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Abrantes | Reportagem: Como cuidar de 170 animais num canil intermunicipal sem voluntários? (c/vídeo)

Num ano em que termina o período de transição para o fim do abate em canis e gatis, em que se torna obrigatório implementar medidas de combate à sobrepopulação de animais errantes, somando às leis que vieram reforçar um estatuto jurídico dos animais de companhia, o mediotejo.net foi saber o que tem a dizer a ADACA, Associação de Defesa dos Animais do Concelho de Abrantes, gestora desde 2007 do canil intermunicipal (que engloba Abrantes, Constância e Sardoal), e que tem sentido na pele a real necessidade de mudança, quer no próprio espaço, quer nas mentalidades das pessoas. Pois a ADACA “não tem nada, nem ninguém”… a não ser cerca de 170 animais ao seu cuidado.

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Tudo remonta a 2007, quando a ADACA, associação da qual Ana Moreira Fontinha é presidente e porta-voz, assume um protocolo com as três autarquias, de Abrantes, Constância e Sardoal, para ser associação gestora do espaço e cuidar dos animais.

Acontece que, passados 11 anos, esta associação sem fins lucrativos (que fora criada a 17 de outubro de 2001 com o sonho de um projeto de canil/gatil nunca implementado pelos elevados custos que representaria) sempre operou no terreno com o intuito de fazer prevalecer os direitos dos animais, contando que haveria quem se disponibilizasse para ser família de acolhimento temporário, recolher animais errantes na via pública, ou promover adoções.

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E isto era possível, havendo na altura voluntários suficientes para que esta dinâmica acontecesse. Mas hoje a história é diferente.

Volvidos 11 anos… as maiores necessidades do canil e da associação passam pela falta de recursos humanos e pela falta de espaço. “O canil encontra-se sobrelotado”, começa por indicar Ana Moreira, presidente da ADACA e porta-voz dos 170 animais que cuida todos os dias. A média, disse, “por mais incrível que pareça, vai-se mantendo”, rondando sempre os 160 ou 170.

E isso é notório pelo coro de latidos que se gera à nossa chegada ao portão do canil. De portes variados, de pelagem curta, ondulada, de tantos tons e feitios, de raça ou rafeiros, são tantos os cães sob alçada da associação, ali protegidos, aguardando um lar para o resto da vida.

Segundo dados a que o mediotejo.net teve acesso, cedidos pela ADACA, entraram naquele espaço 915 cães até 30 de outubro de 2017. “O que torna tudo um pouco complicado”, refere a responsável, lembrando que o canil foi feito para 75 lugares.

Ao entrarmos, verificamos que essa limitação não serve. O espaço torna-se demasiado pequeno para lhes dar a qualidade de vida que precisam, evitando sobrecarregar boxes. No canil, até o edifício principal, nas diversas divisões, alberga animais. Na casa de banho cachorrinhos e cães de porte pequeno são protegidos dos séniores, que usam o corredor. Na enfermaria alguns cães com deficiências físicas e amputados, bem como séniores com dificuldades motoras, optam por ficar deitados junto ao aquecedor, na carpete. Chegam de todo o lado, mas são cães dos três concelhos.

Tendo sido a ADACA pensada para atuar no território do concelho de Abrantes, que soma cerca de 700 km² de área, questionamos Ana Moreira sobre os prós e contras da intermunicipalidade do canil – com sede em Chainça, concelho de Abrantes, mas abrangendo os municípios de Constância e Sardoal, somando mais 80 km² e 90 km², respetivamente, ao território agregado.

“Para a ADACA, enquanto associação, faz com que tenhamos de nos reger pelas normas daquilo que aceitámos e acordámos há 11 anos. E o interesse na altura seria nosso, na medida em que pretendíamos evitar o mais possível o abate de qualquer animal”, começa por lembrar, acrescentando que “a intermunicipalidade é aprovada pelas Câmaras porque através dela vão conseguindo obter mais acesso às ajudas”; mas “para evitar a sobrelotação e constrangimentos, sem dúvida nenhuma, a intermunicipalidade é algo mau”.

E explica por quê: “Para mim, e discutido já por muitas pessoas, cada município deveria ter o seu próprio canil. Porque, por exemplo, Abrantes é um município muito maior que Sardoal, muito maior que Constância; enquanto Constância recolhe uma dúzia de cães por ano, e o Sardoal a mesma coisa, Abrantes… upa!, upa!”, exclamou.

