Abrantes | Orlando Dias Agudo: 50 anos depois, um bom jornalista continua a ser “o retrato do acontecimento”

Aos 82 anos, Orlando Dias Agudo pode orgulhar-se de ter uma longa e notável carreira jornalística. Em 50 anos de profissão, o jornalista mourisquense (Abrantes) conheceu “muitos aeroportos, hotéis e estádios de futebol”, diversas personalidades do desporto à política, da vida universitária à vida artística. Viveu o 25 de Abril a enviar para o Diário de Lisboa o programa do MFA por telex. Frontal e sem papas na língua diz não dar importância aos políticos e critica a forma “errada” como hoje se faz jornalismo. Durante décadas a trabalhar na televisão pública, aponta o pior e o melhor jornalista português de TV. E na sua vida profissional, a figura que mais gostou de conhecer diz ter sido Eusébio da Silva Ferreira, essencialmente pela sua “simplicidade”.

Nesta era das ‘fake news’ em que os jornalistas lutam pela sobrevivência da profissão, escutamos com maior admiração alguém que trabalhou como jornalista na época de ouro da rádio, quando a “telefonia” desempenhava um papel relevante na transmissão da informação, e nos primeiros anos da televisão em Portugal, ainda com a “caixa” a preto e branco e um único canal. A história deixa vislumbrar a difícil vida de um repórter numa época de ditadura, em que não existiam computadores nas redações, sem Internet, sem telemóveis, onde os profissionais valiam pela sua ampla cultura geral, pela isenção e porque eram o espelho do acontecimento.

Orlando Dias Agudo está aposentado mas continua a ser uma figura autorizada em matéria de jornalismo. Permaneceu na RTP até se reformar aos 65 anos, em 2001. Após 50 anos entre redações, reportagens e relatos de futebol, fala em “desafios constantes” ao longo da carreira, exceto nos últimos anos.

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“Começaram a aparecer aquelas pessoas pseudo-jornalistas que escrevem” livros, disse ao mediotejo.net na sua casa, em Mouriscas, onde nos recebeu lembrando a sua antiguidade: “A minha carteira profissional era a 177”. Entretanto mudou de número, devido ao sistema de renovação da Comissão da Carteira.

Um bom jornalista “é o retrato do acontecimento”, diz. “Não põe nem sal nem pimenta. Tem de ser o espelho. Não pode nem deve comentar. Um jornalista que seja o espelho do acontecimento é um bom jornalista. Hoje já não há jornalistas!”

E conta um episódio sobre um camarada cujo nome guardou para si, recordando “um campeonato do mundo de futebol em que os jogadores espanhóis se zangaram com a federação e no campo não cantaram o hino… nem podiam cantar, porque o hino espanhol não tem letra”, diz.

E o tal jornalista, desconhecendo tal facto, “dizia que os espanhóis estavam tão zangados com a Federação que não quiseram cantar o hino. É preciso ter cultura geral, não se pode dizer asneiras”. Atualmente, ao ligar a televisão, vê que “está pejada de asneiras, sobretudo nos oráculos”, critica.

O jornalista Orlando Dias Agudo, na sua casa em Mouriscas, onde recebeu o jornal mediotejo.net para uma conversa. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A sua aventura como jornalista começou em Lisboa, tinha Orlando Dias Agudo 15 anos, no Liceu Dom João de Castro. “O meu professor de ginástica chama-se Orlando Serradas Duarte e era colaborador do jornal Record. Comecei por fazer uma entrevista ao professor. Como não tinha experiência nenhuma escrevi as perguntas num papel, deixei o espaço para as respostas, ele respondeu e pronto, estava a entrevista feita”, conta.

Naquele jornal desportivo deram-lhe a responsabilidade de uma coluna. Iniciou-se a fazer a cobertura das atividades desportivas da Mocidade Portuguesa. “Era mais andebol, voleibol, depois o diretor do jornal, o Monteiro Poças, convidou-me para fazer parte da redação e escrever outras coisas. A primeira grande reportagem que fiz foi um campeonato do mundo de vela em Cascais”, lembra.

