Abrantes | Teresa Valente mete jovens a combater solidão de idosos com projeto ‘Adota um Avô’

Teresa Valente, autora da ideia, deu conta que o projeto começou no dia 23 de março na zona de Abrantes e, duas semanas depois, já conta com 15 pares de netos e avós adotados. Foto: DR

Com o objetivo de minorar os sentimentos de isolamento e de solidão dos mais idosos em tempo de pandemia, um grupo de jovens de Abrantes implementou no final de março o projeto “Adota um Avô”, proporcionando companhia a quem está retido em casa conversando todos os dias através de telemóveis. No espaço de uma semana, o número de avós adotados em Abrantes subiu de 7 para 15 pares, contou hoje ao mediotejo.net uma radiante Teresa Valente, mentora do projeto social e solidário.

“Temos 15 pares estabelecidos e três jovens à espera para adotar um avô, sendo que a notícia a circular  ajudou muito para que esta ideia chegasse a mais pessoas e, por outro lado, os voluntários começaram a dizer aos amigos e eles também querem participar. Em termos de avós, tivemos avós que começaram a contar a outros e têm-nos ligado a pedir um neto”, contou.

“Com o projeto “Adota um avô”, a cada voluntário, na maioria estudantes, é atribuído um sénior durante este período de quarentena e o jovem faz companhia todos os dias por telemóvel ao avô ‘adotado’, contou ao mediotejo.net Teresa Valente, autora da ideia, dando conta que o projeto começou no dia 23 de março na zona de Abrantes e contava no final da primeira semana com oito pares de netos e avós adotados.

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Desde sempre ligada aos escuteiros de Abrantes e à Igreja, Teresa, 23 anos, Licenciada em Psicologia, lembra que tudo começou com um desafio lançado numa reunião do Agrupamento 172 do Corpo Nacional de Escuteiros, a que está ligada, tendo pensado e desenvolvido a ideia em projeto no seio da Pastoral Juvenil da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, cujo Secretariado integra.

João Galveias é um dos jovens voluntários que integra o projeto. Foto: DR

“Para mantermos o espírito escutista neste período, o Agrupamento vai-nos lançando desafios. Um dia o desafio era “Fazer uma boa ação”, e isso meteu-me a pensar como poderia estar ao serviço dos outros nesta quarentena”, afirmou, lembrando como tudo começou.

“Esta ideia surgiu, desafiei a Irmã Fernanda Luz a criarmos um projeto na Pastoral Juvenil para combater a solidão na nossa comunidade e ela, com o seu espírito jovem, aceitou logo e definimos o projeto. No dia seguinte, começámos a ‘trabalhar no terreno’ mas sempre a partir de casa, claro.  E foi assim que surgiu o “Adota um Avô”, conta Teresa Valente, alargando a partir desse dia o desafio a outros jovens da comunidade para adotarem um idoso.

Com uma média de idades a rondar os 19 anos, “os jovens são de Abrantes e agora há também um de Constância. Os idosos são todos de Abrantes”, conta Teresa, relativamente a uma ideia que gostava de ver replicada noutros pontos do país, em prol dos mais idosos e que se encontram em casa por integrarem os grupos de risco à covid-19.

Jovens ao telefone atenuam isolamento de idosos em Abrantes com projeto “Adota um Avô”. Carolina Siborro de Azevedo é uma das voluntárias do projeto. Foto: DR

“Começou aqui [em Abrantes] pela facilidade de encontrar jovens, uma vez que estou envolvida em grupos juvenis na cidade, e de sabermos de alguns idosos que estão sozinhos, tendo em conta que a Irmã Fernanda os conhece do trabalho que faz na comunidade”, notou.

De início, conta, devido à quarentena, os idosos “são primeiramente contactados pela irmã Fernanda por telefone a convidá-los para o projeto, e depois são emparelhados com um jovem”, sendo a reação deles de muita felicidade e contentamento. Ficam muito agradecidos”, assegura.

“Uma avó até disse que foi a melhor notícia que recebeu nos últimos tempos. Agora, já há idosos que nos começam a contactar a pedir um neto. Ouviram que outros idosos têm netos adotados e também querem. E nós também queremos e temos agora três jovens em espera para adotar mais avós”.

Teresa mantém a sua atividade profissional diária em teletrabalho, a partir de casa, ao mesmo tempo que gere a equipa de voluntários do projeto e se vai inteirando de como estão a decorrer as relações ‘familiares’ entre os novos netos e avós.

“Tem sido muito enriquecedor para todos, sendo que eu também adotei uma avó. Cada caso é um caso e há situações em que o neto telefona e faz companhia todos os dias, outros em que é três a quatro vezes por semana, depende do estado de espírito de cada avô adotado, outros ainda em que já é o avô a ligar ao neto quando o idoso é mais desinibido e quer falar de algum assunto ou simplesmente conversar”, conta Teresa.

Margarida Farinha é uma das voluntárias que adotou uma avó em tempos de pandemia. Foto: DR

E as conversas abordam “temas muito diversificados, desde falar sobre o seu dia, as suas vidas e dificuldades, conhecerem-se melhor, sobre Deus, enfim, sendo que podem tanto os avós como os netos sugerir temas e do que falam é entre eles e não temos temas definidos no projeto. Mas sim, temos avós que são mais tímidos e os jovens têm de “meter mais conversa. Mas também temos avós muito faladores, e com eles os netos não tem problemas em arranjar temas que eles tratam disso”, revela, entre uma gargalhada.

Os jovens interessados em participar podem contactar a organização através da página ‘SDPJuventude e Vocações de Portalegre Castelo Branco’ e os seniores que estejam sozinhos podem também contactar a Pastoral para adotarem um neto, sendo o objetivo de Teresa “alcançar o máximo de seniores possível para saberem que não estão sozinhos nesta altura e que têm alguém com quem conversar”.

Manuel Potes é um dos jovens que, ao telefone, atenuam o isolamento de idosos com projeto “Adota um Avô”. Foto: DR

A jovem psicóloga tem mais etapas delineadas para este percurso entre novos netos e avós, dando conta que o projeto “vai originar relações de proximidade” que terão continuidade.

“Depois de passar este tempo de confinamento, o jovem e o sénior irão encontrar-se ao vivo para se conhecerem, depois de terem desenvolvido uma amizade na quarentena. O objetivo é organizar um convívio com todos os netos e avós, quando voltar tudo à normalidade”, antecipa.

No fim de contas, e ultrapassado que seja o tempo de isolamento e da pandemia, “serão netos e avós para sempre e será tempo de brindar aos valores da vida, da família e da amizade”.

c/LUSA

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