Sábado, Fevereiro 27, 2021
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Abrantes: Realizador José Vieira despediu-se do sítio onde se sentiu “em família”

A primeira semana do ciclo de cinema dedicado a José Vieira, com organização do Espalha Fitas, terminou esta quinta-feira, dia 6, com a exibição do filme “O país onde nunca se regressa”. A terceira das oito sessões que terminam a 16 de novembro teve lugar no espaço Sr. Chiado, em Abrantes, e foi ali que o realizador português se despediu do Médio Tejo. Aproveitámos para falar com ele sobre a passagem pela região e a obra cinematográfica que foca a realidade da emigração portuguesa no século passado, chegando à conclusão de que o tema tem mais semelhanças com a atualidade do que parece à partida.

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O ciclo de cinema dedicado à obra cinematográfica de José Vieira teve início no passado dia 4 de outubro com a exibição do filme “A Fotografia rasgada” no Sr. Chiado, em Abrantes, continuou no dia seguinte no Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal, com “Memórias de um futuro radioso”, e terminou a primeira semana com “O país onde nunca se regressa”, novamente em Abrantes. Assistimos à última sessão, conduzida por Carlos Coelho, e terminámos a noite à conversa com o realizador.

O encontro com a realidade dos emigrantes portugueses na década de 60 do século passado e o realizador ficou marcado para as 21h30, hora de todas as sessões da iniciativa organizada pelo Espalha Fitas, secção de cinema da associação Palha de Abrantes. Às sete datas previstas inicialmente, foi acrescentada uma oitava e no dia 16 de novembro o espaço Sr. Chiado partilha “Crónica do renascimento de uma aldeia”.

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A obra sobre o percurso dos emigrantes portugueses nas antigas aldeias vinhateiras francesas, como Roche-Blanche (Auvergne) que salvaram da ruína ao estabelecerem-se ali, é a nona a ser exibida até ao final do ciclo de cinema. Durante o mês de outubro, o Espalha Fitas partilha “O pão que o diabo amassou”, a 12, “Aquele estranho mês de maio”, a 19, e “Os emigrantes” e “Ilha dos ausentes”, a 26.

A sessão decorreu no espaço Sr. Chiado e foi conduzida por Carlos Coelho. Fotos. mediotejo.net
A sessão decorreu no espaço Sr. Chiado e foi conduzida por Carlos Coelho. Fotos. mediotejo.net

Quatro quintas-feiras e quase seis horas em que se continuará a abordar uma temática que o realizador conhece desde a sua partida para França aos sete anos de idade, em 1965. A viagem para se juntar ao pai – que deixou Oliveira de Azeméis rumo a França para proporcionar um futuro melhor à família e onde acabaria por regressar à vida de ferreiro – é contada no filme, “imposto”, segundo o realizador, pelos entrevistados d’”A fotografia rasgada”. O primeiro fala de regressos, o segundo de partidas.

Na conversa informal que se seguiu à exibição da compilação de vídeos caseiros, José Vieira falou com os presentes que encheram as cadeiras e os sofás do Sr. Chiado as sobre as experiências relatadas pelos protagonistas. Vivências marcadas pela sensação de não se pertencer a qualquer um dos países, o que os viu nascer e o que os adotou, e a paragem do tempo no momento da partida, que fixa na memória imagens alimentadas pela saudade ao longo dos anos.

Com o passar dos anos, a terra natal passa a destino de “vacances” e o derradeiro regresso acaba por se revelar, muitas vezes, uma desilusão quando se encontra um país e um ritmo diferentes. Alguns ponderam não voltar, outros voltam por não conseguir suportar o nível de vida do lado de lá da fronteira. O preço a pagar é a saudade, não do país de origem, mas daquele onde trabalharam durante décadas e os filhos permaneceram. Fica sempre alguma coisa para trás.

O pai do realizador é um dos protagonistas do filme. Fotos: mediotejo.net
O pai do realizador é um dos protagonistas do filme. Fotos: mediotejo.net

O passado marcou a conversa com o público por isso decidimos focar-nos no presente durante a breve entrevista que fizemos a José Vieira ao final da noite, a menos de 24 horas de deixar o Médio Tejo para regressar à vida dividida entre Portugal e França. Que imagens atuais inspirariam um filme, a nova geração que se vê forçada a partir e a crise dos refugiados foram alguns dos temas abordados, confirmando que o tema abordado na sua obra cinematográfica está mais atual do que nunca.

Hoje já se falou muito de passado por isso começo por perguntar quais são as duas imagens que destacava no presente, uma de Portugal e uma de França, se tivesse que fazer um filme.

As imagens… A maneira como hoje eu vejo Portugal são as aldeias desertas onde só há velhotes. De cada vez que chego cá – eu sou de uma vilazita – o Largo da Feira que é uma espécie de aldeia na vila, as pessoas desapareceram. Para mim é isso, as aldeias portuguesas que estão desertas e onde está tudo a desaparecer. O mundo que eu conheci quando era pequeno está a desaparecer. Essa é a imagem que eu tenho de Portugal, já fiz um filme sobre isso e estou a trabalhar, vou para lá agora. É uma das coisas que me preocupa, mas é o Portugal presente. Essas pessoas estão a viver hoje em Portugal, esse que está a desaparecer e vai desaparecer.