Na verdade, começou muito cedo a usar o microfone, no início dos anos 50, em Mouriscas, nas festas de verão, onde atuaram “mais de 50 artistas desde a Maria de Lurdes Resende à Simone de Oliveira”. Orlando apresentava os artistas. Teria uns 16 anos.

Mouriscas é a sua terra natal, onde nasceu “no simpático ano de 1938”, a 16 de junho. Foram seus pais Leonel Dias Agudo, ferroviário, e Maria de Matos Roldão, doméstica. Casal que andou “sempre a saltitar” por via da profissão do pai, colocado em Santarém quando nasceu Orlando, o terceiro de quatro irmãos, todos rapazes.

O jornalista Orlando Dias Agudo, na sua casa em Mouriscas, onde recebeu o jornal mediotejo.net para uma conversa. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A facilidade na comunicação oral nasceu com ele. Fez a sua escola primária em Lisboa até à terceira classe, onde “não se aprendia nada” diz, indo depois estudar para o Colégio Infante de Sagres em Mouriscas, onde o “rigoroso” professor Matias Lopes Raposo o colocou no caminho do domínio da língua portuguesa. Com esse professor conhecido por todos por “bater nos alunos” fez a admissão ao liceu.

Admite que quando chegou a Mouriscas, no início do ano letivo, não era o melhor aluno. “Num ditado, o meu normal eram 40 a 45 erros. A partir de janeiro tinha zero. Não entendia o que o professor dizia, a dicção, e como queria despachar, escrevia o que julgava que ele dizia.”

Nesse ano, os alunos realizaram o exame de admissão ao liceu em Portalegre e o professor Raposo “deu-nos o exame de português que saiu no segundo ano do liceu. Eu fiz a redação. O professor chamou todos os alunos do segundo ano para lhes dar a minha redação que estava bem feita. Deve ter sido o apertar do gatilho. Tocou-me muito!”.

Apesar de uma vida urbana na capital, Orlando nunca esqueceu as raízes mourisquenses. “Sou de cá, os meus pais eram de cá, a minha mulher não é de cá mas é como se fosse. Tenho cá os meus amigos, reunimos aos fins-de-semana, vamos almoçar. Somos cerca de 20… corremos as tasquinhas todas”. Depois da perda de contacto, o reencontro, refere.

Gosta da ruralidade e já não tanto da cidade. Os netos prendem-no ao rebuliço e à agitação que dispensa. Tem dois filhos, um deles, Paulo Dias Agudo, segue as suas pegadas, sendo jornalista na SporTv. “Quando o levava para a televisão perguntavam: quem é aquele puto que anda ali com o Orlando. Hoje quando nos veem juntos perguntam: quem é aquele velhote que vai ali com o Paulo”, ri. A filha não se deixou prender pela paixão à informação e preferiu ser guia intérprete, trabalhando atualmente na TAP.

O jornalista Orlando Dias Agudo, na sua casa em Mouriscas, onde recebeu o jornal mediotejo.net para uma conversa. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Recorda que, no tempo em que passava horas agarrado ao microfone a relatar jogos, o futebol tinha menos tempo na televisão. “Só havia um canal e os jogos eram filmados em película, depois o filme tinha de ser revelado, depois era montado e quando se falhava um golo o nosso chefe tinha uma gaveta com golos já filmados para a substituição. Se o golo era por exemplo rasteiro ele dizia: ‘está aqui este golo rasteiro, mete este’. Eram grandes planos, só se via a bola a entrar”, explica.

Mesmo após o nascimento da RTP 2, o canal “não transmitia jogos em direto, embora transmitisse programas em direto”. Sobre o “excesso” de futebol na TV considera que “há público para tudo. E há anunciantes que pagam isso. Os comentadores é que são demais e facciosos, não são neutros”, considera.

Esta história começa então na adolescência, em Lisboa. O pai mudou de Alcântara Terra para Santa Apolónia e a família mudou de casa. “E eu mudei de liceu. Fui para o Gil Vicente. Recebi um convite para ir para o Rádio Clube Português”. Antes já Orlando andava pela Rádio Universidade “que era na Rua das Flores e depois passou para a Rua Dona Estefânia. Uma autêntica escola de rádio”.

