Abrantes | Vasco Galante, o menino de Alferrarede que fez da Gorongosa o seu pedaço de paraíso

Vasco Galante, 61 anos, é o diretor de Comunicação do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, desde 2006. Nasceu em Lisboa mas parte das suas raízes são abrantinas. Com uma avó do Pego e a mãe de São Miguel do Rio Torto, viveu em Alferrarede de 1963 a 1968 e, desde essa altura, volta com regularidade ao concelho para visitar a família. Quando vem a Portugal não deixa de cá passar, ao encontro das duas irmãs que tem em Alferrarede e respetivos sobrinhos. Desabituado do frio, dos cachecóis e dos gorros prefere a leveza das roupas a que obriga o clima tropical de África. Gorongosa é onde se sente em casa, uma escolha que tem mais de uma década quando trocou a selva urbana pela selva africana e o conforto da “vida moderna” pela consciência ambiental.

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“Isto é que é a selva!”, diz a rir Vasco Galante ao mediotejo.net, na cidade de Abrantes. O diretor de Comunicação do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, serena-se entre leões, hipopótamos e búfalos, e inquieta-se na multiplicidade de veículos automóveis e de edifícios em betão.

Encontra-se junto à Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, que certo dia recebeu o nome de Colégio La Salle, por si frequentado com uma bolsa de estudo, em regime de externato. Passaram muitos anos, o urbanismo tomou conta da ruralidade.

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Vasco, que desde 2005 vive no meio da selva africana, onde realmente se sente em casa, não se identifica com nada do que vê. O Colégio “não tinha muros, nem redes. Era um espaço amplo, com campos de jogos, e o edifício de paredes vermelhas no meio. Dali víamos o rio”, aponta, em direção às traseiras da Escola.

Agora os rios são outros, como o Vunduzi, correndo ao lado do Lago Urema, tal como Vasco, com pressa de voltar, mesmo quando vem de visita a Portugal. Há 12 anos viajou até África para se reconhecer e “depois de lá estar, é difícil estar noutro sítio”, reconhece.

Minutos antes, no nosso caminho até Abrantes, quando atravessámos a ponte sobre o rio que liga o Rossio à cidade, Vasco recorda as encostas nuas até ao Tejo. “Não havia uma única casa, só o edifício do Colégio, lá em cima” imponente pela unicidade, seguro no rubro das suas paredes.

Vasco Galante nasceu em Lisboa há quase 62 anos. A mãe, natural de São Miguel do Rio Torno e o pai, do concelho de Idanha-a-Nova, tinham decidido por razões profissionais ir viver para a capital após a união que ocorrera não muito longe de outra União, a Companhia Fabril CUF, no lugar das hortas, onde o pai de Vasco tinha arriscado empregar-se, em Alferrarede.

Era também ali, numa casa da Quinta da Fonte Quente, que vivia a “pegacha” avó Amélia. Foi a essa casa que Vasco regressou alguns anos depois da viagem até à capital, seguida de Évora, para terminar o ensino básico na escola primária local. Um edifício que hoje se encontra fechado, encerrado nas suas memórias do Estado Novo, à espera de melhores dias, enquanto observa o progresso do trânsito às voltas na rotunda, e o desenvolvimento comercial logo ali ao lado.

“Vivi em Alferrarede entre 1963 e 1968, onde frequentei a escola primária – 3ª e 4ª classe – e depois a 5ª e 6ª classes no Colégio La Salle, em Abrantes”, explica ao mediotejo.net.

Foi em Abrantes que ouviu falar pela primeira vez no Parque Nacional da Gorongosa. Durante uma aula, um frade do Colégio La Salle abordava a icónica fauna africana e as gentes da longínqua província ultramarina de Moçambique, palavras que despertaram em Vasco Galante o espírito de missão e de voluntariado. “Logo naquela altura percebi que gostaria de fazer algo por aquelas pessoas” conta.

