Abrantes | Revista ‘Zahara’ regressa com histórias das gentes e memórias de epidemias

Apresentação do nº 35 da revista Zahara, em Abrantes. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A 35ª edição da ‘Zahara’, revista publicada pelo CEHLA – Centro de Estudos de História Local, foi apresentada na quinta-feira, dia 23 de julho, em Abrantes. A revista de história local regressa com histórias de gentes, memórias de epidemias e de um Tejo que nem sempre passou na Barquinha. O espaço Sr. Chiado, na Praça Raimundo Soares, foi o local escolhido para receber os autores do novo número e dos vários temas ligados à antropologia, história local, sociologia, quotidiano, memórias e etnografia.

PUB

A revista de História Local ‘Zahara’, no seu número 35, foi apresentada na quinta-feira em Abrantes. “Um projeto pensado há 18 anos enquanto projeto de território, ou seja, não pensado exclusivamente para Abrantes” mas também para outros concelhos vizinhos, começou por lembrar José Martinho Gaspar.

A publicação criada em 2002 é dirigida por José Martinho e está de regresso para voltar a partilhar histórias das gentes e memórias da região, nomeadamente dos concelhos de Abrantes, Constância, Gavião, Mação, Sardoal, Vila de Rei e Vila Nova da Barquinha.

PUB
Apresentação do nº 35 da revista Zahara, em Abrantes. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

“Temos cumprido aquilo a que nos propusemos: fazer umas Jornadas de História Local em cada um dos anos e lançar uma revista de seis em seis meses. Desta vez chegámos a hesitar. Tínhamos a pandemia e ficámos todos em casa, vimos que as pessoas estavam todas a parar muito e tivemos também um bocadinho de tendência para parar. Mas mesmo que não houvesse forma de apresentar, creio que fazia sentido e acabamos por ter mais oportunidade para escrever”, referiu José Martinho Gaspar, indicando que desta vez a revista tem mais 16 páginas, para juntar às cerca de quatro mil páginas de história local já publicadas.

Nesta edição, e a propósito da atualidade, a revista apresenta um dossier com três artigos de Candeias da Silva, Jaime Marques da Silva e António Matias Coelho sobre pestes e epidemias na História de Abrantes, Mação e Constância.

PUB

“Falamos desta situação que se está a viver e parece que é uma novidade. Quem estudou História sabe que há pestes e epidemias desde que as pessoas se lembram e há registos”, afirmou. Assim Martinho Gaspar falou “com algumas pessoas que normalmente colaboram connosco e escreveram três artigos que tentaram cobrir a nossa região no que diz respeito às doenças e epidemias”.

Apresentação do nº 35 da revista Zahara, em Abrantes. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Constatou-se, explica, que “algumas coisas que nos preocupam agora já preocupavam as pessoas há cem anos, há 200 ou há 500 e esses registos ficaram. As explicações que as pessoas dão hoje são explicações parecidas com as do passado. E a procura de alguém que resolvesse o problema também já existia nessa altura. É verdade que nesse tempo existia uma série de fatores que muito contribuíam para que estas doenças fossem recorrentes”.

E foi escutando os autores que a apresentação se fez. António Matias Coelho escreveu sobre os vários surtos epidémicos em Constância na segunda metade do século XIX e explicou que “a doença mais perigosa era a cólera, nos humanos, e nos animais a febre aftosa”. A cólera foi o terceiro grande surto com origem na Índia no século XIX. Chegou a Constância no verão de 1856, lê-se na revista. “Epidemias sempre houve, e durante um ano as crianças de Constância não foram à escola”, relatou.

Crisântemos e Placas Ajardinadas (Abrantes Florida) de José Vieira; Painel de Azulejo do Velho Mercado Municipal, por Teresa Aparício; Mudança do Percurso do Tejo por 30 mil homens, por Fernando Freire; Fonte Velha, peça de teatro no Sardoal, por Mário Jorge de Sousa, e Arquivo da Comenda, por Jorge Branco são mais alguns dos destaques deste número 35 da ‘Zahara’.

