Quarta-feira, Março 3, 2021
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Abrantes | Quase 4 séculos depois, Alvega sem romaria a Nossa Senhora da Guia

No dia seguinte à Páscoa seria natural a comunidade de Alvega e Concavada festejar junto à Ermida de Nossa Senhora da Guia, uma confraternização em forma de um enorme piquenique ao redor da capela erigida em 1626 e que ainda hoje atrai romeiros e devotos ao culto mariano. Alguns regressados de vários pontos do País e até do estrangeiro aguardam em família pela segunda-feira após a Páscoa. Este ano é diferente. Sem reunião familiar, sem abraços ou beijos, em confinamento e solidão provocados pelo isolamento social da pandemia da covid-19. Restam as memórias.

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Após atravessar a ponte sobre o rio Tejo, na estrada nacional 358, vindo de Mouriscas para Alvega, pode observar-se à direita, uma capelinha de forma circular isolada entre o verde dos arbustos. É a Ermida de Nossa Senhora da Guia. A capela situa-se em terreno privado perto da estrada, mas quem quiser chegar até ela terá dar uma volta perfazendo cerca de um quilómetro. Basta seguir por um caminho de terra batida, à direita, e atravessar a linha férrea que serve a central termoelétrica do Pego. Ao passá-la, seguir novamente pela direita até encontrar a capela (cerca de 1100 m).

A romaria de Nossa Senhora da Guia na segunda-feira a seguir à Páscoa – que teve origem na Confraria do Espírito Santo, constituída por pescadores devotos à Virgem e a quem recorriam para proteção em dias de aflição, é precisamente um dos principais festejos anuais de Alvega (Abrantes), que este ano de 2020 não se realiza devido à pandemia da covid-19.

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Reza a lenda que a imagem da Nossa Senhora da Guia foi encontrada num poço cheio de água. Mas, para espanto de todos, permanecia totalmente seca e sem o mínimo de desgaste provocado pela água. A partir desse dia os populares começaram a suplicar à Virgem, sempre que surgiam cheias, tempestades ou simplesmente navegavam no rio, pois acreditavam que a Santa os guiava nessas penosas ocasiões, tornando-se a padroeira dos pescadores.

Com a capela perto do Tejo, cada vez que os pescadores passavam por lá tiravam o barrete, que punham ao ombro, e rezavam à santa protetora:

“Nossa Senhora da Guia
Que estais ao pé do Tejo
Todas as vezes que lá passo
Tiro o meu barrete e rezo”

Ainda hoje muitas pessoas da região ao passarem por aquele santuário pedem à Senhora da Guia que os guie no caminho da salvação. Mas a “salvação” por estes dias ganha uma forma mais terrena e obriga os fieis a ficar em isolamento na esperança de escapar ao novo coronavírus.

Romaria a Nossa Senhora da Guia, Alvega. Créditos: DR

A capela de Nossa Senhora da Guia, situada então na margem sul do Tejo, numa pequena elevação, foi provavelmente erigida em 1926, por Lourenço Godinho e sua mulher Isabel Freire. Deixaram o brasão da família na frente da capela e a sua romaria, talvez a mais antiga do concelho de Abrantes, era frequentada essencialmente por pescadores.

Este pequeno mas belo exemplar maneirista, pintado de branco, azul e amarelo, possui uma planta circular com cobertura em domo. Presentemente detém uma pequena sineira, uma fachada com portal de verga reta, findada por frontão interrompido com as armas da família Godinho, ladeada e encimada por cornija e pináculos.

No interior sobre uma mesa singela ornada por azulejos, ergue-se um altar policromado, com uma réplica da Nossa Senhora da Guia, acompanhada pelas imagens de Sta. Teresinha e S. José.

Este raro monumento da arquitetura portuguesa, que pertence à diocese de Portalegre e Castelo Branco, primitivamente disponha ainda de um alpendre suportado por um conjunto de colunatas e um gradeamento de ferro, com lanternim e catavento.

Sobre o portão exterior consegue ver-se o tal brasão da família Godinho, e dos lados dois cruzeiros. Do lado direito encontra-se um púlpito exterior e do lado esquerda uma lápide onde se lê: “Esta Ermida de Nossa Senhora da Guia Mandarao Fazer L C Godinho E Sua Molher Isabel Freire A Sua Custa Pª Eles E Seus Susesores Acabouse Na Era De 1626 Anos”.

Esta devoção é de certeza bem mais antiga, pois está intimamente associada aos perigos decorrentes da travessia do rio Tejo. A Virgem delicadamente esculpida, surge representada com o menino sobre o braço esquerdo, e ambos possuem mãos em marfim.

Atualmente, esta imagem de grande devoção, encontra-se na Igreja Paroquial de Alvega, onde prossegue o seu culto, finda a romaria anual que inclui, além da celebração de uma missa, um enorme piquenique nos terrenos circundantes, junto ao rio Tejo, onde a comunidade alveguense se reúne, confraterniza e partilha petiscos e bebidas que estreitam laços e confortam a alma.

Romaria a Nossa Senhora da Guia, Alvega. Créditos: DR

Recorda-se que o santuário de Nossa Senhora da Guia está incluído na “Rota das 7 irmãs” proposta pelos municípios de Abrantes e Sardoal.

“A espiritualidade e a religiosidade do povo português está profundamente enraizada e manifesta de modo singular a devoção e um culto ligado ao amor filial para com a Virgem Nossa Senhora” considera o padre Francisco Valente, na descrição do folheto de turismo religioso “Rota das 7 irmãs”.

Sendo certo que, das expressões mais complexas e eruditas às mais simples e populares, os sinais marianos fazem parte das vivências pessoais particulares, eclesiais e comunitários.

As “sete irmãs” como o povo, carinhosamente, as denominou, já que se relacionavam visual ou aditivamente no tanger dos seus sinos, implantam-se na área territorial da região norte do concelho de Abrantes e do Sardoal, espaço relativamente reduzido para número tão significativo de edificações.

“As fundações, baseadas em lendas, acontecimentos prodigiosos e milagres, ou em factos históricos e culturais, revelam a piedade e religiosidade dos fundadores ou das populações em busca de uma ligação materna e profunda aos ciclos da vida, num formulário cristão; manifestam-se nas romarias, pagamento de promessas ou rituais litúrgicos da celebração da fé, e também como fator de resistência, afirmação da identidade cultural nacional contra invasores, em ações restauracionistas” acrescenta o padre.

A Rota começa no Souto na Capela de Nossa Senhora do Tojo, segue para São Vicente (Abrantes) onde está a Capela da Nossa Senhora da Luz, depois Alferrarede com a Ermida da Nossa Senhora das Necessidades, seguindo para Valhascos para a Capela da Nossa Senhora da Graça, e depois Sardoal e a Capela da Nossa Senhora da Lapa, depois Mouriscas onde se situa a Capela da Nossa Senhora dos Matos e por fim Alvega e a Capela de Nossa Senhora da Guia.

Imagem de Nossa Senhora da Guia, Alvega. Créditos: DR

 

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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