Rendeu-se à Gorongosa uma segunda vez quando no Cineteatro São Pedro, antes do filme ‘Os Dez Mandamentos’, é exibida a película oficial de promoção do Parque Nacional da Gorongosa, realizado em 1961 por Miguel Spiegel, com locução de Fernando Pessa. Hoje, um importante documento histórico preservado pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.

Parque da Gorongosa, Moçambique

Na verdade, quando olhou para as imagens dos primórdios do Parque Nacional da Gorongosa e de como ficou após a guerra, em trégua desde dezembro de 2016, foi inevitável sentir um misto de tristeza e perplexidade. Quase cinquenta anos passados, as imagens do filme que transportaram Vasco até África no seu esplendor, para florestas a perder de vista, animais selvagens a saltitar nas pradarias e tranquilas lagoas com coloridas aves em rendilhado, ficaram retidas no desejo de descobrir o continente africano que só em 2005 viria a acontecer, para imediatamente se “decepcionar”.

Até lá, Vasco continuou, primeiro na Quinta da Fonte Quente de onde saiu para ir viver com o pai em Lisboa, já que no girar do mundo as uniões entre progenitores nem sempre são “até que a morte os separe”. De modo inusitado preferiu a cidade ao campo, escolha que hoje parece estranha vinda de alguém que optou viver longe dos padrões da civilização ocidental.

Tinha 11 anos quando, ficou “deslumbrado pela cidade” e quis ir viver com o seu pai, explica Vasco. Para trás ficava uma casa sem luz elétrica, os cinco quilómetros que fazia a pé para ir de casa até ao Colégio.

“Era cansativo! Saía de casa, subia a encosta do Castelo de Abrantes e caminhava até chegar à escola”. De volta a casa, o caminho era o mesmo. Ficavam também os mergulhos com os amigos no Tejo, embora tenha aprendido a nadar no mar da Nazaré “nadei muito no rio” lembra Vasco.

Tal como hoje, o Tejo corria no fim do arvoredo, entre a Quinta da avó e a margem norte, naquela época farto de peixe e de água transparente. Ficavam ainda as cheias desse rio que nos invernos mais rigorosos chegavam ao primeiro andar da casa da Fonte Quente.

Quando havia cheias “andava de jangada pela Quinta com a água a roçar o meio das copas das árvores. Era perigoso, não havia era crocodilos nem hipopótamos!” afirma, fazendo uma analogia com o que atualmente arrisca de barco nas lagoas do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique.

Vasco Galante, diretor de Comunicação do Parque Nacional da Gorongosa durante a apresentação ‘Tesouro do Mundo’, em Rossio ao Sul do Tejo. Foto: mediotejo.net

Mas foi ainda em Abrantes, no La Salle, que deu os primeiros passos em corrida no jogo do basquetebol. Desporto que aprofundou na capital sendo mesmo atleta do Sport Lisboa e Benfica, clube do coração, onde foi campeão nacional em 1975. Também integrou a Seleção Nacional de Esperanças em 1976, sempre com a camisola número 7.

Vasco teve sorte, fez-se um rapaz alto. Porventura sem a devida altura nunca teria alcançado os cestos para marcar os golos no basquetebol que, afinal, também o empurrou para a Gorongosa, coincidências que mais parecem conspiração astral traçando o destino em direção a Moçambique. Isto porque, das duas visitas anuais que faz a Portugal, numa delas tem, sacramentado, encontro marcado com os amigos do basquetebol.

Certo dia “um amigo dos tempos de jogador de basquetebol, que não via há 20 anos, convidou-me para um treino ao qual fiquei de ir. Mas por razões de trabalho viajei para Itália e não fui”. Morreu no treino a que Vasco faltou. “Foi um momento de viragem na minha vida. Não sabia muito bem o que ia fazer. Achei só que o mundo onde vivia não era saudável”.

Motivado pela ideia e mudança, decidiu-se por uma grande caminhada de 800 quilómetros, consigo próprio e a sua mochila, até Santiago de Compostela, numa meditação pelo verdadeiro sentido da vida.