Apresentação do nº 35 da revista Zahara, em Abrantes. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

José Vieira escreve sobre uma história de família, particularmente sobre o seu avô, o mestre Simão Vieira, jardineiro da Câmara Municipal de Abrantes. “Em 1940 realizou-se a 1ª Exposição Nacional de Floricultura na Tapada da Ajuda em Lisboa, à qual a Câmara Municipal de Abrantes concorreu e Simão Vieira venceu o 1º prémio – Taça Rainha Santa Isabel (em prata) e um prémio pecuniário de 250 escudos (categoria placas ajardinadas fora do Pavilhão)”, lê-se também no nº 35 da revista ‘Zahara’.

Recorda ainda José Vieira que “em 1947, Abrantes viu a sua primeira exposição de crisântemos. Nesta exposição, foram admirados mais de mil e quinhentos vasos com 300 variedades, muitas delas criadas por Simão Vieira através de cruzamentos por si conseguidos. Em 1949, mais de três mil vasos ornamentavam jardins e ruas de Abrantes. Reconhecendo dedicação, zelo, aptidão e brio profissional, contribuindo para Abrantes ser reconhecida como ‘Cidade Florida’ em 1950, a Câmara de Abrantes aprovou por unanimidade um louvor e recompensa de 10 dias de licença ao jardineiro Simão Vieira”.

A professora Teresa Aparício escolhe ‘O Painel de Azulejos do Velho Mercado Municipal’ para um texto deste novo número da revista, onde refere que “na verdade são dois iguais, que se encontram sobre as entradas sul e nascente e que não figuravam ainda no edifício primitivo do primeiro mercado coberto de Abrantes inaugurado a 1 de janeiro de 1933”.

Fabricados na Fábrica de Faianças de Sant’Anna, uma referência na história da azulejaria portuguesa, os motivos e a simbologia dos azulejos do antigo mercado diário onde se vendiam flores, frutos e outros alimentos são explicados nas oito páginas do artigo.

Apresentação do nº 35 da revista Zahara, em Abrantes. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Mário Jorge de Sousa desmistifica a ideia de Sardoal ter uma longa tradição teatral, explicando ser “uma ideia lançada pelo Estado Novo”. Um artigo sobre “Fonte Velha de Maria Manuel Serras Pereira”, uma peça de teatro que marcou Sardoal, “um acontecimento teatral (e cultural) muito à frente do seu tempo e do contexto sócio-económico que caracterizava os concelhos atrasados do interior, como era o caso do Sardoal”.

“Maria Água e Bilha” chega pela história de José Alves Jana que conta quem foi (e continua a ser) Maria do Rosário Vilela Bernardino, de Belver. E escreve também um artigo que assinala os 25 anos da Associação Palha de Abrantes, começando por referir que “em 1995 o ambiente cultural em Abrantes era muito pobre. Quase nada fazia viver a vida da cidade. Em termos culturais, que me lembre, apenas o Orfeão de Abrantes mantinha os seus esporádicos concertos. Era um tempo morto. Por isso um grupo de cidadãos reuniu-se e pensou que era urgente fazer alguma coisa”, pode ler-se na página 130 da revista, que conta muitas outras histórias neste julho de 2020.

A terminar, nas últimas páginas da “Zahara”, surgem algumas notícias dos concelhos que são alvo da atenção dos autores. Na plateia esteve o presidente da Câmara Municipal de Mação, Vasco Estrela, e a vereadora da Câmara Municipal de Abrantes, Celeste Simão.

No caso de Mação a notícia versa sobre as Rotas de Mação, agora a nascer. Vasco Estrela explicou que o projeto das Rotas “está neste momento a entrar em velocidade cruzeiro e tem uma grande virtude: nasceu da vontade da sociedade civil. Fomos desafiados por um grupo de pessoas para lançar rotas e percursos para valorização do território. Neste momento temos definidas mais de uma dúzia de rotas no concelho, quatro já homologadas”, disse, acrescentando que dentro de um ano as Rotas estarão implementadas.

Celeste Simão escolheu a notícia sobre os 30 anos da EPDRA, a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, em Mouriscas.

A vereadora considera “muito importante valorizar o ensino profissional no concelho. Cada vez mais temos de ensinar os nossos jovens a aprender fazendo e é isso que se passa nesta escola profissional”. Lamenta que para a área florestal “não consigamos captar ainda a atenção dos nossos jovens” considerando “importante” que “a nível superior também aprovassem esses cursos que tanto sentido fazem agora. O esforço vai ser feito todos os anos na divulgação desta oferta”, garantiu, falando no lançamento da campanha para os cursos profissionais dos dois Agrupamentos Escolares e também da EPDRA.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here