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Segunda-feira, Outubro 25, 2021

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Abrantes | Wiki Médio Tejo, Património Imaterial e Cultura Popular nas XVI Jornadas de História Local

As XVI Jornadas de História Local decorreram esta sexta-feira, 7 de dezembro, em Abrantes, com a temática do Património Imaterial e da Cultura Popular, e trouxeram ao Edifício Pirâmide vários historiadores do concelho anfitrião e dos municípios vizinhos para debater, ao longo do dia, a importância da preservação e do registo da identidade, das tradições e da memória coletiva de um povo. Com organização a cargo do Centro de Estudos de História Local de Abrantes (CEHLA), foi apresentada a plataforma Wiki Médio Tejo por Francisco Lopes e Rui Duarte.

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“Quando morre um velho, morre uma biblioteca” lembrou o historiador Joaquim Candeias da Silva, recentemente premiado pela Academia Portuguesa de História, durante as XVI Jornadas de História Local que decorreram esta sexta-feira, em Abrantes.

Durante um dia inteiro esteve em debate o Património Imaterial e a Cultura Popular e a necessidade da sua preservação através do registo evitando a definitiva perda, referiu José Martinho Gaspar.

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XVI Jornadas de História Local. José Martinho Gaspar

O historiador recordou o percurso do Centro de Estudos de História Local de Abrantes (CEHLA), um grupo que há 16 anos trabalha designadamente nas áreas da História, Etnografia, Tradições e Património Material e Imaterial, não só do concelho de Abrantes mas dos concelhos envolventes neste projeto como Constância, Gavião, Mação, Sardoal, Vila de Rei e Vila Nova da Barquinha.

Desta vez, para as Jornadas, o CEHLA pensou o Património Imaterial, as Tradições e a Cultura Popular, embora não seja a primeira vez que o tema é tratado neste tipo de encontro. Um dia inteiro para debater e falar “daquilo que valoriza e cria identidade”.

Contudo, o grupo entende “ser um objeto merecedor de maior análise”, embora não descure outras áreas como o Património Edificado, a Documentação Histórica.

XVI Jornadas de História Local, Abrantes

Alertou José Martinho Gaspar para o risco da perda diária de aspetos do Património Imaterial “se não forem identificados, recolhidos e registados”.

Quanto ao CEHLA, diz “ter conseguido manter a proposta fundamental que era realizar umas Jornadas de História Local por ano mas sobretudo lançar uma revista de história local para a região”, a Zahara, com carácter semestral. E que conta já conta 32 edições.

São três mil e muitas páginas de história que “um conjunto de pessoas de forma voluntária pôs cá fora”, notou, falando num trabalho “louvável” por parte de muitos cidadãos, historiadores e colaboradores. José Martinho Gaspar agradeceu ainda à Câmara Municipal de Abrantes, na pessoa do vereador Luís Dias, presente no evento, pelo apoio camarário ao projeto no âmbito do FinAbrantes.

XVI Jornadas de História Local

No seu discurso de abertura disse ser “necessário que as entidades olhem para o projeto com outra atenção e sobretudo que o façam chegar aos públicos que dele necessitam”, referindo-se às bibliotecas e às escolas, que ainda não acolhem a revista Zahara, “o que nos deixa um bocadinho tristes”, lamentou Martinho Gaspar.

Da sua parte, o vereador Luís Dias reforçou a importância de preservar a identidade, a memória coletiva e o Património Imaterial, considerando a necessidade “de ligar os elementos que constituem a existência de um povo e de um território”.

O responsável sublinhou o empenho da Câmara Municipal no apoio às Jornadas de História Local dizendo que “estes pequenos contributos deverão contagiar positivamente os colegas autarcas da região” defendendo que “todo o trabalho que está a ser feito hoje deve ser inventariado e sistematizado” também numa dimensão colaborativa.

XVI Jornadas de História Local. Vereador Luís Dias

“Queremos preservar as memórias”, concluiu, citando Alexandre Herculano: “são estes pequenos elementos que constituem a essência de um povo”.

Sobre a Cultura e o Património Popular, José Alves Jana começou por mostrar um objeto que as moças do Pego confecionavam e ofereciam como primeira prenda aos seus namorados.

“Em qualquer objeto está uma sociedade toda, de que esse objeto faz parte. Aqui está o estatuto dos homens e das mulheres do Pego desse tempo, o estatuto do comprometimento, a organização social, artes e ofícios, os gostos. As relações, os sonhos, as promessas de futuro. Um objeto como este é um condensado de património material e imaterial”, declarou.