“Foi um encontro comigo, decidi ser voluntário em África e comecei pela África que fala português”, afirma, esclarecendo ser “agnóstico, mantendo a espiritualidade da ligação com a natureza”.

Aos 12 anos cortou definitivamente com duas práticas: “a da igreja católica e a da caça”. Desta última só lhe faz falta o cão, companheiro de grandes passeios pelo campo até chegar ao Tejo, nas suas horas livres por Abrantes. Agora “é um privilégio” viver e trabalhar num dos lugares mais bonitos do mundo. “O mais difícil é coordenar todas as atividades, considerando que para alguns locais não existem estradas nem picadas, e mesmo estas, na época das chuvas ficam intransitáveis”, refere.

Para trilhar essas estradas rudimentares “foi decisivo ter feito o Caminho de Santiago, entre Roncesvales (nos Pirinéus) e Santiago de Compostela, uma bela caminhada durante um mês, que me permitiu muitos momentos de reflexão e me proporcionou a clarividência necessária para romper com um estilo de vida europeu e com as mordomias a ele associadas”, diz.

Hoje, Vasco vive no meio do mato e confessa não ter saudades da ‘confort zone’ em que viveu muitos anos.

Além da experiência em Portugal, Vasco trabalhou muitos anos em Itália e Espanha como administrador de empresas e também como diretor para as áreas Comercial e de Marketing, em grandes empresas como a Sonae, a INCM, o BES e o Reader’s Digest. Possui um MBA em Marketing e uma licenciatura em História, embora nos seus primeiros anos de carreira profissional tivesse sido programador de computadores e formador.

Fala várias línguas (espanhol, italiano, francês e inglês) e agora está a aprender mais duas: sena, um dos 23 dialetos falados em Moçambique (o oficial português é falado apenas por 25% da população); e tailandês.

Esta última talvez mais querida que as restantes uma vez que casou com uma voluntária tailandesa que conheceu em Moçambique, de quem tem Amélia, a sua mais nova, de onze anos, a estudar em Banguecoque, na Tailândia. Os restantes filhos, uma outra rapariga e dois rapazes, também estão longe de si. O casal escolheu viver em Portugal e o outro rapaz em Santiago do Chile. A família de Vasco por terras lusas, precisamente em Alferrarede, ainda agrega as suas duas irmãs, Helena e Lucília.

A MUDANÇA PARA ÁFRICA

Com crianças das comunidades locais na Gorongosa. Foto: DR

Vasco chegou a Moçambique como voluntário em março de 2005, integrado num projeto de formação de formadores de professores primários. Levou a cabo a sua formação como Instrutor de Desenvolvimento no Institute for International Cooperation e Development do Massachussets nos Estados Unidos e esteve seis meses a dar aulas em Maputo na One World University, gerida pela ADPP (ONG de origem dinamarquesa e cuja sigla significa Aid Development People to People).

“Esta experiência foi muito enriquecedora do ponto de vista pessoal mas permitiu-me também perceber muitas coisas sobre o mundo da cooperação internacional e das ONG’s de que não gostei e que me desiludiram”, confessa.

Escolheu o continente africano porque “África está no imaginário de todos os portugueses, devido ao nosso passado e à nossa história. Acho que África é o continente do futuro e creio que nós, portugueses, temos uma dívida para com os países de expressão portuguesa: deveríamos ter feito muito mais pelo desenvolvimento local, durante os séculos em que convivemos com as populações locais”, considera.

Em junho visita o Parque Nacional da Gorongosa que o deixa “muito dececionado” devido à destruição que encontrou, a milhas do seu imaginário infantil e três meses depois conhece Greg Carr. Quando foi contactado pela Carr Foundation “estava a trabalhar como consultor para o International Trade Centre”, uma agência da Organização Mundial do Comércio, das Nações Unidas”.

