Abrantes | Plano Nacional das Artes com balanço “altamente motivador” no Agrupamento de Escolas nº 2 apesar da pandemia

I Encontro de Orquestras - 7 de março de 2020 Orquestra Sinfónica do Liceu. Créditos: ESMF

O Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes é uma das escolas piloto do Plano Nacional das Artes (PNA), projeto desencadeado em junho de 2019 e que levou escolas de Norte a Sul do País a executarem projetos culturais tendo em conta a diversidade sociocultural, patrimonial e artística do território onde se inserem. Em Abrantes, o Projeto Cultural da Escola está a ser trabalhado contendo várias atividades para desenvolver ao longo do ano letivo, tendo sido desenhado na sua estratégia com apresentações agendadas para o terceiro período e que, devido à pandemia de covid-19, não tiveram lugar. O diretor Alcino Hermínio e a coordenadora do PNA, Maria José Nunes, falaram com o mediotejo.net sobre o trabalho desenvolvido, indicando que as atividades não realizadas serão transferidas para o próximo ano letivo, fazendo um balanço “altamente motivador” do programa e do trabalho desenvolvido.

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Neste ano piloto do PNA, o Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes delineou a temática, o propósito e o caminho cultural que quer seguir, trabalhando o Projeto Cultural da Escola que “ainda não está definido”, explica a coordenadora, Maria José Nunes, professora responsável por desenhar o programa cultural adaptado ao contexto, em parceria com as autarquias, as estruturas artísticas, as associações culturais e outras, a comunidade educativa e a comunidade em geral. Várias eram as atividades previstas, mas a pandemia de covid-19 interrompeu as apresentações.

O Agrupamento nº 2 há anos que no seu projeto educativo “dava especial atenção às formas de expressão artística e foram surgindo várias iniciativas na história da escola que conduziram depois à criação do Curso Básico de Música, Curso Secundário de Música, Curso de Artes do Espetáculo e de Interpretação – que a partir do próximo ano passa a ser Curso Profissional de Interprete/Ator/Atriz – e Curso de Dança”, refere o diretor Alcino Hermínio, dando conta de outras atividades realizadas ao longo do ano, nomeadamente concursos realizados pela Associação de Pais, “oportunidades para os alunos mostrarem as suas habilidades musicais, de dança ou de declamação de poesia”.

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Ou seja, “quando o Ministério da Educação lançou este desafio percebemos que tinha a ver com o nosso ADN” uma vez que a escola “tem uma tradição musical”, manifestando interesse em ser uma escola piloto “dando continuidade à nossa história conseguindo chegar a todos os alunos do Agrupamento. A ambição é aprofundar a nossa maneira de trabalhar e mudar a maneira como a escola é vista e sentida pelos alunos, professores e pais. Este PNA é algo que fica para o futuro mesmo quando já não existir formalmente no papel”, afirma o professor.

A meio do caminho “fomos apanhados pela pandemia e a partir do final do segundo período não conseguimos realizar nenhuma das atividades que pensámos realizar que seriam mais visíveis, em termos de impacto público”, explica o diretor. Isto porque outro dos objetivos do PNA passa por “aumentar a ligação da escola à comunidade e levar ainda mais para fora o trabalho que a escola faz no campo das Artes, tal como já fazemos aqui. As atividades com mais impacto estavam pensadas para este final de ano e para o próximo ano letivo”. Atividades que serão por isso recalendarizadas.

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A coordenadora do Plano Nacional das Artes no Agrupamento de Escolas nº2 de Abrantes, Maria José Nunes, e o diretor do Agrupamento, Alcino Hermínio. Créditos. mediotejo.net

Desenvolvido pelas duas áreas governativas, da Cultura e da Educação, o Plano Nacional das Artes apresenta como estratégia de 2019 a 2024, “tornar a arte mais acessível aos cidadãos, sobretudo, às crianças e jovens, através da escola, promovendo a participação, fruição e criação cultural, numa lógica de inclusão e aprendizagem ao longo da vida”, segundo um comunicado enviado à imprensa.

“O objetivo é aumentar a presença da preocupação com a Cultura e das atividades culturais nas escolas, dar um maior peso à Cultura, às diversas formas de expressão artística nas escolas, maior realização […] sobretudo porque nos últimos anos tem-se dado muita atenção, e bem, à Ciência, à preparação dos alunos para a integração no meio laboral, nas empresas, com o incentivo ao ensino profissional”, explica Alcino Hermínio.

Para cumprir os objetivos, o PNA é desenvolvido em parceria com a administração local, entidades privadas e sociedade civil, assumindo como missão dar um lugar central às artes e ao património, na formação ao longo da vida.

“Há a preocupação de aproveitar todas as sinergias possíveis no território. O objetivo é localmente, regionalmente e também ao nível nacional, pôr estes dois mundos e as várias entidades a trabalharem em concreto e a construírem projetos em conjunto com as escolas”, acrescenta o diretor.

O objetivo passa também por responder à necessidade de conjugar iniciativas já existentes como a Rede de Bibliotecas Escolares, o Plano Nacional de Cinema, o Programa de Educação Estética e Artística, o Plano Nacional de Leitura (PNL2027), e a Rede Portuguesa de Museus, entre outros programas.

Sendo que na Comissão Consultiva do Projeto Cultural de Escola “estarão elementos da escola, associações, associação de estudantes e alguns dos parceiros como a Galeria Municipal da Arte, a Câmara Municipal de Abrantes, a Associação Palha de Abrantes, a Escola Superior de Educação de Santarém, a Escola Superior de Tecnologia de Abrantes”, ou seja, parceiros a “contactar” no sentido de “integrar a Comissão Consultiva”, e a partir daí “tentar fazer atividades que não se realizam apenas na escola mas com projeção fora da escola”, dá conta Maria José Nunes.

Concerto de Natal na Escola Dr. Manuel Fernandes. Créditos: ESMF

Segundo a coordenadora do PNA no Agrupamento de Abrantes, o Plano “pretende capacitar os alunos de competências que sejam úteis para a sua vida futura. Pretende também garantir o cumprimento dos direitos condicionais à Educação e à Cultura e capacitar de uma sensibilização estática e artística. Dotar o aluno de uma competência de comunicação”.

A professora refere algumas atividades realizadas durante este ano letivo, antes da pandemia, designadamente as ações de guerrilha cultural. Começaram por declamar poesia.

“Alunos do 12º ano foram a turmas do 5º ano declamar poesia, e os miúdos gostaram imenso”, garante a professora. E o gratificação foi tal que também três alunos do 5º ano quiseram declamar poesia para os alunos do 12º ano. Os alunos declamaram “Cartas de Amor”, de Álvaro de Campos, e  “As Fadas”, de Antero de Quental.

Alcino Hermínio explica que na escola, com quatro cursos de expressão artística e experiência na música, dança e teatro, os professores estavam “com dificuldades em levar estas formas de expressão artística a todos os outros alunos” fora das Artes “mas que também são alunos da escola e têm o direito de usufruir da música, da dança e do teatro”. Ou seja, estas ações de guerrilha representam formas de “pôr alunos que não são da música, da dança ou de teatro a lidar com a Cultura”.

Das ações de guerrilha participaram também os quatro alunos do curso de música, de violino, “que de repente entravam nas salas e tocavam pequenas peças de violino no meio de uma aula de português ou de matemática”, recorda o diretor.

Para Maria José Nunes são ações “simples mas eficazes”. Que resultam não só para comunidade mas também para o interveniente. “Funciona como valorização pessoal e leva os alunos a tomar gosto pela escola”.

Por seu lado, Alcino Hermínio acrescenta que a Cultura também contribui “para tornar a escola mais humana, uma escola de afetos. Coisas simples do dia a dia, numa escola onde a Cultura seja vivida como uma coisa natural. Já fazíamos ao longo do mês alguns pequenos espetáculos à hora de almoço na biblioteca”.

Entre outras atividades, a escola realizou concertos e audições de Natal, espetáculos na cerimónia de entrega de diplomas de mérito e no dia 7 de março foi realizado o primeiro Encontro de Orquestras que contou com a Orquestra Sinfónica do Liceu, a Orquestra de Cordas da Escola de Dança e Música do Fundão e com a Orquestra de Sopros da Orearte de Ourém, num total de 110 jovens músicos, alunos do ensino básico e secundário.

Ação de guerrilha, música, na Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes. Créditos: ESMF

Mas existe outro tipo de atividade, “que envolve mais recursos, mais ousada que que também faz parte dos objetivos do PNA. Uma está em preparação para o próximo ano e passa pelo artista residente”, indica Alcino Hermínio.

O Plano Artista Residente promove a deslocação e contacto regular do artista com a escola, de modo a introduzir processos e práticas artísticas no currículo. Significando que o Agrupamento pode receber um artista nacional ou local nas suas instalações, durante 6 meses. Durante esse período do ano letivo, além de ter um ateliê na escola, o artista terá a responsabilidade de apoiar a comunidade educativa, introduzindo mais processos e práticas artísticas.

“Pensámos que esse artista residente deveria ser um coreógrafo” num programa articulado com a Comissão Nacional que implica financiamento. “A nossa ideia era envolver os alunos dos cursos de expressão artística e também alunos fora desses cursos e fazer um espetáculo musical” envolvendo a comunidade, designadamente os utentes da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, refere a coordenadora. Os professores consideram “muito interessantes” os encontros intergeracionais.

Entre as atividades previstas destaque para a ‘Música nas Aldeias’, uma viagem de alunos do curso básico de música a, pelo menos, quatro aldeias do concelho de Abrantes. E também para ‘Pinturas Vivas’, a recriação de cerca de 12 quadros, que decorrerá na zona exterior da escola com alunos, pais e utentes do lar da Santa Casa da Misericórdia. Paralelamente, durante o segundo período, “as turmas do 9º ano fizeram uma reinterpretação desses mesmos quadros, com pintura, colagens ou mesmo usando materiais recicláveis” que originará uma exposição no próximo ano letivo.

Apesar da pandemia, e do “processo” de trabalho interrompido, o balanço “é altamente motivador”, assegura Alcino Hermíno.

A estratégia do Plano Nacional das Artes foi apresentada em junho de 2019 por Paulo Pires do Vale, comissário da estrutura de missão para elaborar e coordenar o plano.

Aquando da apresentação, em declarações à agência Lusa, a ministra da Cultura, Graça Fonseca destacou: “Com o Plano Nacional das Artes, as escolas vão ter um projeto cultural desenhado à sua medida e as artes terão um papel preponderante nos recursos pedagógicos disponíveis para a comunidade educativa”.

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