“Depois temos o problema de o canil estar sediado em Abrantes, os cães que são abandonados à porta do canil, os cães que se calhar até vêm de Constância ou de Sardoal e vêm parar a Abrantes e terão que dar entrada como pertencentes ao município de Abrantes, que muitas vezes não sabemos a origem deles… E depois temos as dificuldades que as próprias Câmaras poderão ter na gestão entre elas para se tentar fazer alguma coisa”, reconheceu Ana, sentindo que “há-de ser complicado o aumento do canil”. Como vão conseguir gerir a situação? “Não sei, honestamente, não sei.”

A ADACA é uma entidade gestora, uma associação sem fins lucrativos, e tem que se reger pelas regras dos municípios, e isto é para Ana Moreira “ponto assente”. Porém, a comunidade ainda não assimilou como funciona o processo. “E isso é o que as pessoas têm que entender. É que a ADACA só está ali para tratar dos animais e para tentar arranjar-lhes famílias, acolhimentos, adoções. Tratá-los a nível de saúde, mantê-los limpos… Da parte das Câmaras há reconhecimento ao nosso trabalho. No fundo, eles sabem que se nós lá não estivéssemos, seria muito mais complicado”, referiu.

“A casa não é nossa, e temos de respeitar as regras. E os cães, pela lei, ao fim de 8 dias de permanência no canil, que este ano transita para 15 dias, passam a pertencer à ADACA. Portanto, estes cerca de 170 cães neste momento pertencem à ADACA. Não são da Câmara.”

Automaticamente, Ana faz uso do velho ditado: “Quem está no Convento é que sabe o que lá vai dentro”… E lembra, lamentando, que “por vezes há conflitos, há opiniões, coisas são ditas, de quem nada sabe da realidade dos factos”. E isso, nada abona a favor da ADACA, nem dá ânimo e reconhecimento pelo que vai fazendo, subsistindo e garantindo a subsistência de mais de uma centena de animais.

Foto: Diana Serrano

As leis, as obras, o aumento do canil e as esterilizações

As obras, afirmou Ana, vão ter de ser feitas. “As leis saem e falam na obrigação de fazer esterilizações, algo que a Câmara de Abrantes já faz em colónias de gatos de rua”, mas vai ter que se iniciar “um novo processo pelos animais que, até agora, somos nós que, conforme as nossas possibilidades, e com ajuda por vezes de quem os adota, aproveitando a benesse de serem adotados no canil, terem um preço mais confortável nas respetivas castrações e esterilizações”.

As leis… “As leis saíram. Saiu muita coisa. O final do abate será a partir de, salvo erro, início de outubro, agora até lá… é um timing que, ou temos muito juízo, porque o espaço é curto, ou então vai suceder o que muitos já fizeram, mas sei que os nossos não o farão”, disse, referindo-se a casos do seu conhecimento, em que fecharam portas a associações, terminando o protocolo, “limpando a casa, e recomeçam do zero naquele dia”.

“E eu, aqui, não quero que isso aconteça. E não vai acontecer. A ADACA vem única e exclusivamente para impedir o abate, e posso dizer que nunca se abateu um animal por excesso de lotação. Só por doença, em último caso, e não de minha vontade. Na minha ideia, prefiro que morram por eles próprios, mas quando sinto que estão em sofrimento, já o fiz, já o pedi, para três ou quatro animais. Mas, dizendo a verdade, fugi. Não quero ficar na memória com uma situação dessas”, reiterou.

Ainda assim, reconheceu, “há animais que podem estar doentes, mas até nem estão em sofrimento, e se não estão em sofrimento, então podem morrer quentinhos, morrem porque assim tem que ser, e porque a lei da vida manda que assim seja”.

Neste ponto, Ana traz à conversa um tópico que, em 2017, tem marcado outros canis pelo país fora: animais mortos no canil, que morrem em brigas por excesso de lotação. A responsável tem uma posição vincada quanto a este tema, e afirma, veementemente, que “as Câmaras não têm culpa do excesso de lotação” e garante que “não é preciso um canil sobrelotado para um cão morrer numa briga”.

“Torna-se é impossível conseguir-se, dentro do canil, visualizar todas as situações e controlá-las. Porque também tenho momentos que não estou, e normalmente, por incrível que pareça, é nesses momentos que essas coisas acontecem. Eu saio para jantar, e chego ao canil com um cão morto numa briga. Porquê naquele momento e não quando eu estava? Há outras em que eue estou e consigo resolver”, admite, recordando de imediato um exemplo recente.

