Abrantes | Uma viagem de autocarro em direção ao início do ano letivo na Escola Dr. Manuel Fernandes

Linha Verde - Alferrarede, esta sexta-feira, 18 de setembro. Foto: mediotejo.net

Esta semana fica marcada pelo arranque do novo ano letivo por todo o país num regresso à escola onde novas regras são ditadas pela pandemia de Covid-19. Mas a adoção de comportamentos preventivos à propagação do vírus impõe-se não só dentro como também fora dos estabelecimentos escolares. No primeiro dia de aulas para os alunos do ensino básico e secundário do Agrupamento de Escolas Nº2 de Abrantes, o mediotejo.net fez o percurso de autocarro até à Escola Dr. Manuel Fernandes e testemunhou quais as condições em que os alunos chegam à escola.

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Em semana de regresso às aulas presenciais, o Agrupamento de Escolas Nº2 de Abrantes optou por um início faseado, com os 1927 alunos matriculados este ano nas diversas escolas a entrar em datas diferentes: o pré-escolar e o 1º ano do 1º Ciclo começaram a 16 de setembro; os 2º, 3º e 4º anos do 1º ciclo e os 5º anos a começar o ano letivo no dia 17; e os restantes anos de escolaridade a dar o passo em frente esta sexta-feira, dia 18 de setembro.

Início das atividades escolares para os alunos do 5º ano na Escola Dr. Manuel Fernandes, a 17 de setembro. Foto: mediotejo.net

Num regresso às aulas marcado pela pandemia de Covid-19, as medidas de segurança e precaução impõem-se não só dentro mas também fora dos estabelecimentos escolares, como reforçou em Abrantes o ministro da Educação.

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E o “fora da escola” começa exatamente no percurso que os alunos fazem desde casa até ao estabelecimento de ensino. Assunto já presente em reunião de Câmara de Abrantes e também exposto ao mediotejo.net pela comunidade tem sido a lotação dos transportes públicos, onde o distanciamento social não é respeitado e a capacidade máxima de dois terços, determinada por lei, parece não ser cumprida.

Mas se tal situação acontece em autocarros que vêm de pontos mais afastados do centro da cidade, como os provenientes de São Facundo e Bemposta, o cenário não é diferente nos autocarros que circulam pelas ruas de Abrantes cidade.

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“Vamos ver se ainda tenho lugar”: Uma viagem à procura do distanciamento social

18 de setembro de 2020. São 07h40, estamos na paragem de autocarro de Tapadão, em Alferrarede, no concelho de Abrantes.

A manhã está fria e o vento agitado chama-nos a pôr o casaco pelos ombros. Na paragem, encontramos Núria. Este é o seu primeiro dia de aulas de um ano letivo “estranho”. Vai para o 8º ano de escolaridade na Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes.

A mãe não tem carro, por isso, apanhar o autocarro e o frio da manhã (que de quando em vez lhe valem uma constipação) não lhe são rotinas estranhas. “Não apanho esse porque vai dar muitas voltas e chega ao Liceu muito em cima da hora, não dá para estar lá a fazer um pouco de conversa”, diz-nos. O autocarro passa à nossa frente. Leva cerca de cinco pessoas, todas de máscara. Até chegar à Escola Dr. Manuel Fernandes ainda passa pelo Tecnopolo, pelo CRIA, Canaverde, Largo do Cineteatro,… voltas a mais para quem já conhece de cor quais os percursos mais rápidos.

Fazemos conversa até que apareça outro. Conta ao mediotejo.net que tem vontade de voltar à escola porque “estava farta de estar em casa”. “Prefiro as aulas na escola”, admite.

Perguntamos-lhe se tem medo. Responde-nos que tem antes “um bocadinho de receio por causa do vírus” e por não saber bem o que esperar, mas tem tudo para correr bem porque “sei quais os cuidados a ter: álcool gel, máscara, manter a distância das pessoas”.

Conta-nos que da parte da escola teve informações que a ajudam a entender melhor o que se pode ou não fazer, nomeadamente a de que a sua turma não se pode juntar com outras turmas.

“Vai ser um bocadinho estranho manter a distância dos amigos”, confessa. “Antes, podíamos correr por qualquer lado, agora não”.

Distraídas com a conversa, são 07h55. Outro autocarro aproxima-se. “Agora não se pode ir em pé”, recorda Núria. “Vamos ver se ainda tenho lugar, não é?”.

Autocarro – Linha Verde – Alferrarede. Foto: mediotejo.net

À entrada, somos confrontados com uma realidade que não é compatível com as lições que nos têm sido incutidas a todo o momento. Não há sinalização, não há lugares proibidos, não há desinfetante. Ao invés, há lugares ocupados desde uma ponta à outra do autocarro. Mas ainda há lugares livres.

Núria senta-se num banco sozinha. Continuamos em frente à procura de um espaço em branco e ouve-se o motorista a avisar “não quero ninguém de pé”.