Considera “difícil resistir aos entusiasmo do Greg Carr, presidente da Carr Foundation, mas o que me atraiu muito foi o projeto em si e a dimensão do mesmo”. Desde março de 2006 que tem um contrato reconhecido pelo Ministério do Trabalho de Moçambique, como diretor de Comunicação e Desenvolvimento Turístico do projeto da Gorongosa, um projeto por 30 anos, resultante de um acordo entre o multimilionário Gregory Carr e o Estado de Moçambique.

Esse projeto passa pela recuperação do Parque Nacional da Gorongosa, de reestruturar tudo de novo após a guerra. De ser narrador de uma história, dos desafios para dar uma nova vida à vida selvagem e às cerca de 200 mil pessoas que vivem na designada zona tampão do Parque.

Vasco sabe que nada pode ser feito para alterar o passado nem para retificar os erros cometidos mas está convicto que “cada um de nós pode fazer alguma coisa para alterar o presente e contribuir para um futuro melhor”. Sensibilizado pelas reportagens que via “sobre situações de carência e sofrimento, achei que tinha chegado o meu momento de realizar um sonho antigo: viver em África e ajudar a que muitas crianças tenham um futuro melhor”.

O projeto da Gorongosa tem dois grandes objetivos, “a proteção e restauração da biodiversidade e dos processos naturais do ecossistema; e o alívio da pobreza regional através do estabelecimento de negócios de ecoturismo e de outras influências benéficas do Parque”, explica.

Inicialmente foi efetuado com o governo de Moçambique, através do Ministério do Turismo, um Memorando de Entendimento que criou um quadro legal de atuação para a Carr Foundation. Em 2008 terminaram as negociações que produziram um extenso documento definido como um Acordo de Longo Prazo, onde se encontram explicitadas as modalidades e regras a seguir na Gestão Administrativa do Parque até 2041.

Além de viverem no que chamam “o paraíso na Terra” ou no “tesouro do Mundo”, Vasco Galante e a sua equipa procuram “conhecer bem a realidade local, que a nível do governo provincial, quer a nível dos seis distritos (Gorongosa, Cheringoma, Muanza, Nhamatanda, Dondo e Maringué) onde o Parque está inserido, quer no terreno, com as comunidades locais” que habitam dentro do Parque ou chamada zona tampão do mesmo.

E nem tudo é paradisíaco: “estamos a falar de muitas reuniões e de muitas visitas, em zonas de difícil acesso, em locais em que o português não é falado pela maioria da população – a língua mais falada naquela zona centro de Moçambique é o sena”, atesta. Como forma de complementar as visitas locais a administração do Parque tem feito também o inverso, “temos trazido ao Parque alguns líderes locais para que percebam o que é o turismo e que tipo de serviços devem ser prestados aos turistas”.

Vasco internacionalizou-se. É um homem do mundo, que está tão bem em Portugal como na Tailândia, mas foi em África que se reencontrou. “Creio que as experiências que fui tendo na minha vida, incluindo os meus tempos de jogador de basquetebol do Benfica em que convivi com muitos jogadores oriundos de Moçambique, me foram preparando e deram-me os conhecimentos e maturidade para enfrentar as situações difíceis com que me deparo no quotidiano” conta.

São quatro mil quilómetros quadrados de Parque que o português sente como um lar. “A minha casa é de facto a Gorongosa. Acho que encontrei no Vale do Rift Africano, considerado o berço da Humanidade, as minhas raízes primordiais”, confessa.

Tal como muitos outros, Vasco Galante descobriu o melhor de si no continente africano, na “oportunidade de ver paisagens fantásticas e conviver com pessoas que nos acolhem com sincera amizade”. Deixa o convite a quem quiser visitar Moçambique e a Gorongosa, “para poder comprovar” o que diz.

Vasco Galante esteve, no passado dia 27 de fevereiro, em Abrantes para apresentar ‘Gorongosa – O Tesouro do Mundo’ no salão paroquial de Rossio ao Sul do Tejo, a convite da Associação Rossio Con Vida.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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