“Ainda há uns tempos houve uma briga numa boxe que só lá tinha três cadelas, e uma delas morreu. Porquê? Só lá estavam três e é uma boxe para dez animais! É como acontece com as pessoas, é igual. Nos animais, por inconsciência, um grão de ração, uma formiga, uma folha, pode gerar uma briga”.

Quanto ao facto de comportamentos depressivos poderem espoletar estas brigas, Ana Fontinha crê que não seja motivo. “Tenho um cão, o Igor, que veio da rua, a tomar antidepressivos, não está em boxes, está à solta, suponho que terá sido um cão de matilha para montarias de javalis. E poderá ter sofrido maus tratos, poderá ter sofrido muita coisa, mas o certo é que está em depressão. Dentro das boxes, haverá um ou dois com sintomas que nos levem a desconfiar que poderá ou não ser depressão, quando resolvem andar a correr à volta do rabo de forma descontrolada, etc…”

Os cães da ADACA, informou Ana, “vão ‘à rua’ todos os dias. Não estão fechados dentro das boxes, dia-a-dia, 365 dias por ano. Todos os dias têm cerca de 20 minutos a meia hora para andar na rua, e o engraçado é que, ao fim de dois ou três minutos, eles já querem entrar novamente. Temos alguns casos até em que a porta que dá para o exterior das boxes tem um vidro partido. Há cães que vão à rua, dão uma volta ao terreno, e saltam por aquele vidro e voltam a correr para dentro”.

Recorde-se que, no canil, além dos cães conjugados nas boxes, tem de ir havendo “jogo de cintura” para evitar brigas desnecessárias. Como tal, alguns dos animais, pelo porte ou personalidade, integram a matilha que está à solta. “Uma vez que não se pode sobrecarregar as boxes, aí poderia dar muito mau resultado. Neste momento as boxes não estão lotadas, as boxes devem ter cerca de 55 a 60 cães, para o tal limite de 75 lugares, não estão lotadas”, reconheceu Ana, lembrando os cães que morreram em 2017: “No pátio morreram dois, nas boxes morreram quatro ou cinco. E não estavam sobrelotadas”. Para Ana, trata-se de uma questão de instinto, porque os animais funcionam assim.

Mas a sobrelotação é real. “A culpa da sobrelotação é de quem os põe na rua, de quem os abandona. E quem, por dá cá aquela palha, manda os cães para o canil. Porque continuam, todos os dias, pessoas detentoras de animais a telefonar para os entregar ao canil…”, reconheceu, dando conta desta tendência.

“É óbvio que não os recebo. Cães com dono não entram no canil… Reconheço que poderá haver situações em que as pessoas acabem por abandonar o animal. Mas não posso abrir precedentes, ao aceitar cães no canil com dono… senão, íamos ter uma fila…”, disse, sublinhando que são as autoridades e a Câmara que fazem a recolha, porque a ADACA não recolhe cães. Só quando estes a chamam para tal.

Para Ana Moreira, “as pessoas vão descobrindo maneiras de se desfazer dos seus próprios cães”, algo contra o qual tenta lutar. Como é o caso recente, de um abandono à entrada do canil. A cadela Shakira. “Sabemos muito bem a quem ela pertence, um dia… espero resolver o assunto e dizer à pessoa, diretamente, ‘a cadela é sua, a recuperação e internamento custou ‘x'”. Esta cadela foi abandonada à porta do canil, dentro de uma caixa, e não andava. Foi diagnosticada com uma Polineuropatia motora idiopática, e está a fazer tratamento, internada no Hospital Veterinário da Arrábida, contando com donativos e apoios voluntários para cobrir as despesas.

Foto: mediotejo.net

2018: o ano da viragem… e da esperança?

Sim, de facto, 2018 é um ano de viragem no que aos canis e gatis municipais concerne. A verdade é que, pela lei, deverão ser as autarquias as responsáveis por implementar o que fora aprovado em junho de 2016, criando condições para o fim do abate em canis e gatis, bem como promovendo campanhas de esterilização, que venham combater a sobrepopulação de animais errantes.

Mas, nisto, as associações de defesa dos direitos dos animais, caso da ADACA – Abrantes, Constância e Sardoal, vêm lembrar que está nas mãos das entidades públicas a força para mudar o panorama atual, nomeadamente fazendo cumprir a lei por via da monitorização e levantamentos, dos registos e licenciamento, e, acima de tudo, da sensibilização às camadas certas da população.