A grande maioria dos passageiros são alunos, acompanhados pelas mães ou pais. A conversa de fundo é, inevitavelmente, o arranque das aulas. À nossa frente, uma senhora diz que o filho estava “deserto” para ir para a escola. Mais atrás, discutem-se os horários.

Ao longo do trajeto, pequenos grupos de estudantes aguardam a chegada autocarro, alguns acompanhados pelos pais. Uns entram com os filhos, outros ficam na rua a acenar.

Paramos junto à Igreja de Alferrarede, segue-se a paragem junto à rotunda do Olival e o cenário vai-se repetindo: “Posso vir para aqui”, dizem raparigas e rapazes que entram e só já procuram um lugar onde se encaixar, uma vez que o distanciamento é, a este ponto, impossível.

A cada paragem a lotação é superada mais um bocadinho. Na paragem da Rua Francisco Ferreira da Mata (perto do estabelecimento comercial Lidl) um pai entra com a filha e diz-lhe “senta-te para aí”. Ele, por sua vez, fica em pé.

São 08h10 e chegamos à paragem situada um pouco à frente do quartel dos Bombeiros Voluntários de Abrantes. Contas por alto, no máximo, 10 lugares livres num autocarro cuja capacidade normal ronda os 50 lugares, não estivéssemos em situação de pandemia.

Entra um rapaz que se dirige ao lugar vago ao lado daquele que ocupamos. “Posso vir para aqui”, pergunta. Senta-se e nota-se o esforço que faz para não tocar em nada com as mãos, mesmo quando as curvas traiçoeiras o fazem balançar para um lado e para o outro.
Em poucas palavras, conta-nos que vai para o 6º ano e responde convictamente que não tem medo de ir para a escola.

Chegamos ao início da Avenida das Forças Armadas. Entram três jovens. “Agora sentamo-nos onde?” pergunta um rapaz. “Agarra-te ao poste”, diz uma rapariga.

Nisto, um senhor desabafa: “Isto vai cheio. Então diziam que isto não podia andar cheio”.

Entre o pára-arranca do trânsito, chegamos à paragem em frente à Escola Básica e Secundária Dr. Solano de Abreu. As portas abrem-se e foge uma dúzia de alunos. O suficiente para que aqueles que iam em pé se consigam sentar, ocupando os lugares mais próximos.

Pelas 08h20 chegamos à Escola Dr. Manuel Fernandes.

Escola Dr. Manuel Fernandes. Foto: mediotejo.net

A polícia controla o trânsito e a paragem do autocarro faz-se não no sítio do costume mas sim em frente ao portão do recinto escolar. Amontoados, os estudantes apressam-se em direção à porta. Praticamente vazio, o autocarro segue o seu percurso, agora sim, respeitando a lotação definida.

A chegada à escola

Saímos do autocarro e observamos um aglomerado de estudantes, resultado da saída do autocarro que ali os deixou. Rapidamente a confusão se dispersa, com pequenos grupos junto a prédios e à paragem de autocarro, apesar de ser visível um ajuntamento mais acentuado junto à entrada da escola.

O uso de máscara é respeitado pelos alunos que vão passando em direção ao portão do recinto escolar. Um cenário que se repetiu também na quinta-feira, 17 de setembro, dia em que arrancaram as aulas na mesma escola para os alunos do 5º ano.

Perto da zona de estacionamento que dá acesso às traseiras da escola, está um grupo de alunas do ensino secundário de máscara. Em declarações ao mediotejo.net, afirmam que estão “com medo” deste regresso às aulas. Quando nos preparamos para perguntar sobre quais os receios, somos interrompidos por um jovem que, sem máscara, se aproxima.

“Já está tudo de máscara porquê?”, pergunta. Avança e arranca a máscara da cara de uma das raparigas, dá-lhe dois beijos e avança para a segunda que, sem tirar a máscara, cumprimenta também o rapaz.

“Sabem quais os cuidados a ter?”, pergunta o mediotejo.net. “Sim, o uso de máscara, desinfetar as mãos, distanciamento”, respondem-nos Mariana e Maria, as raparigas.

Escola Dr. Manuel Fernandes, 18 de setembro. Foto: mediotejo.net

Contam-nos também que a sua turma está dividida, tem duas salas atribuídas e que além de desinfetarem as mãos vão também ser responsáveis por desinfetar as cadeiras e mesas que utilizarem.

Estas alunas defendem que para aprender “é sempre melhor a escola” mas confessam que se sentiam mais seguras com as aulas online.

Pelas 08h30, as filas na reta que dá acesso à Escola Dr. Manuel Fernandes registavam ainda uma grande afluência de carros, naquele que foi o primeiro dia de aulas de um novo ano letivo para muitos alunos do Agrupamento de Escolas Nº2 de Abrantes.

Trânsito no acesso à escola Dr. Manuel Fernandes. Foto: mediotejo.net

Contactado pelo mediotejo.net no âmbito deste arranque de ano letivo, o diretor do agrupamento Nº2, Alcino Hermínio, remeteu declarações para a próxima semana.

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