- Publicidade -

Quarta-feira, Dezembro 8, 2021
- Publicidade -

Poluição no Tejo é tema de documentário “de pendor militante” em defesa do rio (C/VÍDEO)

Chama-se ‘SOS Tejo’ e estreou em setembro na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes. O filme aborda a sustentabilidade ambiental do rio, reconhecido em 2016 como Reserva da Biosfera pela UNESCO, colocando a questão: “Haverá capacidade para inverter o curso da poluição e da má gestão dos caudais de forma a salvar o maior rio ibérico de uma morte que hoje parece quase certa”?

- Publicidade -

Espuma, água suja, peixes mortos, gente em protesto, pescadores revoltados, as imagens falam por si. E a elas juntaram-se as vozes de ambientalistas, deputados, criadores de gado, empresários da restauração e autarcas na revelação de como têm sido os últimos anos do Tejo, o maior rio português, no documentário que no dia 20 de setembro estreou na ESTA – Escola Superior de Tecnologia de Abrantes – numa partilha com o público do trabalho desenvolvido ao longo de quase um ano que resultou na coprodução da ESTA (IPT – Instituto Politécnico de Tomar) e jornal mediotejo.net.

A equipa de produção e realização. da esquerda para a direita: Tiago Fábrica, Adriana Reis, João Luz, Patrícia Fonseca e Alexandre Carrança

- Publicidade -

Ambientalistas do movimento ProTejo, como Armindo Silveira e Arlindo Consolado Marques, autarcas como António Severino, vice-presidente da Câmara Municipal de Gavião ou Fernando Freire, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, ou ainda deputados da Nação como Carlos Matias de Bloco de Esquerda ou Manuel Frexes do Partido Social Democrata e vice-presidente da Comissão do Ambiente da Assembleia da República questionam e explicam no documentário a problemática da poluição do rio Tejo, dando conta das fontes poluidoras há muito identificadas.

Arlindo Consolado Marques e Armindo Silveira do movimento ProTejo estiveram presentes na estreia do documentário ‘SOS Tejo’

“Foram meses de trabalho onde nos focámos na poluição de um dos mais importantes recursos hídricos que existem no País” explicou o coordenador do projeto, João Luz. E acrescenta: “Este filme apesar de ser feito em parceria com um órgão de comunicação social, e isso obriga-nos a um certo olhar imparcial, há uma certa militância e um certo ativismo no conteúdo deste documentário”. Isto porque a equipa entende ser “inevitável” a dedicação à defesa do património rio Tejo “bastante ameaçado”.

Antes da transmissão do filme, João Luz explicou que no ‘SOS Tejo’ foi realizada tendo em conta “uma certa tradição histórica do documentário de pendor militante” recordando um pouco a sua história desde a década de 1930.

“Se pudermos utilizar o cinema e o documentário para defender pontos de vista que se possam constituir como causas defensáveis e que mereçam a atenção de todos é isso que faremos”, garante.

João Luz assume a posição do filme como “contra as ações poluidoras”. Crê estarem a “atuar ao nível da perceção” do espetador de como “não deveria ser normal” a poluição. Se conseguir “moldar a perceção dessa normalidade está a cumprir o seu objetivo”, diz.

O documentário ‘SOS Tejo’ “acaba por ser um contraponto de um discurso de vários agentes económicos, empresas e eventualmente de alguns elementos do Governo considerando os parâmetros de poluição dentro da normalidade. É permitido poluir”, o que faz deste filme “um confronto de narrativas”.

Em 27 minutos, o documentário mistura entrevistas de responsáveis com imagens de focos de poluição, a segunda manifestação organizada pelo ProTejo em março, em Vila Velha de Rodão, do trabalho ativista de Arlindo Consolado Marques como guardião do Tejo, bem como da voz contestatária de Armindo Silveira em defesa do maior rio da Península Ibérica. Além de toda a revolta da comunidade piscatória e dos empresários da restauração cuja oferta é o peixe do rio, os autarcas dão a cara pela defesa de um património que é de todos mas que representa para os seus concelhos um ativo de extrema importância a nível turístico, com elevados investimentos municipais.

