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Sábado, Dezembro 4, 2021
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Abrantes | Oliveira do Mouchão intervencionada para rejuvenescer e viver mais 3.350 anos

A poda da árvore mais antiga de Portugal envolveu vários especialistas e, em cada corte, a oliveira foi “tratada” com um cicatrizante, para impedir a entrada de bactérias e fungos. O mediotejo.net acompanhou a delicada operação, em Cascalhos

A milenar oliveira do Mouchão, em Mouriscas, foi alvo de uma intervenção delicada na manhã desta quinta-feira, 6 de maio. Uma poda “cirúrgica”, realizada por alunos da EPDRA, segundo orientação do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, acompanhada pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas. O mediotejo.net esteve em Cascalhos a acompanhar toda a operação.

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Poucos e pequenos cortes, com o objetivo de retirar a rama seca e deixar entrar a luz do sol. Foi uma intervenção de tal forma cirúrgica e cuidadosa na copa que o amplo tronco da oliveira, com 3.350 anos, permanece à sombra. Este foi o método adotado pelo INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, seguindo as indicações de António Cordeiro, engenheiro do pólo de Elvas, e autorizado pelo ICNF – Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

Para acompanhar a intervenção na Oliveira do Mouchão esteve em Mouriscas Vasco Oliveira, da área das Florestas. “Qualquer intervenção em árvores de interesse público, classificadas, necessita de parecer favorável do ICNF. E nós pedimos o apoio técnico ao INIAV de forma a minimizar o impacto na árvore. Trata-se de uma poda pelos mínimos”, explica ao mediotejo.net.

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Os alunos da EPDRA realizaram a intervenção na oliveira milenar. Créditos: mediotejo.net

A Oliveira do Mouchão foi identificada em 2016 por investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) como a mais antiga em Portugal. Encontra-se no ranking do ICNF de Árvores Monumentais de Portugal, sendo um exemplar contemporâneo dos faraós do Egito.

Em teoria, esta árvore pode viver uma eternidade. “As oliveiras vivem alguns milénios e esta, com 3.350 anos, é uma árvore saudável em termos vegetativos. Gostaríamos que vivesse o dobro” e, com a manutenção adequada, “poderá viver mais uns milhares de anos”, garante Simão Pita, professor da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA).

A Oliveira do Mouchão, com 3.350 anos, foi identificada por investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) como a mais antiga em Portugal. Créditos: mediotejo.net

Nesta intervenção, em cada corte no tronco a oliveira foi “tratada” com um cicatrizante, para impedir a entrada de bactérias e fungos. No fundo, trata-se de ”ajudar no processo de cicatrização, para a árvore não gastar energias, embora as árvores tenham forma de cicatrizar os cortes naturalmente”, explica Simão Pita.

António Cordeiro, do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária, acompanhou os trabalhos na oliveira do Mouchão. Créditos: mediotejo.net

Os alunos do curso técnico de Agropecuária da EPDRA tiveram nesta quinta-feira, 6 de maio, o privilégio de realizar a poda de uma árvore milenar, seguindo escrupulosamente as indicações de quem sabe – neste caso, de António Cordeiro e de Simão Pita.

Os mestres lembravam a cada corte que o objetivo da intervenção passa pela “preservação e não pela produção” de azeitona. Embora a árvore, nesta altura do ano, já esteja enfeitada do pequeno fruto, indicador que 2021 será um bom ano de azeite (se nenhuma chuva fora do tempo o deitar por terra, comentam os especialistas). 

Para a poda da Oliveira do Mouchão foram utilizadas diversas ferramentas e a também uma pasta de proteção para enxertos e podas. Créditos: mediotejo.net

“É uma senhora árvore, com uma idade avançada, e precisa de alguns cuidados ‘paliativos’. Neste caso, estamos a remover os secos e desadensamos um bocadinho a copa. Uma poda muito cirúrgica, muito pontual, removendo sobretudo os secos. Com isso tentamos estimular a renovação da copa e estimular novos crescimentos. Assim, a árvore continua a dar-nos frutos e a dar-nos alegria pela sua imponência”, explica António Cordeiro.

Ou seja, em observação da copa da árvore, debaixo da sua sombra, percebe-se os ramos secos, e é feito um corte onde haja um predomínio desses ramos. “Não vamos criar uma copa uniforme, mas fazemos um desbaste e aligeiramos a copa, porque esses ramos já não tem folhas e fazem sombra dentro da copa. Ao mesmo tempo, favorecemos a renovação da copa, dando-lhe mais anos de vida. É algo que é necessário para que a planta continue a acrescentar. Em qualquer fruteira, se não fazemos poda não há renovação das raízes e novos crescimentos”, acrescenta.

A Junta de Freguesia de Mouriscas é a proprietária da Oliveira do Mouchão. Créditos: mediotejo.net

António Cordeiro diz ter “grande apreço” pela Oliveira do Mouchão por ser “uma espécie com imensa robusticidade e com imenso saber”, define.