“As pessoas mentalizaram-se agora, com a saída de novas leis, que o mundo muda de um minuto para o outro… não muda. Primeiro, há muitos buracos nas leis, porque estas leis não têm suporte na Constituição. As leis não têm nada a ver com as que vieram impor o não-abate, as esterilizações, o aumento dos canis, etc… Isso vai dar aso às coisas irem rolar muito mais tempo do que aquilo que seria previsto, porque muitos sabem que nada vai ser feito”.

A ADACA, diz, “vai continuar a fazer aquilo que sempre fez”. Mas, considera, “os municípios não vão ter capacidade de resposta” para cumprir todos os requisitos. “Montar uma sala de cirurgia num canil… não é coisa fácil. Poderão optar por fazerem parcerias com clínicas veterinárias, para nós seria a atitude mais lógica, porque caso contrário terão que meter veterinários com capacidade e experiência para o fazer. Uma sala de cirurgia não custa dois tostões… a manutenção dela também não é fácil…”, disse, colocando as hipóteses em cima da mesa.

O compromisso, do lado da ADACA, irá manter-se, por via do esforço, aguardando por dias melhores. “Vou continuar a fazer o meu trabalho, vou continuar a tratar os nossos cães, vou continuar a tentar proporcionar-lhes o melhor espaço, a melhor qualidade de vida que me for possível dar-lhes, e que só vai ser possível se conseguirmos ajudas. Porque a ADACA não tem nada, nem ninguém. Como é uma associação e era suposto viver dos 180 ou 190 sócios… mas se meia dúzia deles estiverem a pagar quotas é muito”, contou.

A culpa, reconheceu Ana, é da associação e dos membros ativos que restam. “A culpa é nossa porque também não temos tido até esta altura como contactar sócios, falar, manter viva a presença da ADACA, e eu tenho consciência que essa falta é imperdoável da nossa parte. Há coisas simples que se podem fazer, e eles continuarem a saber que a ADACA existe. Estou com um bocadinho de esperança que o ano 2018 vá mudar o rumo da ADACA, havendo quem venha por bem”, terminou, mostrando-se esperançosa.

Foto: mediotejo.net

Abandono de animais é “flagelo” e “problema de mentalidades e de bases”

Este é, para Ana, “um problema” cujo exemplo “deveria partir de cima”. E não parte. “Refiro-me a autoridades, e à necessidade de haver uma mão pesada, haver uma procura incessante até saber porque é que o animal foi abandonado, quem é que o abandonou e quando se sabe que foi abandonado, mas… nada se faz. Ou faz-se muito pouco”, sublinhou.

Para Ana Moreira, “o munícipe, o cidadão, o português… tem sempre razão. Vence sempre”, e tira da memória um exemplo que ilustra o seu raciocínio. “Isto é como a situação do Simba, cão de raça Leão da Rodésia, com dono [caso que aconteceu em Monsanto, Castelo Branco, cujo mediatismo trouxe à discussão pública a questão dos direitos dos animais e o seu estatuto jurídico]. E, o dono, ao saber da morte do cão, chamou assassino a quem pegou na arma e o matou. A situação foi toda para tribunal. O dono do cão pagou mais ao vizinho por lhe ter chamado assassino, do que o vizinho pagou de indemnização por ter morto o cão. Não preciso de mais nenhum exemplo…”, resumiu.

“Temos outro caso, outro Leão da Rodésia, também chamado de Simba, [por ter sucedido tempo depois do acima citado] encontrado pelo SEPNA, a um sábado à tarde, tendo chamado a ADACA. Os dois agentes da GNR foram para a frente com o caso, absolutamente indignados após a recolha do animal, mas a situação caiu por terra. Segundo me foi informado, a dona do cão justificou que se tinha dirigido à ADACA a pedir ajuda. Se calhar até pediu. Mas se foi pedida ajuda, não nos foi dito o estado em que o animal estava e a ajuda que era precisa. Mas como é que podemos ajudar, se não tivermos quem nos ajude a ajudar? Como posso tratar os cães se não me ajudarem a pagar as contas do veterinário? Como posso alimentar os cães se eu não tiver meios? Também não me é fácil ajudar animais com dono. Ponto final!”, afirmou.

