Quinta-feira, Fevereiro 25, 2021
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“Abril em Maio em Abrantes”, por José Martinho Gaspar (c/vídeo)

“E nós, todos nós, chegámos a pensar que éramos maiores do que somos.”
José Gomes Ferreira

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Em 2004, no n.º 4 da revista Zahara, nos 30 anos do 25 de Abril, publiquei um pequeno artigo sobre a histórica manifestação do 1.º de Maio de 1974 em Abrantes, que teve como fontes a imprensa da época e entrevistas a três personalidades locais que estiveram envolvidas naquele dia memorável: Eurico Heitor Consciência, José-Alberto Marques e Mário Pissarra. A estas informações juntam-se as fotografias de Fernando Correia, algumas das quais aqui se reproduzem, e as imagens em vídeo de Carlos Madeira [aqui reproduzidas numa versão editada pelo mediotejo.net].

Se a República foi implantada por telégrafo a partir de Lisboa, o 25 de Abril soou na rádio, cresceu nos jornais, ganhou forma na televisão e passeou vaidoso pelas ruas no 1.º de Maio. 

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O Correio de Abrantes, em subtítulo, destaca a “dignidade e exemplar civismo” com que decorreu a manifestação do 1.º de Maio. O mesmo órgão da imprensa escrita informa que “Abrantes faz um desfile apoteótico como jamais fizera. Mais de 5000 pessoas”. Aquele que se assumiu, no final da década de sessenta e início da de setenta, como destacado arauto da contestação ao regime marcelista, com um jornalismo de inequívoca qualidade, capaz de contornar com perícia algumas barreiras censórias, como refere Eduardo Campos em A Imprensa Periódica de Abrantes, deu especial atenção ao movimento do 25 de Abril e à manifestação do 1.º de Maio. Eurico Heitor Consciência, diretor deste jornal até março de 1974, reconhece que este periódico abrantino desempenhou um papel importante ao nível da “abertura de mentalidades e foi uma pedrada no charco daquele tempo”. 

O Jornal de Abrantes conta que, “Cumprindo as determinações transmitidas pela Junta de Salvação Nacional, esta manifestação, festejando o Dia do Trabalhador e apoiando as Forças Armadas, foi uma autêntica e extraordinária demonstração de civismo. Como estava anunciado, pelas 15 horas, na Esplanada Dr. António Augusto da Silva Martins [antigo Largo da Feira e atual Esplanada 1.º de Maio], grande multidão ali se concentrou, partindo em cortejo pelas ruas da cidade até à Praça do Município, vendo-se, por todo o lado, inúmeros dísticos e cartazes com frases alusivas ao momento. Ali chegado o desfile, a praça foi pequena para conter os milhares de manifestantes”.

Créditos: Fernando Correia/Arquivo Municipal Eduardo Campos, Abrantes

As fotografias de Fernando Correia e as imagens captadas por Carlos Madeira permitem-nos ler algumas das frases e palavras de ordem presentes nos cartazes e faixas exibidos durante esta jornada: «Liberdade», «Fim da Guerra Colonial», «O Povo Unido Jamais Será Vencido», «Tramagal Está Com as Forças Armadas», «Queremos Uma Escola Livre e Popular», «Jovens de Abrantes […] Que a Sua População Saiba Ser Digna do Momento Presente» e «Viva Portugal […]». Quanto a símbolos, destacavam-se várias bandeiras nacionais, uma delas de grandes dimensões, e uma bandeira do PCP com vários dizeres. 

Parece ser consensual o papel dos estudantes na organização da manifestação. Mário Pissarra reconhece, porém, que a determinação da chefia do cortejo gerou alguma controvérsia: “Só me lembro de ir ter com os alunos dos cartazes e de lhes dizer para irem para a cabeça da manifestação, pois tive a sensação que muitos que nada haviam feito queriam ganhar protagonismo”.

