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Terça-feira, Outubro 26, 2021

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Abrantes/Tramagal | ‘Corações Maiores’ confortam vítimas dos incêndios em época natalícia

No passado dia 22 de dezembro a equipa de ‘Corações Maiores’, um grupo solidário com elementos de Tramagal, Abrantes e Mação, rumou novamente até Pedrógão Grande para confortar o Natal de quem perdeu tudo, ou quase tudo, nos incêndios que fustigaram o país no dia 17 de junho. A equipa já lá tinha estado em 29 de junho e em 3 de agosto. O relato, na primeira pessoa, é de Cláudia Olhicas, um dos elementos de ‘Corações Maiores’.

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“Sabíamos que íamos voltar, não sabíamos era quando. Os nossos Corações voltaram a falar mais alto e por isso já a pensar na Época Natalícia e na dor de tanta família desalojada, e nalguns casos com perdas humanas, a maior devastidão do limite deste incêndio, foi organizado e concretizado um almoço solidário no 8 de outubro, com o apoio do Agrupamento de Escolas Verde Horizonte de Mação e da Quinta das Oliveiras em Alferrarede Velha – Abrantes (local onde se realizou o almoço).

O valor angariado, 1680 euros, foi repartido pelos concelhos de Mação e Pedrogão Grande, em bens materiais e alimentares.

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Em Mação, no terreno, no dia 11 de dezembro, assistimos, eu e Sónia Cristina Carvalho, a 33 famílias, 68 pessoas no total, com cabazes alimentares, vestuário, roupas de cama, pequenos eletrodomésticos, entre outros bens. Mas, até lá, já lá havíamos estado 5 vezes, a resolver casos pontuais. Foram 13 horas no terreno pelas aldeias de Sanguinheira, Vale da Mua, Degolados, Louriceira, Casas da Ribeira, Carvoeiro, Vale da Casa, Rouqueira, Frei João, Maxieira e Vales de Cardigos.

No dia 22 de dezembro, saímos de Abrantes, equipa “Corações Maiores”, quando eram 9 horas (Cláudia Olhicas, Raquel Olhicas, José Gonçalves e Ana Duque) acompanhada por um representante do Executivo da Junta de Freguesia de Tramagal, Sérgio Lopes, e por 3 elementos do Exército de Abrantes, Capitão Fábio Cruz, 1º Cabo Mariana Henriques e Soldado Flávio Oliveira.

Visitámos 24 localidades dos concelhos de Pedrógão Grande e Castanheira de Pera (Altardo/Vale Mercador, Atalaia Fundeira, Pinheiro Bordalo, Figueira, Sarzedas, Castanheira de Pera, Pedrógão Grande, Nodeirinho, Souto Fundeiro, Salaborda Nova, Vilar, Troviscal, Vila Facaia, Moleiros, Adega, Pinheiro do Bolim, Aldeia das Freiras, Lameiras Cimeira, Ramalho, Carreira, Mó Pequena, Casalinho, Romão, e Marinha), assistimos 37 famílias, 115 pessoas. Foram entregues a cada família cabazes alimentares e bebidas.

Entregámos ainda vestuário, roupas de cama, produtos de higiene, pequenos eletrodomésticos, brinquedos e livros às crianças. Foram 15 horas no terreno. Quando regressámos a casa já passava da meia noite. Chegámos visivelmente cansados, mas com a sensação de mais uma missão cumprida.

Desta nova ida a Pedrógão Grande ficou-nos na memória as estórias dos 3 bombeiros voluntários que sobreviveram à tragédia do dia 17 de junho.

A estória da Bombeira Filipa Rodrigues, de 24 anos, Castanheira de Pera. Comoveu-nos a todos. Foi de lágrimas que Filipa nos abriu a porta de sua casa. Contudo, à medida que ia falando, revelou ser uma verdadeira guerreira. As lágrimas deram lugar à boa disposição!

Continua a acreditar no futuro, apesar de grande parte do seu corpo apresentar sequelas de queimaduras de 3º Grau e de não saber quando terá uma vida normal. Depois de múltiplos internamentos, encontra-se junto da família desde dia 15 de dezembro.

O Bombeiro Fernando Tomé, 48 anos, Castanheira de Pera, foi embargado nas palavras que relatou o pesadelo vivido naquele dia. E naquele dia, já no Centro de Saúde de Castanheira de Pera, pediu à esposa para que continuasse a cuidar do seu irmão, doente com nível de dependência elevado, pois achava que o fim tinha chegado!

Ao fim de 4 meses de internamento, e muita reabilitação funcional motora e respiratória começou a dar os primeiros passos com alguma segurança. A sua determinação e o seu acreditar fê-lo recuperar muito antes da prognostico médico.