“Não me recordo se me pediu ajuda, honestamente. Mas talvez se tivesse sido mais convincente, mostrado e explicado o que se passava, também havia outras situações. Porque o cão não tinha comida, estava doente, mas a pessoa em questão tinha meios para sustentar outros vícios, pelo que vim a saber posteriormente…”, recordou, acusando a falta de responsabilidade e de aptidão para cuidar do animal em causa, que merecera a piedade de uma Clínica veterinária em Rio Maior, que tentou salvar o cão, em estado de degradação muito avançado, mas infelizmente não foi possível salvá-lo. “Mas a sua suposta dona continua por aí, se calhar já tem outro cão a passar fome em qualquer lado…”, indagou, mostrando-se sempre crítica quanto a este tipo de situação.

Aqui, Ana entende que o passo tem que ser dado pelas autoridades, a tal “mão pesada”. “Acho que as autoridades deviam ter uma ligação, deviam trabalhar em parceria, Câmaras Municipais, Juntas de freguesia… As freguesias deviam ser obrigadas a fazer levantamentos/censos de todos os animais por agregado familiar. Saber quantos cães estão registados na freguesia, e os que não estão, porque é que não estão? Eu não digo que, após um trabalho destes, vão bater à porta das pessoas e multá-las. Não. Dêem tempo, façam campanhas de sensibilização. Por exemplo, um espaço de seis meses, para ser feito registo, licença e chip, para vacinar os que têm de ser vacinados…”, indicou, deixando uma das suas muitas ideias a implementar neste campo.

Mas a questão que se impõe é: “Quem vai fazer a campanha?”. Para Ana, a partir daquela medida tomada, “podia fazer-se muita coisa. Até porque muitos presidentes de junta sabem muito bem de quem são os cães”, afirmou.

Alertando para o facto de, a qualquer momento, “uma família poder tornar-se carenciada, e precisar de apoios sociais”, Ana entende que já devia ter sido feito um banco local com a cooperação das superfícies comerciais, contribuindo com sacas de ração e latas de comida húmida cujo prazo de validade se ultrapassa, ou que ficam impróprias para venda por estarem rasgadas. “Porque é que as entidades não pensam em criar um gabinete social paralelo às assistências sociais, que trate e contacte as entidades para todos esses produtos serem cedidos para esse departamento e quando existem famílias carenciadas detentoras de animais de estimação, ser distribuído por elas…?”, frisou.

Foto: mediotejo.net

Por outro lado, além dos maus tratos e carências, o flagelo do abandono, o motivo pelo qual todas estas questões têm de ser reestruturadas, debatidas e pensadas, contribui para que a balança fique descompensada. O mau registo, ou a inexistência do mesmo, tem facilitado o abandono de animais.

Ana recorda que no canil estão dois Labradores, um cão castanho e uma cadela preta. “Foram recolhidos em Martinchel, vieram para o canil, e o Labrador castanho tem chip. A cadela não tem, mas eles estavam juntos e vieram do mesmo sítio provavelmente… Quem é o cão? O cão está em nome de quem o vendeu, há 9 anos atrás”, começa por contar.

“Não vamos misturar as coisas, mas em termos legais e de registo, as coisas funcionam assim. Compro um carro a alguém. Eu, se dentro de 60 dias não puser o carro no meu nome, estou desgraçada. Agora, porque é que um indivíduo vende um cão, e este mantém-se ao fim de 9 anos em nome do criador que o vendeu?”, questionou, mostrando-se indignada.

“Perguntei ao criador e ele diz não ter registo. E eu participei. O que é certo, é que o cão está há um mês no canil, e vai ficar no canil chipado em nome do criador… ambos os cães têm nove anos, e são dois Labradores que vão ficar no canil porque ninguém os vai adotar com esta idade. Os donos não os procuram, porque não estão preocupados, porque o cão até está chipado em nome de outrém…”, lamenta.

Depois temos Flora, cadela de caça que foi atropelada, e recolhida no canil. “Está chipada em nome de uma determinada pessoa, foi passada para outra pessoa do concelho. Eu contacto esta pessoa, a uma quinta-feira, ela mentiu-me, embora depois dissesse ‘a minha melhor cadela de caça’, mas mentiu-me, porque me disse que era impossível ser a cadela dele, uma vez que ela estava em casa e que ainda no dia anterior lhe tinha dado de comer. Mas acontece que a cadela estava internada na clínica desde segunda…”.