A imagem que eu tenho mais forte de França, hoje, é ver refugiados nas ruas de Paris. Pessoas que vêm da Somália, da Síria, da Eritreia, da Líbia, de todos os lados de África e do Afeganistão. Estão ali, moram no metro, nas ruas e a única solução que há até agora é de as expulsarem e as pessoas vêm outra vez para o mesmo sítio, como também se passa com os ciganos da Roménia e já trabalhei sobre isso.

Lá existem muitas pessoas que o franceses não querem acolher e aqui pessoas que as pessoas não querem ver. São duas imagens, são duas preocupações que eu tenho hoje, mas estou consciente de Portugal e França não são só isso.

Acabamos por não conseguir fugir à questão de alguém que deixa o seu país e, como se falava há pouco, “por imposição” da necessidade. Tema abordado nos filmes exibidos durante o ciclo de semana que hoje chega ao final da primeira semana e do qual se despede. Qual é o balanço que faz das três sessões em que esteve presente?

Em primeiro lugar, as pessoas são muito simpáticas, realmente simpáticas, e sinto-me bem aqui, o que não é evidente. Não é evidente que eu me sinta sempre bem em Portugal. Aqui senti-me bem, não sei porquê…

José Vieira e Carlos Coelho. Fotos: mediotejo.net
José Vieira e Carlos Coelho. Fotos: mediotejo.net

Ao ponto de se sentir em casa?

Sim, sem problema nenhum. Com uma língua que não sendo estrangeira é, por vezes, um pouco complicada de falar, mas sim, senti-me em família. Com pessoas interessadas pelo que se está a passar, mesmo aquelas que não conhecem qualquer emigrante, mas estão interessadas nisso. O que me interessa mais são essas pessoas, as que não sabem o que é a emigração num país onde a cultura da emigração existe há cinco séculos. Toda a gente se foi embora deste país por isso é que ele, às vezes tem dificuldades (ri-se).

Outra coisa importante. Eu trabalho, sobretudo, em relação a França, mas estou preocupado. A prova são as versões portuguesas dos meus filmes porque estou preocupado que as coisas cheguem aqui. Chegaram até Abrantes e estou contente. Mais uma conquista. (ri-se)

Acaba por perpetuar uma história que poderá ajudar quem passa pela experiência da emigração neste momento. Uma nova geração que, apesar do contexto diferente, volta a sair do país de origem.

Eu quando faço os filmes, a ideia nunca é de contar só o passado. É a de compreender que essa história tem uma atualidade. Pensar que a emigração é sofrimento, etc, etc… e vamos chorar um bocadinho sobre isso… Isto não me interessa. O que me interessa é saber hoje como é que esta memória, esta história, nos serve para viver o presente e olhar para o presente. Para ver se finalmente vemos o que se está a passar, do que fugiu. Fugimos da miséria, da guerra, da repressão e de uma ditadura. Do que estão as pessoas a fugir hoje? De uma ditadura, da guerra, repressão, miséria, fome, etc. Claro que hoje é muito mais grave, é muito mais gente. O que me interessa neste trabalho que eu faço é a atualidade que ele tem.

Vimos no filme quem viajou de forma clandestina de barco. Perante a atual crise de refugiados falamos numa escala diferente, mas…

É a mesma história, é a mesma coisa. É a mesma odisseia das pessoas que partem, que passam clandestinamente. O português que morreu nos Pirenéus não tem nada a ver com as pessoas que morreram no Mediterrâneo, mas mesmo assim, vemos que a emigração portuguesa nos anos setenta e oitenta, a grande deslocação depois da Segunda Guerra Mundial era a portuguesa.

Por exemplo, eu tive um projeto de fazer um filme sobre a fronteira em Hendaye para ver os Sírios a apanhar os comboios e atravessar as fronteiras. Foi a atualidade que provocou a minha memória e isso é que me interessa.

José Vieira, Carlos Coelho e Lurdes Martins, presidente da associação Palha de Abrantes. Fotos: mediotejo.net
José Vieira, Carlos Coelho e Lurdes Martins, presidente da associação Palha de Abrantes. Fotos: mediotejo.net

Que termo ou expressão utilizaria para descrever o facto de, mais de meio de meio século depois, o tema se manter tão atual?

Crise enorme do mundo. Estamos numa crise que é total: ecológica, económica, política… a incapacidade dos governos do mundo, da ONU [Organização das Nações Unidas] fazer alguma coisa. De cada vez que há emigração clandestina, os políticos dizem que é preciso desenvolver os países do sul para as pessoas não saírem. Se há ditadura, se há guerra como é que as pessoas não fogem de lá? É um discurso com 20, 30, 40 anos e cada vez estão mais na miséria e na ditadura, portanto, as coisas não vão parar e para mim é uma crise imensa.

Como dizia um tipo francês: as estatísticas são formais, cada vez há mais estrangeiros no mundo e o número vai subir. Devíamos ser todos cidadãos do mundo, mas não é essa a realidade.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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