Apresenta, tal como a Bombeira Filipa Rodrigues, sequelas de queimaduras de 3º Grau. Vai voltar aos Bombeiros, pois é para si uma missão de vida e um compromisso de honra essa entrega aos outros.

O seu filho, Fernando Paulo Tomé, de 22 anos, que ia também consigo na viatura, naquele dia, apesar de algumas sequelas já se encontra no exercício da sua atividade profissional, há 2 meses. A rematar a conversa disse “ainda tenho 5 vidas, das 7” e sorriu.

O Bombeiro Rui Rosinha, 40 anos, Castanheira de Pera, regressou a casa a 14 de dezembro de 2017, após 6 meses de internamento permanente. Apresenta tal como a Filipa e o Fernando sequelas de queimaduras de 3º grau. O seu processo de reabilitação será ainda muito moroso. Foi em cadeira de rodas que o fomos encontrar, sorridente e logo a seguir de lágrima no olho.

A esposa, Marina Rodrigues manifestou a falta de ajuda que tem sentido, questionando “ONDE ESTÃO AS VERBAS ANGARIADAS COM TANTO MOVIMENTO SOLIDÁRIO”? As poucas ajudas que lhes têm chegado, chegam de particulares e não de associações/instituições. Foi emocionada que Marina agradeceu a ajuda em bens da equipa Corações Maiores.

Os tratamentos, os internamentos e cirurgias continuarão a fazer parte da vida destes Bombeiros voluntários que jamais pensaram sobreviver ao que passaram e viram naquele fatídico dia.

Infelizmente o Bombeiro Gonçalo Conceição, de 39 anos, Castanheira de Pera, que ia também na viatura onde os 4 se deslocavam, não sobreviveu à tragédia, deixando um filho menor. Foi com um profundo vazio, que todos eles relataram a perda de um GRANDE BOMBEIRO.

A última família que visitámos, em Nodeirinho, a família da nossa querida amiga Gina Antunes, sim porque ela é já uma grande amiga da Equipa, deixou-nos mais uma vez sem palavras!

A lembrança de um ser maravilhoso, como ouvimos sempre falar dela, da pequena Bianca (que não se encontra mais entre nós), que tinha aquando da sua partida 3 anos, as últimas palavras que terá dito à mãe “mamã o que é isto?”, o cantinho na sala em sua homenagem, a bola com que brincou pela última vez, colocada precisamente em cima do mosaico onde a teria deixado ainda em vida…. Dilacerou-nos o Coração!

Esta pequena princesa, no fatídico dia, não queria sair de casa, parece que sabia ela o que aí vinha! Um monstro avassalou esta família maravilhosa…. Tal como a muitas outras onde o processo de recuperação será eterno…

Das 37 famílias que assistimos faleceram 10 pessoas. Muitas ficaram gravemente feridas. Algumas já se encontram em recuperação em casa, outras ainda em convalescença no Hospital.

É uma dor interminável e só quem vai ao terreno consegue perceber um pouco o que ali passou naquele dia… Neste dia, 22 de dezembro, houve ainda tempo para avaliar a Tensão Arterial das pessoas mais dependentes pela enfermeira Raquel Olhicas!

A equipa “Corações Maiores” não levou os equipamentos que gostaria, porque admite que o milagre não está ao seu alcance, mas preencheu com certeza vazios, com afetos, o seu maior contributo para quem muitas vezes está isolado do mundo…

Cada abraço é um preencher de espaço no coração de quem tudo ou quase tudo perdeu no incêndio que assolou o país no dia 17 de junho de 2017.

A equipa “Corações Maiores” agradece a todos os que colaboram connosco através da entrega de bens, agradece o contributo da Junta de Freguesia de Tramagal pelo transporte cedido à Equipa “Corações Maiores”, na pessoa do Sr. Presidente Vítor Hugo Cardoso; agradece igualmente ao Exército de Abrantes, na pessoa do Sr. Major Paulo Alves, pelo transporte dos bens; à Amália Graça e Arminda as nossas guias em Pedrógão Grande e ao 1º Cabo Mariana Henriques, a nossa Guia em Castanheira de Pera”.

Jornalista profissional há mais de 30 anos, passou por vários jornais diários nacionais, nomeadamente pelo 'Diário de Lisboa', 'Diário de Notícias' e 'A Capital'. Apaixonada pela profissão desde a adolescência, abraçou o jornalismo nas suas diversas áreas, desde o Desporto às Artes e Espetáculos, passando pela Política e pelos temas Internacionais. O jornalismo de proximidade surge agora no seu percurso.

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