publicado. Coisas de poetas…

Desta vez, Lúcio, poupaste-me a crónica. Devo-te isso e muito mais. Algumas horas de deleite a ler-te, reler-te e ouvir-te. O livro andará por aí. O poema, esse, não leves a mal, ficará por aqui também, que eu quase lhe assisti ao parto:

“agora, deveras, tenho pena”

Não sei bem como tudo agora é.
assisti já a tanto gesto inútil que não sei para que servem
as utopias, as ascensões e as quedas:
vi erguer sonhos e jurar promessas
vi depois tombar um muro e a férrea cortina
vi cair um Coiso na cadeira – ou na banheira –
e vi cair o Carmo e a Trindade
vi depois caírem as palavras que tanto dourei por tanto tempo.
Agora já não fumo.
Já não me cai a cinza do cigarro sobre as folhas de papel
quando me levanto às três da manhã para escrever.

Não sei porque tudo é tão banal e tão diferente.
Dantes nos serões de culto liamos o Régio e o Mayakovsky
víamos Bergman e Eisenstein.
Agora não sei bem como tudo agora é.
Ou sei e não quero saber.
E é também por isso que sinto saudade e pena.
Pena não. Não se sente pena do pulsar da vida.
Apenas saudade. Do pulsar da vida e de outros mitos
Que a vida se faz de mitos e das coisas que pulsam
sem que nos demos conta.

Vês morrer o Herberto e nós conseguimos resistir.
Partiu a lenda viva que cantou a morte e nós
teimosamente e distantes aqui a pulsar a vida.
Não sei bem como tudo agora irá ser.
Sei que não voltarei a fumar nem a gritar
as palavras que dourei por tanto tempo.

Fechei para sempre a porta das viagens interiores
lancei-me nos braços das recusas – tantas recusas –
que nem consigo agora falar da morte tal como ele ensinou.
Nunca te tinha dito nada disto
nem sequer pensado em escrevê-lo para ti.
Vou ficar assim como as estórias assombradas entaladas
entre os muros de sombras do passado e as portas
que se abrem apenas em dias de luz.

Estão cada vez mais vazios os lugares do passado e eu
agora já não sei como tudo agora é.
Vazio, vazio pois.
Mais vazio do que o vazio daquele tempo dos dias
das utopias, das quedas, dos serões de Régio e Eisenstein
mais vazio do que os meus dedos ausentes de cigarros

Vazio como o espaço que nos fica vago
e rasgado pela ausência da lenda que se cantou na morte.
Ficam-me as doces recordações dos dias que dourei.
Ainda escrevo angústias na madrugada. Mas já não fumo.
E faz-me falta a cinza como primeira estrofe.

Afinal sempre tenho pena.
Agora, deveras, tenho pena.”

António Lúcio Vieira, em “25 Poemas de dores e amores”

Depois disto, Lúcio, vai, voa e prossegue a viagem.

Que agora, deveras, tenho pena, se quem, mesmo que não tenha lido Régio ou Mayakovsky, continue sem descobrir o poeta maior que tu és.

Que até pode esquecer-se como se chora, mas nunca esquecerá como se escreve.

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

- Publicidade -
- Publicidade -

2 COMENTÁRIOS

  1. Obrigada, Adelino Correia-Pires, por este momento sublime de boa prosa, de boa poesia.
    Um oásis, no meio do deserto literário que cada vez mais se agiganta, sem fio, nem brio pela Língua Portuguesa.
    Obrigada.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).