Na Rádio Universidade teve como estagiário Carlos Cruz. “Sabia mais do que eu!” garante. A Rádio Universidade transmitia cerca de uma hora diária, aumentando o tempo de emissão ao fim de semana, na frequência do que é hoje a Antena 2 da RDP.

No Rádio Clube Português trabalhou como assistente de produção no programa de música ‘Talismã’, do Gilberto Cotta. Naquela época “os programas eram todos assim. Nem sequer podíamos fazer informação. A informação era da estação, um programa independente. Além dessa havia a ‘Onda do Otimismo'” animada pela voz de Artur Agostinho.

O jornalista Orlando Dias Agudo, na sua casa em Mouriscas, onde recebeu o jornal mediotejo.net para uma conversa. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Além do jornal Record, mais tarde viria a escrever também nos jornais O Século e A Bola e ainda numa revista do Rádio Clube e da Rádio Renascença chamada Nova Antena. Aquando da Revolução dos Cravos escrevia também para o Diário de Lisboa.

Assistiu ao 25 de Abril no Rádio Clube Português. “Estive de serviço nessa noite até às 02h00 e eles [Movimento das Forças Armadas] entraram às 03h00. Às 05h00 telefonaram-me do Diário de Lisboa para ir para a rádio porque os militares estavam a ditar para o Rádio Clube o programa das Forças Armadas. Estive lá, soube qual era o programa e ao mesmo tempo enviei por telex para a redação do jornal”, conta.

Em ditadura, ser jornalista “era um bocado mais difícil do que é hoje!”, recorda. Apesar dos programas desportivos não merecerem censura, “não podíamos meter o pé na argola… ou então metíamos mas disfarçado. O jornalista Carlos Pinhão, que depois da revolução se revelou do Partido Comunista, era especialista nisso. Tinha uma rubrica n’A Bola chamada ‘Entrevista Sem Entrevistado’, entrevistas inventadas por ele e que eram políticas, claro!”.

Entretanto, com a nacionalização do Rádio Clube, ainda permaneceu uns meses no programa 3 da RDP, mas a convite de Adriano Cerqueira embarcou na aventura televisiva, na RTP.

“Apresentei vários programas, os mais importantes para mim tinham 6 horas de duração. Começavam às duas da tarde e iam até às oito da noite, por exemplo ‘Estádio’. Fiz o ‘Domingo Desportivo’ juntamente com o Artur Agostinho, mas o programa mais giro que fiz em televisão tinha cinco minutos, a fechar a emissão, chamava-se ‘Remate’. Acabava sempre com uma espécie de piada, uma história singular em que brincava com as palavras”.

As mãos do jornalista Orlando Dias Agudo, na sua casa em Mouriscas, onde recebeu o jornal mediotejo.net para uma conversa. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Além do futebol, outra paixão era o hóquei patins, modalidade na qual contabiliza muitos relatos.

“Muitos Torneios de Montreux… Torneio das Nações.” Longos tempos a relatar que o obrigaram a puxar pela voz. Já depois da independência de Angola, num Torneio de Montreux está uma equipa daquele país africano, “a Rádio de Angola pediu para fazermos também os relatos da seleção de Angola. Houve um dia em que a seleção portuguesa jogou duas vezes e a de Angola também duas vezes. Fiz quatro relatos nessa noite. No hóquei patins nunca se pára, só nos intervalos. Demora uma hora e o jogo é muito rápido, a bola está sempre a sair de um jogador para outro. É mais giro mas mais difícil que o futebol, que é mais parado”.

A experiência como professor de jornalismo também não falta no seu currículo. No Instituto Português de Estudos Superiores diz ter cometido “a asneira de passar alguns”. Nunca chumbou ninguém. E ainda foi responsável por muitos estágios nos cursos de formação da RTP.

Ultrapassando fronteiras, na RTP Internacional e na RDP África trabalhou em “diversas reportagens fora do Desporto. Em Angola, Moçambique, Cabo Verde”. Visitou muitos países, mas acabou por conhecer mal os locais por onde viajou. “Bem… aeroportos, hotéis e estádios de futebol conheço muitos, países não”, emenda.

“Não havia tempo para conhecer os locais onde estava” fossem em Espanha, França, Alemanha, Holanda, Grécia, Argentina, México, Brasil ou nos Estados Unidos, devido aos longos dias de trabalho.

