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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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Abrantes | Um ano de RAME e mais de 16.800 militares nos incêndios florestais

O RAME – Regimento de Apoio Militar de Emergência assinalou oficialmente o primeiro aniversário no dia 23 de novembro, e fomos até ao Quartel de São Lourenço para conhecer o balanço da sua atividade operacional em Abrantes. A unidade militar criada com a missão de prestar uma resposta efetiva do Exército em situações de emergência no território nacional é responsável pela UAME – Unidade de Apoio Militar de Emergência, que teve uma autêntica “prova de fogo” com os incêndios que assolaram o país e nos quais empenhou mais de 16.800 militares.

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A 1 de novembro de 2016 as infraestruturas da antiga Escola Prática de Cavalaria de Abrantes acolhiam o RAME – Regimento de Apoio Militar de Emergência, criado em resposta à necessidade expressa nos Conceitos Estratégicos de Defesa Nacional (CEDN 2013) e Militar (CEM 2014). Este organismo vocacionado para o apoio militar em cenários de acidentes graves ou catástrofes, naturais ou provocados, passou a estar sediado no Quartel de São Lourenço depois da existência do Núcleo Preparatório do RAME, entre 2013 e 2016, e a fusão das Escolas Práticas na Escola das Armas do Exército, em Mafra.

O país passava a dispor de um regimento militar com concelhos específicos na sua área de responsabilidade, como os restantantes, e com a especificidade de prontificar a UAME, uma força que efetiva a capacidade de Apoio Militar de Emergência (AME) do Exército. A UAME apenas vai para o terreno quando solicitada pela ANPC – Autoridade Nacional de Proteção Civil às Forças Armadas. O pedido é então direcionado para o Comando das Forças Terrestres que, investido pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, aciona os recursos humanos e materiais adequados a cada cenário de intervenção.

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Igualmente sediados em Abrantes estão o COAME – Centro de Operações de Apoio Militar de Emergência e o Comando, Controlo e Comunicações, uma das valências do SIAMEE – Sistema Integrado de Apoio Militar de Emergência do Exército. O primeiro funciona em articulação com o centro de operações táticas do Comando das Forças Terrestres e é composto por cinco células nas áreas da Informação e Operações, Recursos, Ligação, Comunicações e Sistemas de Informação e Estudos e Planeamento.

No COAME acompanha-se o que se passa a nível nacional. Foto: mediotejo.net

O segundo assegura, entre outros, o planeamento, direção, controlo e acompanhamento das situações de emergência que envolvem os meios disponíveis em mais de três dezenas de unidades militares nacionais com responsabilidade de apoio de área no continente e nas regiões autónomas. A estrutura modular da UAME permite mobilizar os meios destas unidades nas outras valências do SIAMEE, que incluem engenharia militar, apoio sanitário e psicossocial, reabastecimento e serviços, manutenção e transportes, segurança e vigilância, defesa NBQR (Nuclear, Biológica, Química e Radiológica), busca e salvamento terrestre e apoio ao combate de incêndios.

Foi na última que a unidade militar teve o teste mais difícil no seu primeiro ano de vida quando, a 17 de junho, pelas 18h00, o primeiro pedido da ANPC fez sair do papel o que ninguém queria. Os cenários de acidente grave e catástrofe tinham-se tornado realidade naquele sábado fatídico e a UAME foi chamada para intervir nos incêndios de Pedrogão Grande, Góis e Vila Real com cinco destacamentos de engenharia e 12 pelotões (quatro para cada concelho) que, uma vez chegados aos locais, passaram a integrar a ação coordenada pela ANPC.

Entre 16 de maio e 16 de junho já tinham sido empenhados 98 militares em incêndios florestais no âmbito de parcerias com municípios e os números não pararam de subir até 31 de outubro, atingindo um total de 16.809 neste período. Muitos destes militares foram contabilizados várias vezes pois estiveram em mais do que um dos 87 teatros de operações onde o Exército prestou apoio, em alguns casos regressaram ao terreno quando as forças foram rendidas. Os recursos humanos e materiais do Exército de 35 unidades militares do território nacional estiveram presentes em 170 concelhos de 17 distritos apoiados por 96 oficiais de ligação e 27 grupos de comando.

Demonstração durante a visita do Ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, ao RAME em abril. Foto: mediotejo.net

Os incêndios florestais deflagrados desde a segunda quinzena de maio até ao ultimo dia de outubro envolveram 270 pelotões e rescaldo e vigilância pós-incêndio, 79 destacamentos de engenharia, 3.621 patrulhas de vigilância e dissuasão, 17 módulos de vigilância e deteção de vítimas, cinco módulos de apoio sanitário, dois módulos de apoio psicológico do Centro de Psicologia Aplicada do Exército, 10 módulos de evacuação de desalojados, seis módulos de alojamento, nove módulos de apoio de serviços, 11 módulos de alimentação e 28 módulos de recuperação de viaturas.

Em termos globais, 2.514 militares apoiaram ações de escala municipal, 3.290 estiveram envolvidos no plano FAUNOS (prevenção dos incêndios florestais) e 11.005 no plano LIRA (missões relacionadas com desenvolvimento e bem-estar, incluindo ações do Exército no apoio ao combate aos incêndios florestais).

O pico ocorreu entre 16 e 31 de agosto, quando os números atingiram os 3.478 militares, coincidindo com a decretação do estado de calamidade pública pelo Governo, seguidos pelos os 3.150 empenhados entre 16 e 31 de outubro, quando o dispositivo de combate a incêndios foi reforçado.