XVI Jornadas de História Local. José Alves Jana

De uma forma mais ou menos filosófica, convidando à reflexão, Alves Jana observou que o povo (popular) é a maioria dos votantes, faz a opinião pública, tem peso social e político, é composto por pessoas que pensam, sentem e agem à sua maneira. “A cultura popular é de onde vimos, é aquilo com que vamos, quer queiramos quer não”.

Como orador, José Martinho Gaspar notou que o Património Imaterial está sempre associado às pessoas, pois são elas que garantem a sua existência, vivenciando-o e transmitindo-o às gerações futuras. E mesmo quando essas expressões deixam de ser vivenciadas, como por exemplo uma técnica tradicional (artesanal, agrícola, pastoril, piscatória, artística ou outra) que deixou de ser utilizada, é, em muitos casos, graças à memória das pessoas que podemos ainda conhecer essas tradições”.

Por outro lado, frisou, trata-se de um património “muito frágil, que se encontra em constante modificação, acompanhando as mudanças sociais e históricas das comunidades, e que facilmente pode vir a desaparecer”.

Daí a “necessidade de conhecer e documentar o Património Imaterial, de modo a assegurar que a sua preservação não depende apenas da memória das pessoas e que, mesmo depois de desaparecer uma tradição, o seu conhecimento permanecerá acessível às gerações futuras”.

XVI Jornadas de História Local. Teresa Aparício

Uma das pessoas com larga experiência na recolha de Património Imaterial é Teresa Aparício, também presente nas Jornadas. A historiadora contou alguma das suas experiências de recolha, e sobre aquilo que as pessoas contaram e até cantaram.

Deu conta de uma certa “censura” externa por parte dos familiares que pressionavam os mais velhos para não falarem dessas lendas, crenças e saberes, e interna, dos próprios que temiam ser ridicularizados. Em causa as muitas histórias de bruxas e os rituais de dançarem em encruzilhadas, pregando partidas a crianças e aos homens não tocando nas mulheres, lobisomens, mouras encantadas, personagens curiosas com algo de sobrenatural, e o diabo, ligado a muitas construções de pontes.

Teresa Aparício referiu algumas profissões que tendem a desaparecer como a tecedeira, o oleiro, o calafate, o moleiro, o cesteiro, o sapateiro, o pastor ou até o albardeiro, saberes que se não forem recolhidos “vão morrer com as pessoas”.

XVI Jornadas de História Local. Joaquim Candeias da Silva

Joaquim Candeias da Silva deu conta ainda do “imenso que há para recolher e diversificado. As diferenças existem mesmo nos pontos comuns”.

Durante as Jornadas de História local Francisco Lopes, da Biblioteca Municipal de Abrantes e Rui Duarte, da Biblioteca de Constância, apresentaram a Wiki Médio Tejo, que mais não é do que uma enciclopédia digital que reúne informação dos 13 concelhos do Médio Tejo.

A ideia passa por “criar uma plataforma de alojamento e pesquisa de conteúdos que permitam criar o maior repositório de conhecimento do Médio Tejo”, explicou Francisco Lopes.

À semelhança da wikipédia “qualquer pessoa pode ser autor, sem custos, e esse é o interesse”, notou, afirmando que o projeto poderá ser “um rotundo fracasso se não for apropriado por todos. Se for, será um extraordinário exemplo colaborativo”.

Segundo Rui Duarte, “o trabalho ainda não está totalmente concluído”. E explicou a forma de publicar um artigo, que não é jornalístico nem de opinião, na Wiki Médio Tejo. O utilizador, escolhendo um concelho, faz o sistema enviar de imediato um e-mail para a biblioteca municipal desse concelho no sentido de validar o artigo escrito.

XVI Jornadas de História Local. Francisco Lopes apresenta a Wiki Médio Tejo

Trata-se de “um pequenino filtro” no sentido de tentar minimizar os problemas, disse por seu turno Francisco Lopes, referindo que o objetivo “é ter uma plataforma partilhada, um instrumento de memória. Não basta registar. Também se perde mesmo estando registado, se não for arquivado em repositórios oficiais de memória das comunidades”.

Por isso terminou com um apelo: “As bibliotecas e os arquivos é suposto cá estarem daqui a muito tempo com repositórios impressos, digitais, o que for. A tecnologia aqui é o menos importante. Que sejam um instrumento, uma organização, uma instituição de todos nós”.

No mesmo dia foram ainda apresentados estudos e reflexões sobre vários temas, como “As Tradições de Tancos”, as “Tradições do Tejo na Ortiga”, o “Ciclo da Resina e Resineiros”, os “Carvoeiros do Pego”, e “Santiago de Montalegre: A História, as Lendas, as Gentes”, entre outros.

A iniciativa terminou com a apresentação do n.º 32 da Revista de História Local Zahara. E cada participante recebeu um certificado de presença, num brinde coletivo à memória e á história das gentes da região.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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