Sábado, Fevereiro 27, 2021
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Abrantes | Sacos com comida no lixo enquanto pedidos de ajuda crescem no Banco Alimentar

Sacos e mais sacos cheios de comida embalada – croissants, pães de leite, mistos, sanduíches, bolos – foram encontrados no lixo na zona industrial de Abrantes, na segunda-feira. Uma situação declarada como “recorrente” por quem, indignado com o desperdício alimentar num momento de crise social, denunciou a situação ao nosso jornal. O prazo dos alimentos terminava na terça-feira de Carnaval. Nos rótulos de alguns produtos lia-se: consumir até dia 16 de fevereiro de 2021. Tudo indica tratar-se de produtos vindos de máquinas de vending, provavelmente instaladas nas fábricas, numa situação reveladora que ainda há muito a fazer no combate ao desperdício alimentar. Faltará sensibilidade para o tema? O mediotejo.net foi tentar perceber junto do Banco Alimentar Contra a Fome, de Abrantes.

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Há comida em bom estado a ser deitada fora e continua por resolver o problema do desperdício alimentar. Nos caixotes do lixo da zona industrial de Abrantes amontoavam-se sacos cheios de comida embalada com croissants, pães de leite, folhados mistos, sanduíches, bolos, etc – ainda no prazo de validade. O suficiente para alimentar muitas pessoas e que engrossa o número do desperdício alimentar no País, num momento de pandemia e crise social em que cada vez mais pessoas revelam dificuldades financeiras e os pedidos de ajuda crescem no Banco Alimentar Contra a Fome.

“Falta sensibilização”, diz a presidente do Banco Alimentar Contra a Fome de Abrantes. Deitar no lixo produtos que estão com o prazo de validade quase a expirar continua a ser a opção de algumas empresas, uma prática “incompreensível” para Sílvia Bagorro que apelou à entrega destes produtos a quem precisa: “aceitamos tudo que nos queiram dar”.

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Por ano são 88 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados na Europa e um milhão de alimentos desperdiçados em Portugal, ou seja, estima-se que cada português desperdice em média 179 quilos de comida todos os anos. No mundo, são 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos que acabam no lixo anualmente, segundo os dados da Organização das Nações Unidas Para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Sílvia Bagorro explica que o Banco Alimentar de Abrantes “se recebe, por exemplo, iogurtes com o prazo quase a findar, entregamos de imediato para ser consumido o mais rapidamente possível. Em algumas situações os alimentos não estão estragados e é uma pena deitar fora”, lamenta. Portanto, o Banco Alimentar tenta também “sensibilizar as pessoas” para esta realidade. Outro exemplo: “o leite pode ser fervido e perceber, tendo alguns cuidados, se pode ou não ser consumido”, diz.

Para contrariar este problema, com impactos a vários níveis, nasceu em setembro de 2020, o movimento cívico ‘Unidos Contra o Desperdício’, que pretende ser congregador e agregador, unindo a sociedade num combate positivo ao desperdício alimentar, reforçando a importância de cada um nesta luta. A Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome é parceiro fundador deste movimento cívico.

A presidente do Banco Alimentar Contra a Fome de Abrantes diz ao mediotejo.net que “esta luta” trouxe “mais trabalho” à equipa local. Esta associação ao movimento cívico ‘Unidos Contra o Desperdício’ “ocupa muitas horas” sendo sete o efetivo de colaboradores que diariamente trabalho no Banco local de Abrantes. Contudo, a responsável lembra que tal missão “está na Carta dos Bancos Alimentares desde o início”.

Sílvia Bagorro indica que os supermercados do concelho colaboram com outras instituições de solidariedade social e também com o Banco. “Têm essa preocupação”, afirma. Sendo certo que o Banco de Abrantes recolhe alimentos, que de outra forma iriam parar ao lixo, “fora daqui”, nomeadamente em Alcobaça, Riachos, “em entrepostos” de grandes superfícies comerciais para “recolha de alimentos em maior quantidade”.

O objetivo do movimento cívico passa, então, por facilitar o aproveitamento de excedentes, tornando habitual a luta contra o desperdício alimentar, incentivar e facilitar a doação das sobras, bem como promover um consumo responsável.

A realidade do desperdício é para a Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome um contrassenso do ponto de vista económico, ambiental e social e tem merecido a atenção de muitos agentes de vários setores reunidos agora neste movimento cívico para chamar a atenção para uma questão que só poderá ser minorada com boas práticas e a vontade de todos.

Uma vontade que terá de começar pela informação. A falta de conhecimento sobre os prazos de validade é responsável por 10% do desperdício alimentar na União Europeia. Segundo a União Europeia, 53% dos consumidores desconhece o significado do rótulo “consumir de preferência antes de”.

Muitos portugueses desconhecem que certos alimentos podem ser consumidos depois de o prazo de validade expirar, e importa compreender as diferenças entre os vários rótulos: “Consumir até” – o alimento não pode ser consumido depois da data indicada. ”Consumir de preferência antes de” – data até à qual o alimento conserva as suas propriedades específicas. Pode ser consumido depois do prazo indicado se forem respeitadas as regras de conservação. “Consumir de preferência antes do fim de” – o produto pode ser consumido depois do prazo indicado caso sejam respeitadas as regras de conservação.

No Banco Alimentar Contra a Fome, em Abrantes “continuamos a apoiar as pessoas que já apoiávamos” antes da pandemia de covid-19, revela Sílvia, admitindo que “têm aparecido novos casos” de famílias carenciadas. Algumas delas “não estão sinalizadas porque as pessoas têm vergonha de pedir ajuda”, tornando o problema ainda mais grave.

Mas nem tudo são más notícias. A pandemia parece ter influenciado também o que deitamos para o lixo. Um estudo da Deco (Associação de Defesa do Consumidor) divulgado em setembro de 2020 concluiu que os portugueses que admitem ter desperdiçado comida caiu de 56% para 19% entre o início do ano passado e o confinamento em abril. O futuro revelará se os números  do desperdício alimentar voltam a baixar com a atual confinamento.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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