No terreno, fora da redação, o telex era a grande arma. “As reportagens eram enviadas por correio ou por telex, não havia outra maneira. Era uma fita que se perfurava e depois mandava o texto todo. Muito difícil de emendar, escrevia diretamente no telex, uma espécie de máquina de escrever”, lembra.

Na fotografia, durante uma prova “24 Horas de Le Mans, o rolo chegou a Portugal de avião, foi despachado. Tive de correr para o aeroporto de Orly para enviar o rolo por revelar para o Diário de Lisboa. Dizia em que voo é que ia o rolo e iam busca-lo ao aeroporto. Era caríssimo. Mas não havia outra solução!”, conta.

O jornalista Orlando Dias Agudo, na sua casa em Mouriscas, onde recebeu o jornal mediotejo.net para uma conversa. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Em 1964, no México permaneceu 15 dias por altura das Olimpíadas da Canção. “Tirava as fotografias, mandava revelar e enviava a película por correio. Demorava dois dias por correio. A chatice era descobrir uma casa que revelasse o rolo. Hoje manda-se por computador”.

Orlando Dias Agudo nasceu para ser jornalista. “Acho que não poderia ser mais nada. Não tenho ideia de querer ter outra profissão”. Destaca, destes 50 anos de jornalismo, o festival da canção em Atenas (Grécia) “até porque estava num ambiente que nunca imaginei poder conhecer, em pleno verão, no estádio olímpico. Também fiz o Festival Internacional da Canção no Rio de Janeiro, no Maracanãzinho, ao lado do Estádio do Maracanã. Juntamente com o Neves de Sousa para o Diário de Lisboa, uma grande figura e um grande professor”.

Sobre o trabalho que mais gostou de fazer indica uma reportagem para a RTP Internacional com emigrantes portugueses na Alemanha. “Desdobrada em quatro programas de uma hora cada um, talvez o mais completo. Deu-me muito trabalhinho no terreno e depois a montar. Tive de fazer quatro fios condutores”.

Orlando sempre gostou de ler e de escrever… até hoje. Continua a escrever, embora só para si. Publicar um livro? “Não! nem quero! O que mais aí há são livros que ninguém lê. Não tenho nada de importante para dizer às pessoas. Escrevo recordações, contos, mas guardo-os para mim.”

Ainda assim, certa vez escreveu um conto para um jornal na Suíça, cujo nome já não recorda, “um jornal de emigrantes”, e perguntou se alguém queria dar continuidade. “Ainda deram. Escrevemos uns 19 capítulos. Eu escrevia os ímpares e essa pessoa escrevia os pares. Escrevo até hoje… em vez de jogar às cartas sento-me ao computador e escrevo”.

Para Orlando, abraçar as novas tecnologias foi fácil. Afinal, “o computador é uma máquina de escrever”.

O jornalista Orlando Dias Agudo, na sua casa em Mouriscas, onde recebeu o jornal mediotejo.net para uma conversa. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Hoje nota “falta de formação” nos jornalistas. “Se calhar os cursos de jornalismo nas Universidades são de má qualidade, ou os formadores também são de má qualidade”, sugere.

No panorama nacional das noticias televisivas critica José Rodrigues dos Santos e aponta-o como “o pior jornalista” português. “Foi diretor de informação da RTP. Quando tirou o curso de jornalismo, mandou fazer uma reportagem ao seu exame para ser transmitida na RTP. Ele era o examinando e isso é auto publicidade. Interpreta as notícias, não as lê. É como se fosse um título de um jornal com diversos tipos de letra. Ao fazer essas interpretações está a comentar e um jornalista não deve comentar.”

No lado posto, encontra “o melhor”, Rodrigo Guedes de Carvalho, com quem trabalhou na RTP, “o mais isento”, opina.

Em 50 anos de mediatismo, conheceu muita gente de desportistas a artistas, de intelectuais a políticos. A estes últimos diz não dar importância. Entre todos, a figura eleita é Eusébio, com quem fez diversos programas. Essencialmente pela sua “simplicidade”.

*Entrevista publicada em dezembro de 2019, republicada em outubro de 2020

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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