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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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Abrantes | Roubo de 120 borregos deixa pastor da Chaminé com o ano arruinado (c/vídeo)

O Natal é sempre uma época especial para Manuel Duarte: celebra o seu aniversário (este ano será o 75º) e é também quando recebe os maiores proveitos de um ano de trabalho, vendendo os borregos que chegam à mesa de muitas famílias no almoço de 25 de dezembro.

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Mas este ano as festas ficaram estragadas para a família de Manuel “Lobo”, como é conhecido o pastor da aldeia da Chaminé, no concelho de Abrantes. Na madrugada de 17 de dezembro roubaram-lhe 120 borregos e 29 ovelhas de criação. Os borregos estavam vendidos e o negócio seria fechado na segunda-feira, 20 de dezembro, quando o comprador os ia buscar. “É um grande prejuízo… mais de 12 mil euros”, lamenta-se Manuel, levando o lenço de pano ao nariz, com os olhos marejados de lágrimas.

Os animais estavam num pasto arrendado, a alguns quilómetros da casa do pastor, e ficavam lá durante a noite, cercados, com dois cães de guarda. Por perto não há casas, só uma estrada secundária passa a cerca de 300 metros daquele local. Só quando um dos cães chegou ao monte, pela manhã, Manuel “Lobo” desconfiou que alguma coisa não estaria bem. Quando lá chegou, no seu tractor, viu o outro cão preso e muitos colares com chocalhos espalhados pelo chão. Foi aí que percebeu que tinha sido roubado.

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“Fui logo pedir a um vizinho para me acudir e ligar à Guarda”, conta, mas o seu coração já lhe sugeria as palavras que iria ouvir, e que tanto temia: “Não há muito a fazer, quem é que os vai apanhar?”

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O Médio Tejo solicitou esclarecimentos à GNR sobre este roubo de animais, bem como sobre outros ocorridos na região, mas ainda não obteve resposta. Contudo, como explica informalmente uma fonte policial da zona de Abrantes, o roubo de borregos é frequente nesta altura do Natal. “No ano passado roubaram 50 a um vizinho meu, aqui na Chaminé”, conta Manuel “Lobo”, e “também ao Ferreira Dias, em Abrantes, levaram 30 borregos”. A ele, em mais de 50 anos de criação de animais, nunca tinha acontecido.

Os rodados da camioneta que levou os borregos ficaram marcados no terreno, mas pouco mais havia de vestígios. “‘Essas marcas não interessam nada, marcas há muitas!’, era só o que me dizia o GNR que cá veio, sem querer tomar nota de nada”, indigna-se Manuel, recordando que se “pegou” com o militar, porque estava muito nervoso. Depois, diz, lá tiraram fotografias, e disseram-lhe para ir ao posto do Tramagal fazer queixa. O pastor ficou tão desanimado que ainda não foi. 

É difícil seguir o rasto dos animais porque ainda não estavam chipados. “Só quando saíssem daqui na segunda-feira é que iam levar os brincos e o chip, para depois entrarem no matadouro”, explica o pastor. Assim podem ter ido para uma qualquer exploração e serem identificados como pertencendo a outro dono, sem que se possa desconfiar da sua origem. Só as 29 borregas maiores, que Manuel tinha separado para criação, é que já tinham a sua marca no corpo: MD. “Essa marca não desaparece, mesmo que as tosquiem”, assegura. Mas quem é que vai andar a verificar milhares de ovelhas nas propriedades da região, à procura de 29 cabeças? “E sabe-se lá se não foram para longe…”

Só 29 dos animais roubados tinham a marca do pastor: MD, de Manuel Duarte. Fotografia: mediotejo.net

Muitos dos animais que vende ao longo do ano vão para a engorda em explorações de Torres Novas e da Ponte de Sor, explica. “Saem como estes que eu tinha agora para vender, entre 25 e 30 quilos cada um, e vão para a farinha até terem 40 ou 50 quilos, para depois irem de barco para Israel, e só lá é que são mortos.” 

Do monte modesto onde vive com a família avista-se o campo onde pastam agora as ovelhas que lhe restaram. Um segundo rebanho que estava separado do que lhe roubaram, e que só tem animais mais velhos, com ovelhas prenhas ou que acabaram de parir. É só quando agarra num borreguito, nascido há poucas horas, que um sorriso ousa formar-se no seu rosto marcado pelo desgosto. “Hoje já nasceram três”, alegra-se, apontando para outras jovens crias que correm pelo campo, perseguindo as mamas das mães. “É assim a vida…”, diz num suspiro.

Manuel “Lobo” com um dos seus borregos recém-nascidos. Fotografia: mediotejo.net

A vida, que nunca foi fácil, como atesta a sua mulher, Leonilde. “O meu filho Luís Manuel tem 48 anos e está numa cadeira de rodas, sou eu que trato dele. O Gabriel tem 45 e problemas de coração… trabalha com o pai, aqui vai andando”, diz, enquanto aponta para o horizonte, onde se vê a sua silhueta conduzindo o rebanho, com o neto Daniel, de 19 anos, também já no meio dos animais. “Ficámos com o Natal desgraçado, é assim…”, conclui, resignada.

Manuel ajeita a boina enquanto fica a ver as ovelhas irem à procura do seu sustento – o pasto, que já quase não há. “E o que há começa agora a ficar todo queimado pelo frio”, explica. Por isso, há dias em que os pastores e os animais têm de andar muitas dezenas de quilómetros, entre os terrenos arrendados. “Tudo custa a ganhar… só não custa à ladroagem que vem aqui e ganha tudo de repente.”

Um borrego recém-nascido tropeça junto às suas pernas, cortando-lhe o pensamento. E é agarrando naquela bola de lã branquinha, pacífica como um anjo, que parece escolher reconciliar-se com a vida, em vez de ficar a remoer amarguras. “Temos de ir em frente, não é verdade? Na Páscoa já havemos de ter mais borregos para vender.”

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Partilhei este artigo na minha página do FB e várias pessoas, espontaneamente, se propuseram ajudar o senhor Manuel “Lobo”. Agradecia que me contactasse para o meu email para tentarmos ver o que fazer.

    • Boa tarde, o IBAN está correto, estamos a receber donativos por esta via. Verifique por favor: PT50001803800020004684148
      Obrigada pela sua generosidade, feliz Natal.

  2. Enviei um pequeno donativo com indicação de transferencia imediata. Aguardo desenrolar das noticias. Desejo o melhor a todos os envolvidos.

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