A estes valores somam-se os do apoio prestado ao Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural entre os dias 25 de outubro e 15 de novembro, que envolveram o transporte de 870 toneladas de alimentação para animais (334 de palha e 536 de ração). Mais de uma dezena de unidades militares foram empenhadas e percorreram cerca de 54.000km por todo o país, assegurando cargas e descargas, alguns serviços de grande porte, nas plataformas logísticas de Monção, Tondela, Gouveia e Vila Nova de Poiares e outros locais.

Comandante do RAME, Coronel de Artilharia César Reis. Foto: mediotejo.net

Perante esta autêntica “prova fogo” no primeiro ano de existência do RAME, o Coronel de Artilharia César Reis, comandante desta unidade militar, assume ter sido um ano “muito atípico” e “intenso”, marcado por “ muita determinação e trabalho, porque desde o dia 17 de junho vivemos 24 horas por dia e 7 dias por semana”.

A participação do Exército não foi feito junto às chamas o que gerou críticas dentro e fora das redes sociais sobre a não participação dos militares no combate direto aos incêndios.

Questionado sobre esta questão, o comandante empossado a 2 de novembro de 2016 refere que “os militares não podem apagar fogos (…) têm uma missão muito específica” abrangendo a “vigilância e dissuasão”, as “máquinas de engenharia”, por exemplo na abertura de faixas de contenção com máquinas de rasto, e “no rescaldo” que reduz os reacendimentos.

Perante o aparente desconhecimento geral sobre o envolvimento militar, diz que “temos a consciência tranquila” e “quem interessa que perceba sobre o nosso papel e valoriza o nosso papel são os locais onde estivemos ou as populações que acolhemos em quartéis”.

A questão, acrescenta, “não interfere minimamente com a nossa determinação e a continuação do nosso percurso”. No entanto, este desconhecimento sobre a existência do RAME e da UAME não é apenas da população e o episódio mais recente foram as propostas de Passos Coelho e de Assunção Cristas no final de outubro para a criação de uma estrutura militar para apoiar a Proteção Civil, semelhante à UME – Unidade Militar de Emergência espanhola.

Medidas pedidas ao Governo que já esteve representado no Quartel de São Lourenço, nomeadamente pelo Ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, em abril, tal como a Comissão de Defesa Nacional, que esteve no RAME em junho.

Visita da Comissão de Defesa Nacional em junho. Foto: mediotejo.net

Na altura da última visita, o grupo de deputados parlamentares constituído por Miranda Calha, João Soares e José Medeiros, do PS, Carlos Costa Neves e Marco António Costa, do PSD, e Jorge Machado, do PCP, demonstrou preocupação ao tomar conhecimento de que a UAME não tinha recebido equipamentos de proteção individual. Nessa altura, foram informados de que esta aquisição se encontrava em fase concursal, tal como agora, cinco meses depois.

O coronel César Reis confirma a situação e diz ter indicações de que a entrega “vai concretizar-se”. Ter o material necessário, diz, era “o ideal”, mas destaca que face à “gravidade da situação, se não estamos melhor equipados, estamos pior equipados e vamos com o que temos”, mesmo com a consciência de existir “maior probabilidade” de ocorrer um acidente devido ao desgaste dos equipamentos.

Apesar das dificuldades do primeiro ano do RAME e da UAME, cujos procedimentos foram sendo melhorados ao longo da “campanha”, considera que “a evolução foi muito positiva” e prevê uma melhoria substancial em diversas áreas no segundo, nomeadamente ao nível dos “meios envolvidos no patrulhamento e dissuasão”, “equipamento de proteção individual dos militares” ou “acompanhamento georreferenciado”.

O comandante do RAME preferia que o próximo ano não fosse “tão complicado como este” e sublinha que “seja lá o que for, tenho a certeza de que estaremos o mais preparados e melhor equipados para este efeito”.

Entre as atividades do RAME encontra-se a organização do Concurso Nacional Combinado. Foto: RAME

Até aos desafios de 2018, o RAME vai continuar a operar em Abrantes nas suas diversas valências e vertentes, entre as quais também se encontra a formação de quem cumpre serviço militar nos regimes de voluntariado e de contrato. Os formandos são preparados através do Curso de Formação Geral Comum de Praças do Exército e seguem para outras unidades militares onde concluem a instrução na parte da especialidade.

As sessões de hipoterapia com alunos dos agrupamentos de escolas de Abrantes e Sardoal e as visitas por marcação à exposição permanente “Memórias e Perspectivas da Cavalaria Portuguesa” também vão continuar. A estes juntam-se no próximo ano as provas de provas de ensino Open e CNC, obstáculos Open e CNC e cross do Concurso Nacional Combinado, cuja primeira edição oficial do RAME se realizou nos passados dias 10 e 11 de novembro e contou com a presença da embaixadora do Reino Unido, Kirsty Hayes.

Cavaleiros de unidades militares e centros hípicos de todo o país competiram pelo primeiro lugar no campo de obstáculos do RAME e no circuito exterior, inaugurado no Parque Urbano de São Lourenço durante a iniciativa.

Os primeiros prémios foram conquistados pelo Tenente-Coronel de Cavalaria Gomes da Silva (Class Iniciação), Tenente de Cavalaria Coelho (Class Preliminar), Alferes de Cavalaria Oliveira (Class Ensino P1), Capitão de Cavalaria Fátima Costa (Class Ensino E1), Tenente de Cavalaria Silva (Class Obstáculos 0,90m) e Tenente-Coronel Marinho (Class Obstáculos 1,00m).

*Artigo publicado a 24 de novembro de 2017, republicado a 30 de dezembro

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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