Falamos de uma árvore, parte zambujeiro parte galega devido a enxerto, com seis metros e meio de altura e 3,2 metros desde as primeira pernadas, segundo deu conta Vasco Oliveira, e que não era intervencionada há cinco anos. As podas “deverão ser anuais”, diz. “A última intervenção foi em 2016”, referiu ao nosso jornal o presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas, Pedro Matos.

Intervenção na Oliveira do Mouchão em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Recorde-se que a Oliveira do Mouchão foi oficialmente doada à Junta de Freguesia pela sua proprietária, Ermelinda Marques, em 2019.

A Junta percebeu a necessidade da poda na oliveira milenar e pediu apoio. “Articulamos e cruzamos informação com as entidades que fazem esta intervenção e vimos que tinha muito secos no seu interior. Qualquer oliveira precisa dessa intervenção para poderem entrar os raios de sol e oxigénio, para poder arejar”, dizem. É uma intervenção algo morosa, explica Pedro Matos, dando conta que parte da intervenção é financeiramente suportada pela empresa Ourogal, sendo outra parte dos custos inerentes da responsabilidade da Junta.

Os alunos da EPDRA realizaram a intervenção na oliveira milenar. Créditos: mediotejo.net

A Junta de Freguesia de Mouriscas estabeleceu uma parceria com a Ourogal, com a Câmara Municipal de Abrantes e com a EPDRA para garantir a preservação da Oliveira do Mouchão. “A Câmara está a elaborar um livro que brevemente será lançado, a Junta mandou fazer uns ímanes com a imagem da oliveira, que estão à venda para poder publicitá-la, a empresa Ourogal está além fronteiras a publicitar a nossa oliveira e sei que a Câmara Municipal pediu a um artista para pintar a oliveira em azeite, já vi e está muito bonita!”, conta Pedro Matos, avançando algumas iniciativas que visam promover este “monumento vivo” que é património nacional.

A empresa Ourogal, que trabalha azeites da região do Alto Ribatejo, foi quem patrocinou a intervenção inicial de preservação da oliveira milenar, construindo uma proteção à volta do enorme tronco em forma de murete, com as devidas placas de certificação. Interessou-se pela Oliveira do Mouchão muito por causa da sua ideia de internacionalização .

A Ourogal acordou ainda com a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, situada em Mouriscas, que as intervenções na oliveira do Mouchão fossem da responsabilidade dos alunos da escola, e assim continua a ser.

Após o corte, faz-se a aplicação de uma pasta que vai ajudar a árvore a cicatrizar. Créditos: mediotejo.net

André Luíz-Lopes, responsável máximo da Ourogal, em declarações ao mediotejo.net lembrou a importância da variedade galega “que dá origem a uma qualidade de azeite extraordinário”. Uma variedade específica “que tem caraterísticas organolépticas, sensoriais, diferentes do azeite corrente, e uma forma de poder valorizar os nossos azeites é tentar levar a regionalização atrás”, defende.

Em Mouriscas, “quando Ourogal descobriu a oliveira, que estava de uma forma quase deplorável, graças a uma pessoa que praticamente se mantém no anonimato, foi como se costuma dizer ‘uma boa malha’ como ação de marketing – mas não só da empresa; é regional!”, afirma o engenheiro.

Segundo André Lopes, com esta aposta também os largares da região “são convidados a fazer um produto de excelência para dignificar e valorizar o produto junto do consumidor”, e eis “a essência” do interesse da empresa pela oliveira milenar.

André Lopes, da Ourogal, junto à oliveira mais antiga de Portugal Créditos: mediotejo.net

A Ourogal financia então parte da intervenção, valor que o engenheiro preferiu não adiantar, mas garantiu “haver muito sentimento” envolvido. “Mantemos e iremos continuar a manter a nossa colaboração em tudo o que seja necessário para o bom estado da oliveira”.

Além de valorizar a preservação da árvore, André Lopes destaca “a parte cultural, social, tudo aquilo que o concelho de Abrantes pode fazer em volta desta oliveira”, diz, sugerindo “cultura, culinária, desporto”, ou até intervenções “do mundo artístico, da escrita, da música”. Este é, diz, “um pilar extraordinário para podermos desenvolver o melhor possível a nossa regionalização, tudo numa base de win win”.

O professor Simão Pita segura a escada a um dos alunos da EPDRA. Créditos: mediotejo.net

Quanto aos direitos de imagem da oliveira, Pedro Matos havia esclarecido que “ninguém é detentor” dos mesmos, depois de questionado pelo mediotejo.net. E também o responsável pela empresa de azeites confirma que “são de todos”, e que “a Ourogal não tem o exclusivo”, admitindo que a empresa “tira partido por causa da regionalização e da qualidade do azeite”. Mas isso, diz, “qualquer outro o pode fazer, dentro do setor”. Afinal, “a oliveira é património nacional”, vinca.

André Lopes defende união e “uma direção bem definida”, para todos beneficiarem. “E elevar, dignificar a regionalização. Temos de ter muito respeito por esta árvore… É única!”

O ICNF autorizou uma intervenção “pelos mínimos” na oliveira milenar de Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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