“O certo é que eu tenho o registo. Mas para saber a verdadeira história da cadela, tive que contactar o antigo proprietário, a junta de freguesia de onde ela veio, e finalmente vim à junta de freguesia de cá, onde não consta registo dela… Motivo pelo qual esse mesmo senhor não me entrega os documentos da cadela, porque desde que a tem, ela nunca foi vacinada, nunca foram pagas licenças. Este senhor é caçador”, referiu, notando ainda que não tem autoridade nem meios financeiros para face a este tipo de processos.

“Enquanto não fizermos alguma coisa, nomeadamente as entidades públicas, pelo menos nestes casos em que há certezas, isto vai continuar… é uma bola de neve. É frustrante”, afirmou, recordando o saudoso Pinguim, podengo de caça, que morrera de velhice no canil. “Morreu-nos, velhinho, chipado. E eu soube que o cão estava chipado, porque um dia, o próprio dono visitou o canil… é uma figura da autoridade. E exclamou “este cão é meu!”, e eu fui consultar o registo. O cão estava chipado, mas não estava em nome do senhor em causa. O certo é que ele disse no canil que o cão era dele. Perguntou se o cão não tinha uma coleira com um badalo, e eu fui buscar a coleira e o badalo. Ao que ele diz “é essa mesmo!”… O Pinguim morreu em dezembro, nas nossas mãos, de velhinho. No entanto foi comunicado que o senhor havia dito que o cão era dele…”, nada foi feito. O cão não estava registado.

Foto: mediotejo.net

Para Ana Moreira, a autarquia ou as entidades oficiais competentes, teriam que fazer qualquer coisa. “Contra isto, nós, associações, não podemos fazer nada. Enquanto não houver, de facto, uma boa vontade de todas as entidades ligadas a isto, não vamos avançar em nada. Vão continuar a fazer o que querem”, sublinhou a responsável pelo canil intermunicipal.

Mencionando que ainda “há indivíduos que continuam a ter animais nas condições mais degradantes, possíveis e imaginárias”, refere que não tem como denunciar esses factos sem ser punida pela lei, daí a pertinência de serem as autoridades a entrar em ação.

“Já nem há questão de aplicar leis. É questão de pôr em prática as poucas leis que existem. Mas em todos os sentidos”, disse, acrescentando que enquanto não se fizer sensibilização nos sítios certos, nada feito.

“Sensibilizar as crianças nas escolas primárias? Já ponho em causa. Eu acho que a sensibilização devia começar na sala de reuniões das Câmaras Municipais, das Juntas de freguesia, nos Comandos da PSP e da GNR, então depois desses passarmos às crianças. Porque as crianças ainda nos dão uma margem de tempo maior para assimilarem as boas práticas”, criticou. “Não sensibilizam as pessoas a olhos vistos. Onde está a sensibilização? A lei pode ter saído, mas não andamos a ler o Diário da República! É este o país que temos… Só através da sensibilização, uma campanha muito bem feita, e que abranja e comece pela parte de cima e não pela parte de baixo”, afirmou Ana, convicta de que as gerações mais jovens têm asseguradas essas aprendizagens e essa sensibilidade perante os direitos dos animais.

E isto, reconheceu, “acontece porque nas escolas já vemos muitos professores e não docentes a incentivar os alunos ao bom trato dos animais. Há muitas crianças a darem donativos, a irem visitar o canil, já temos alguém bem formado a tentar ajudar nas faixas etárias mais jovens. Então passemos às entidades oficiais que possam fazer cumprir a lei aos cidadãos, enquanto munícipes e adultos esclarecidos e informados”, concluiu.

A ADACA, com sede na Chainça, está sempre disposta a acolher quem venha por bem, que queira ajudar. Voluntários, precisam-se! Mas que sejam pessoas que consigam, de forma abnegada e com frequência, estar presentes e que ajudem a colmatar uma das maiores falhas sentidas: a falta de meios humanos. Só assim será possível um novo rumo, e só com boa vontade e sensibilidade neste âmbito, com sacrifício pelo meio, a ADACA poderá continuar na missão e compromisso de resgatar e cuidar dos “quatro patas” que, certo dia, deixaram de servir os seus lares e famílias, para serem deixados ao deus-dará, à espera do milagre da adoção para o resto da vida. O que é raro.

Se quiser ajudar a ADACA com donativos, pode fazê-lo através do NIB 0035 07000000605213075.

Qualquer contacto deverá ser feito para o número de telefone 968 386 916 ou através da página de Facebook.

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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