Abrantes | Palestra sobre Gorongosa enche salão paroquial no Rossio

Vasco Galante, diretor de Comunicação do Parque Nacional da Gorongosa durante a apresentação 'Tesouro do Mundo' em Rossio ao Sul do Tejo

O Parque Nacional da Gorongosa sendo um dos locais de maior biodiversidade do Planeta, esteve perto da morte. Durante o período de guerra em Moçambique, após a independência, registou-se uma perda significativa das populações das diversas espécies de animais. Mas há uma história de renascimento iniciada em finais dos anos 1990 quando se encetaram os primeiros esforços para restaurar o Parque.

Foi sobre essa essa missão conjunta, os desafios, de homens e mulheres que trabalham diariamente para dar uma nova vida ao Parque que a palestra organizada pela Associação Rossio Con Vida, trouxe esta terça-feira, 27 de fevereiro, Vasco Galante à comunidade abrantina.

O director de Comunicação do Parque Nacional da Gorongosa, Vasco Galante, com raízes em Abrantes e convidado da Associação, apresentou o ‘Tesouro do Mundo’, contou histórias sobre a recuperação das infraestruturas, da restauração da fauna e flora bravias e do desenvolvimento das comunidades locais.

Entre o público alguém pergunta a Vasco Galante: “o que quer dizer Gorongosa?”. Depois de aportuguesada, a palavra em sena, um dos 23 dialetos falados em Moçambique para além da língua portuguesa como oficial, significa “há morte na serra”. E de facto ocorreu um extermínio dos animais do Parque Nacional da Gorongosa. O diretor de Comunicação do Parque conta essa história de guerra de quando em 2005 chegou à Gorongosa e ficou “decepcionado” com a destruição e morte de 99% da fauna bravia, levando mesmo à extinção de certas espécies. Desde então promove, não só a criação de consciência local em relação ao Parque mas também internacional.

O Parque Nacional da Gorongosa foi oficialmente criado em 1960 sendo um dos locais de maior biodiversidade do Planeta. Durante o período da guerra após a independência registou-se uma perda significativa das populações das diversas espécies de animais. Em finais dos anos 1990 encetaram-se os primeiros esforços para restaurar o Parque, mas só com a assinatura em 2004 do MOU (sigla em inglês de Memorandum of Understanding, ou seja um memorando de entendimento) entre o Governo e a Carr Foundation e, posteriormente, em 2008 com a concessão por 20 anos renováveis da gestão conjunta do Parque pelo governo moçambicano e o “Gorongosa Restoration Project” foi possível relançar de forma definitiva o processo de reabilitação do Parque.

Em 2016 foi publicado no Boletim da República de Moçambique o despacho de aprovação do Plano de Maneio do Parque para o período 2016-20 e o governo de Moçambique aprovou a extensão por mais 25 anos do contrato de gestão conjunta do Parque Nacional da Gorongosa. E os resultados foram, esta terça-feira, apresentados à comunidade abrantina no salão paroquial do Rossio ao Sul do Tejo cheio de gente interessada na palestra organizada pela Associação Rossio Con Vida – Associação para a Coesão e Desenvolvimento.

Vasco Galante mostrou filmes e fotografias onde se pode ver a constituição de uma força de fiscalização de cerca de 230 fiscais preparados e equipados para proteção do Parque e seus recursos. Aliás, o salão paroquial foi mesmo a sala de estreia mundial de um filme a ser apresentado pelo Parque Nacional da Gorongosa apenas em junho, sobre os fiscais  que percorrem o Parque na proteção das espécies, nomeadamente de caçadores furtivos, onde pela primeira vez as mulheres puderam concorrer à função.

José Rafael Nascimento, secretário da Associação Rossio Con Vida e Vasco Galante

Falou-se da reintrodução de animais de diversas espécies e do crescimento das diversas populações animais; da construção de um santuário destinado à receção de animais reintroduzidos com vista ao seu controlo sanitário e crescimento dos efetivos e posterior introdução no Parque; do reinício da atividade turística com a reabilitação da infraestrutura hoteleira e a realização de safaris fotográficos com a participação do sector privado; da reabilitação e construção de escolas e clínicas e o apoio à prestação de serviços de saúde e educação às comunidades circunvizinhas; da construção de um Centro de Educação Comunitária onde se desenvolvem ações de formação e educação ambiental.

Foi ainda abordada a inclusão no Parque da Serra da Gorongosa onde se iniciou um programa de criação de viveiros de plantas indígenas e a plantação de milhares de árvores na Serra com a participação das comunidades, bem como o apoio e assistência às comunidades na produção agrícola nas áreas vocacionadas para tal; do desenvolvimento de programas de investigação da biodiversidade, incluindo a identificação de novas espécies e monitoramento dos ecossistemas e populações faunísticas; da construção de um Laboratório de Biodiversidade vocacionado para a investigação científica e formação de investigadores; da criação de mais de 600 postos de trabalho e realização de programas de formação e educação de nível médio e superior, dentro e fora do país, de técnicos e investigadores nacionais ligados ao Projeto de restauração do Parque; e ainda da constituição duma experiente equipa de gestão do Parque com a participação crescente de gestores e técnicos nacionais.

