Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Abrantes | Santos Lopes, o escultor de afetos (entrevista)

A vida atual de Santos Lopes pode ser descrita com expressões dos seus conterrâneos abrantinos. Vai “ó p’ra lá”, Brasil, onde está radicado há mais de 40 anos, e vem “ó pr’a cá”, Abrantes, onde quer envelhecer feliz. Enquanto esses dias não chegam, decidiu homenagear a região com a exposição “A vida, o outono e o vinho”, um dos projetos em votação no Orçamento Participativo Portugal. Estivemos por cá e ele por lá durante a conversa em que nos falou sobre o projeto e como quer que sua arte de afetos traga ao de cima o melhor de cada pessoa.

- Publicidade -

Santos Lopes tem entre as primeiras memórias de vida a subida ao sobreiro perto da casa dos avós, em Alvega, enquanto a mãe aguardava a “carreira” para o levar depois de umas férias na terra onde nasceu há 70 anos e que deixou aos quatro. Esperava-o a casa dos padrinhos, por onde a mãe passava todos os dias antes da madrinha lhe aconchegar a roupa da cama e dar o beijo de “boas noites” na esperança de um dia mais tarde o vir a tratar por “Sr. Engenheiro”.

O desejo nunca chegou a realizar-se pois a família cedo recebeu a notícia de que o jovem tinha outro destino em mente. Queria ser artista. “Os artistas são vadios!”, responderam-lhe na altura. Não fez caso e decidiu provar que é possível fazer da arte coisa séria transformando-a na carreira profissional que teve início com a formação na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, para onde seguiu sozinho aos 15 anos de idade.

- Publicidade -

A criatividade começou a conquistar o seu espaço antes, nos poemas e desenhos descobertos pelo professor na gaveta da carteira da sala de aula na antiga Escola Industrial e Comercial de Abrantes, hoje atual Escola Secundária Dr. Solano de Abreu. Nas histórias perfeitas, este é o momento em que o artista é reconhecido. Nesta história real, o resultado foi um chumbo escolar. Mesmo assim, a poesia e as artes plásticas foram passando de ano.

Santos Lopes no seu atelier. Foto: Santos Lopes

Ao contrário dos traços, os versos acabariam por desaparecer aos 25 anos, pouco depois da passagem pela guerra em África que lhe moldou a forma como encara a vida. Regressou a Portugal com o pensamento “escapei de uma guerra e quero ser feliz todos os dias” e este acompanhou-o nos tempos em que trabalhou em publicidade. Acabou por voar com ele até São Paulo, no Brasil, em meados da década de 70, altura em que a fotografia publicitária lhe garantiu o sustento.

A área de mercado que privilegia as aparências, gerando necessidades nos consumidores de forma estratégica, estimulava-lhe a imaginação e permitia-lhe transformar “um vaso numa floresta”, mas a crença de que cada um traz no seu interior algo de positivo, “uma força contra o mal e a guerra”, impôs-se. Trazê-lo ao de cima não seria feito através da publicidade por conta de outrem, mas sim pela sua própria arte.

Nos últimos anos, a mensagem foi sendo espalhada por todo o mundo através de exposições e pode ser encontrada, por exemplo, na Biblioteca Municipal António Botto, presente no exterior com a escultura “Intermezzo” e no interior com o busto do poeta que dá nome ao equipamento cultural abrantino. Atravessar a ponte do concelho pelo qual se voltou a apaixonar e onde quer envelhecer é ir ao encontro de outra criação sua, o monumento “Fragata do Tejo”.

Escultura “Intermezzo” antes de ser colocada em frente à Biblioteca Municipal António Botto. Foto: Santos Lopes

Redescobriu o país já depois de ter completado meio século de vida e decidiu recuperar a casa na Concavada, a caminho da qual se encontra o velho sobreiro que em tempos idos já tinha testemunhado a ligação que Santos Lopes tem a esta terra. O reencontro foi simbólico no dia em que parou o carro e lhe disse “amigo, conhecemo-nos há quase 50 anos”. Não obteve resposta, mas sentiu-a, tal como quando fala com as suas criações de diferentes técnicas artísticas que partilham traços comuns.

A serenidade sente-se nas esculturas e nas pinturas. As histórias dos lugares fazem parte dos materiais com que se construíram os monumentos. São peças que representam e geram afetos e com as quais o escultor, professor e fotógrafo pretende tocar as pessoas. Uma missão à qual pretende dar continuidade com o projeto “A vida, o outono e o vinho”, que tem o néctar dos deuses como essência, um “poderoso elixir que está presente em todas as comemorações da nossa vida”.

As telas também fazem parte da arte do escultor. Foto: Santos Lopes

Este “companheiro” de quem não quer excessos é o ponto de partida da exposição itinerante que neste momento se encontra entre os 692 projetos concorrentes ao Orçamento Participativo Portugal e no qual pode votar aqui até ao dia 30 de setembro. O artista espera que a sua proposta esteja entre os vencedores apresentados no próximo mês de outubro para que possa materializar um “hino à vida” através de textos, fotografias, esculturas e montagens conceptuais.

Um olhar entre o passado e o presente, uma reflexão com direito a brinde e outras surpresas que prefere não revelar para aumentar a expetativa. Mesmo assim, o escultor acaba por avançar a presença de elementos regionais associados à vindima através da música nos cantares tradicionais, das imagens em que predominam as tonalidades outonais das videiras e do vídeo que mostra o momento em que as uvas são pisadas.

Caso vença e obtenha o orçamento de 200.000€, entre os cinco milhões do orçamento global da iniciativa, “A vida, o outono e o vinho” vão percorrer os municípios da Comissão Vitivinícola Regional do Tejo, adquirindo as particularidades do lugar e das gentes. O passo seguinte do projeto que também envolve a Câmara Municipal de Abrantes e a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo é atravessar o oceano Atlântico até São Paulo.

A “Semente do Futuro” de Santos Lopes na Escola Secundária Dr. Solano de Abreu. Foto: mediotejo.net

O ponto de partida está estabelecido no concelho de Abrantes, no qual quer deixar outras marcas, além das existentes, como a “Semente do Futuro” na escola local que ele frequentou. O desejo não se resume aos trabalhos artísticos e acrescenta que, se tivesse possibilidades financeiras, criava uma instituição e um espaço onde pudesse partilhar a sua técnica através de oficinas didáticas. Mais próxima da realidade está a construção do seu atelier, projetada para 2019.

As terras abrantinas, revela Santos Lopes, têm magnetismo próprio. É aqui que sente os pormenores e os afetos de forma mais intensa. É neste lado do mundo que quer tornar-se mais rico pois defende que “enriquecemos em cada dia que fazemos arte”. O valor da vida dos outros também aumenta com as criações que diz partilharem a sua “verdade interior” e alimentam a esperança de trazerem “para fora o que as pessoas têm de melhor”, os afetos.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

- Publicidade -
- Publicidade -

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome