“ABRILcidade”, por Margarida Teodora Trindade

Créditos: Pixabay/editado por mediotejo.net

A cidade cresce assente em cantarias antigas, pedras-testemunhas, chãos-probatórios, fantasmas-vigilantes que pairam no ar velho de cor férrea, essa mesma que envelhece as folhas soltas caídas de um manuscrito de família ou de um missal avoengo.
A cidade é o palco do tempo, a apresentação pública da peça clássica, onde o coro desbocado é, afinal, o arauto da verdade.
Nas areias esboroadas de um capitel ou nos rasgos já desalinhados das colunas, a cidade carrega o peso lento da urgência nas decisões e dos planos futuros para discussão de sábios. Ela convoca a democracia das vozes que saem mansas e avisadas das entranhas de cada pedra do castelo.
Venera-se a cidade como se adora um deus.
Tomados por ela, sentimos-lhe o pulso como religião. O corpo cansado na avidez da pertença, o esforço de quem segura a amante infiel.
Nela, a festa é a praça larga onde a calçada reluz e o salto alto se prende teimoso na racha do chão.
A indigência, essa, vive no beco onde se esconde explícita a miséria que rebenta de súbito numa esquina da rua onde passam os foliões que a noite alimenta.
A cidade respira e come. Acorda e dorme.
É um corpo que engorda e incha no fausto, ou emagrece, definha e morre sepultado pela longa ausência da memória.
A cidade cede no desalento da soberba e da tirania. Engasga-se com a sofreguidão da gula. A cidade arfa e sufoca quando pairam no horizonte matinal as polutas poeiras vomitadas.
Depois, como uma força que lhe nasce do íntimo, a cidade sacode o pó e levanta-se, pronta – mulher adulta, libertada, fugida do cárcere – emancipada.
Aí a cidade é ciclo, é circo, a cidade é cio. É útero onde o contágio medra.
E é naqueles que são resgatados pelas palavras de Sophia ou por um poema de Ruy Belo que a cidade se cumpre.
A cidade é a casa, luz de novas madrugadas. É chão de pardais, canto de melros, cenário de pavões, nascente de palavras inventadas, gare de onde partem e regressam os ideais.
Mas a cidade é sempre o povo, a poesia e a insubmissão. A cidade é este Abril que canta o tempo sempre novo.
É a crónica perpétua dos Homens. Sinal e sintoma, doença e cura.
E resistem nela, renovadas, a Primavera, a Redenção e a Liberdade.

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