Estes resultados só foram possíveis “devido aos recursos financeiros alocados para o efeito e que se aproximam hoje dos 8 milhões de dólares ao ano, sendo de destacar as contribuições da Fundação “Gorongosa Project” e do governo dos Estados Unidos através da USAID e, ainda, da atividade turística e de algumas organizações privadas”, explicou ao mediotejo.net Vasco Galante.

Fotografia de uma das milhares de minas deixadas pela guerra no Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique

Acrescentou que o Parque continua “a mobilizar recursos adicionais para ampliar o âmbito das atividades do Projeto, com vista a atingirem-se plenamente os seus objetivos. Neste contexto, o Parque pretende encorajar e envolver a comunidade empresarial moçambicana neste nobre esforço de restaurar um dos Parques mais emblemáticos em África e no mundo”.

Gregory Carr, o filantropo da Carr Foundation que protocolizou com o governo de Moçambique, através do Ministério do Turismo, o memorando de entendimento criando um quadro legal de atuação para a Carr Foundation, “já gastou 60 milhões de dólares do seu bolso neste anos, e quando acabar a concessão fica tudo para o Estado Moçambicano”, explica Vasco. Em 2008, foi produzido um extenso documento definido como um Acordo de Longo Prazo, onde estão explicitadas as modalidades e regras a seguir na Gestão Administrativa do Parque inicialmente para 20 anos, e mais recentemente para 25.

Vasco Galante, um português que cresceu em Abrantes, confessa sentir-se em casa na Gorongosa, mostrou em pouco mais de uma hora a missão do projeto de restauração e proteção da biodiversidade e dos processos naturais do Parque Nacional e da sua zona tampão.

A pretensão de contribuir para o desenvolvimento humano e a atenuação da pobreza através de uma abordagem integrada da educação, o acesso melhorado aos serviços de saúde, a melhoria das práticas agrícolas e desenvolvimento do ecoturismo com base, na restauração da biodiversidade e dos processos ecológicos. Ação e vontade de promover o bem estar animal e humano de uma comunidade que praticamente nada tinha, que a Associação Rossio Con Vida espera ser inspiradora para a ação de desenvolvimento do Rossio, no concelho de Abrantes.

No final da sessão, seguiu-se um período dedicado às questões do público, com vários abrantinos que estiveram em Moçambique no tempo em que o país era uma colónia portuguesa, nomeadamente durante a Guerra do Ultramar, a colocar questões, interessados nas diferenças entre o passado e o presente.

Vasco Galante trouxe até ao Rossio o que descobriu em África: “o melhor de nós. Quando estamos em África e temos oportunidade de ver paisagens fantásticas e conviver com pessoas que nos acolhem com sincera amizade” convidando os presentes a visitar Moçambique e a Gorongosa, no sentido de comprovar o que foi apresentado.

António José Morgado, presidente da direção da Associação Rossio Con Vida

A sessão iniciou-se com a intervenção do presidente da direção da Associação Rossio Con Vida, António José Morgado, que explicou ser esta palestra a primeira de um ciclo de conferências que a Associação tem planeado para 2018.

A Associação Rossio Con Vida surgiu “de uma ideia envolvendo um edifício que está em ruínas em Rossio, na estrada que vai para o Pego, e tem na sua traseira um enorme terreno. O objetivo era lançar um projeto de demolição do edifício e transformar o espaço numa Praça Pública no interior da povoação onde as pessoas possam interagir umas com as outras”, explicou o presidente. Um projeto concorrente ao Orçamento Participativo que não foi apoiado em 2017.

Do empenho de levar, ainda assim, o projeto em frente nasceu em dezembro do ano passado a Associação Rossio Con Vida – Associação para a Coesão e Desenvolvimento, com uma visão que passa por transformar aquela localidade do concelho de Abrantes em “um espaço cosmopolita, de qualidade e prestigiado, fervilhando de pessoas e atividades, onde apeteça estar, consumir e realizar”, recorda. Sendo a missão de apoio na promoção “da coesão e o desenvolvimento do Rossio, valorizando-o nas suas vertentes humana, inteligente e criativa”.

António José Morgado aproveitou o momento para lançar a ideia de “fomentar e dinamizar o mercado ribeirinho. Algo que já aconteceu em tempos e que acabou” referiu. “Um pólo que seja capaz de cativar público externo”, acrescentando, que sendo o objeto da Associação “muito alargado”, dividiram o objeto social por comissões de trabalho com “uma comissão criada para o urbanismo e demografia, outra para cultura e lazer, economia e turismo, missão social e ambiental, formação e emprego, comunicação e cooperação”.

Palestra no Rossio onde foi apresentado o Parque Nacional da Gorongosa – Tesouro do Mundo

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