Créditos: Fernando Correia/Arquivo Municipal Eduardo Campos, Abrantes

A primeira paragem do cortejo, segundo o Correio de Abrantes, fez-se no Jardim da República, junto ao monumento aos mortos da Grande Guerra 1914-1918. “A nota dominante foi dada pela juventude que encabeçava a multidão imensa. Muitos rostos com lágrimas entoaram o hino da nossa libertada República acompanhados por milhares de bocas”. De acordo com o mesmo jornal, na “Praça do Município, os manifestantes detiveram-se para ouvir vários discursos, proferidos a partir da varanda da Câmara Municipal: “[…] foi dada a palavra aos srs. Dr. Orlando Pereira, Dr. Correia Semedo, Dr. Eurico Consciência, Prof. José Alberto, estudantes Jorge Lacão e Geirinhas Rocha. Todos os oradores focaram o momento que vivemos, alertaram os portugueses para uma tomada de posição em prol dum Portugal Maior e Livre, e foram unânimes em prestar o seu agradecimento às Forças Armadas. Em nome destas falou o Tenente-Coronel Neves, 2.º Comandante do R.I.2 […]”. Todos os discursos foram interrompidos por aplausos efusivos, que brotaram de uma multidão entusiasmada e esperançada na construção de um “Portugal melhor”.

Também em relação a quem deveria discursar na varanda da Câmara Municipal, não terá havido consenso e, igualmente nesta situação, sem que tal tenha passado para os manifestantes ou para a imprensa, ter-se-ão chocado interesses diversos. José-Alberto Marques conta que “tudo se compôs, discursando uns e outros, sublinhando que a dignidade de alguns autoexcluídos mais abrilhantou aquele dia de sol […]”.

Créditos: Fernando Correia/Arquivo Municipal Eduardo Campos, Abrantes

O jornal Nova Aliança, que também dá destaque de primeira página à “[…] magnífica jornada vivida pelos Abrantinos no 1.º de Maio, Dia do Trabalhador”, não deixa de patentear o seu cunho conservador. Os preletores da Praça Raimundo José Soares Mendes, afirma-se, “Focaram todos a liberdade conquistada e a queda de um regime opressor. Nem um só, no entanto, usou da palavra para falar dos vivos (ou muito pouco): todos se referiram aos «mortos» (fascistas). Em oradores de tanta craveira intelectual era de esperar uma exposição mais construtiva e sobretudo uma explicação do que é a verdadeira liberdade e a verdadeira democracia […]”.

De seguida, o rio de gente que inundou Abrantes neste 1.º de Maio de 1974 escorreu pelas ruas e, de sorriso nos lábios, desaguou no Regimento de Infantaria 2, onde foi agradecer aos militares o papel determinante que tiveram no 25 de Abril. Neste percurso, em que a coluna se alongou, as imagens permitem que se perceba o quão diversificada era a gente que participava na manifestação. A irreverência dos rapazes guedelhudos e das raparigas de mini-saia misturava-se com o misto de esperança e alívio que marcava a expressão de populares provenientes das zonas rurais. Ao som da Banda de Rio de Moinhos, gente de todas as idades e condições uniu-se para festejar a Revolução de Abril.

José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas (Abrantes), na década de 60 do século XX, e vive em Abrantes. É Professor de História e Mestre em História Contemporânea. Desenvolve a sua ação entre aulas, atividades associativas (Palha de Abrantes e CEHLA/Zahara, mas também CSCRD de Água das Casas), leitura e escrita, tanto de História como de ficção, sendo autor de vários artigos e livros. Apaixonado por desporto, já não vai em futebóis, mas continua a dar as suas voltas de bicicleta. Afinal, diz, "viver é como andar de bicicleta: não se pode deixar de pedalar e quando surge um cruzamento escolhe-se o nosso caminho".

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4 COMENTÁRIOS

  1. Boa tarde,

    É com muito agrado e tremendo orgulho que leio este artigo e vejo as imagens onde os meus avós, Maria Fernanda Corte-Real Silva e Orlando Pereira, aparecem a liderar a marcha.
    Câmara Municipal.
    Gostaria de saber se há algumas imagens desse momento ou até de outros momentos que os envolvam e que pudessem disponibilizar à família.

    Um grande bem haja e continuação de um excelente trabalho.

  2. Boa tarde,

    É com muito agrado e tremendo orgulho que leio este artigo e vejo as imagens onde os meus avós, Maria Fernanda Corte-Real Silva e Orlando Pereira, aparecem a liderar a marcha.
    No artigo escreve-se que o meu já falecido avô, Dr. Orlando Pereira terá sido um dos a discursar na Câmara Municipal.
    Gostaria de saber se há algumas imagens desse momento ou até de outros momentos que os envolvam e que pudessem disponibilizar à família.

    Um grande bem haja e continuação de um excelente trabalho.

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