Coordenado por João Luz, do IPT, e por Mário Rui Fonseca e Patrícia Fonseca, do mediotejo.net, a última igualmente responsável pela locução, ‘SOS Tejo’ acaba por contar a parte negra de uma história de clara conivência entre o poder político e económico, assustadora e de indiferença de quem tem responsabilidades políticas, de estupefação de toda uma comunidade atenta aos problemas ambientais pela impunidade dos agentes poluidores e de morte anunciando o que poderá ser o futuro a curto prazo do rio Tejo.

O documentário foi apresentado no Auditório da ESTA, em Abrantes

E a indiferença pela perda de biodiversidade no Tejo causada pela atividade humana não passa apenas por quem tem responsabilidades públicas e políticas, a constatar pela pouca afluência de público na estreia do documentário no Auditório da ESTA.

Apesar disso, “há uma intenção e uma vontade da Escola se voltar para o exterior e estabelecer parcerias com entidades da região de maneira a realizar trabalhos colaborativos” que se traduzam nas mais variadas formas, indica João Luz, avançando que o resultado desta parceria e “deste primeiro teste é bastante satisfatório”.

Por seu lado, Alexandre Carrança destacou a importância dos “alunos interagirem com a comunidade local, ganharem experiência” mas também “abrirem portas, prepararem o mercado de trabalho”. Este tipo de iniciativa funciona como “laboratório aberto à comunidade, e projetos comuns potenciam a própria empregabilidade dos alunos”. A ideia passou muito por “dar voz a quem não a tem”.

As filmagens têm meses, algumas revelam situações que aconteceram há mais de um ano mas ainda assim o documentário permanece atual. “Estou aqui hoje mas acabei de vir do rio e nada mudou. A poluição continua”, garantiu Arlindo Consolado Marques presente na estreia do ‘SOS Tejo’.

Agarrar num tema “quente” como a poluição do rio Tejo foi para Alexandre “um bocadinho assustador”, até porque estavam conscientes “da existência de interesses contrários” a que o documentário fosse realizado. Revela que gostariam de ter “feito o contraditório”, impossibilidade que derivou “da gestão dos recursos” e de “circunstâncias de produção”.

Em termos de tempo e de oportunidade “o acontecimento pode ganhar outros contornos e num filme, que tem um certo carácter de urgência, se não o concluímos  torna-se anacrónico” visto pelo público como algo que já aconteceu.

Além disso, confrontando as entidades apontadas como poluidoras era esperado “uma narrativa que já conhecemos, é pública: os poluidores negam”, por outro lado “desgastam o argumento de que criam emprego e riqueza” acrescentou João Luz, sem que esteja quantificado “o prejuízo que causa, a nível de toda a economia do rio que decorre deste ecossistema”.

A viver em Abrantes, Adriana Reis e Tiago Fábrica “não tinham noção” da poluição do rio até iniciarem as entrevistas. Ambos, em conjunto com Alexandre Carrança, licenciados em Vídeo e Cinema Documental, asseguraram as gravações e a edição de “uma causa que nos tocava”.

Agora o documentário parte para o mundo. Os circuitos de distribuição cinematográfica tem vários canais e “o que estará mais acessível são as plataformas online de distribuição de conteúdos como o YouTube” aberta, de conteúdo livre, o ficheiro pode ser descarregado e visualizado em casa, nas escolas ou em qualquer outro espaço, dá conta João Luz.

Outro canal de distribuição pensado pela equipa de realização e produção são os festivais, existindo alguns focados em temais ambientais, como o português CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela – realizado anualmente em Seia.

Dia 14 de outubro o Movimento pelo Tejo – ProTejo realiza a terceira manifestação em defesa do rio. Desta feita em Lisboa.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome