Abrantes | O deslumbramento de José Luís Peixoto perante a oliveira milenar das Mouriscas

Oliveira milenar do Mouchão, em Mouriscas, é a árvore mais antiga de Portugal. Foto: mediotejo.net

O escritor José Luís Peixoto publicou na sexta-feira, no seu site dedicado a textos de viagens, um pequeno bilhete de amor a uma árvore que equipara a um “monumento”: uma das oliveiras milenares de Mouriscas, no concelho de Abrantes, e que está classificada como sendo a mais antiga árvore do país, com 3350 anos.

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“Quando vamos conhecê-la, a verdadeira honra é darmo-nos a conhecer a ela, fazermos parte da sua imensa memória”, escreveu.

“3350 anos, invernos e verões, o frio do janeiro mais frio, o calor do agosto mais tórrido, e todas as noites, saber viver com esse silêncio, essa solidão. Uma árvore como a oliveira do Mouchão só pode fazer amizade com o céu, tudo o resto é demasiado efémero.”

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Esta oliveira, explica, “está nas Mouriscas, no fim de uma rua, no começo do campo” e torna-se especial porque, além da sua idade,  “é uma árvore que nos fala de transcendência”, da grandiosidade da Natureza.

José Luís Peixoto nasceu ali perto, em Galveias, Ponte de Sor, onde viveu até aos 18 anos, e regressa com frequência às terras do Alentejo que moldaram a sua personalidade e a sua obra. O seu quinto romance intitula-se precisamente “Galveias” (Ed. Quetzal, 2014), um retrato da vida daquele interior tão marcado pelo que a terra dá e pelo que o clima tira:

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“A terra é mais velha do que o céu, pensava. A terra sabe mais. Num dia, o céu muda de juízo a toda a hora, parece um rapaz com o cu aos saltos. Ora acha que há-de escurecer, ora acha que há-de clarear, não pára quieto, não está bem em lado nenhum.”

É esse “cachopo”, que cresceu rodeado pela imensidão da planície alentejana, que olha com reverência para esta oliveira do Mouchão, com mais de três mil anos: “Quando olhamos bem para ela, sentimo-nos insignificantes.”

Foto: mediotejo.net

“Uma árvore como a oliveira do Mouchão só pode fazer amizade com o céu, tudo o resto é demasiado efémero”, escreveu José Luís Peixoto

A oliveira do Mouchão foi classificada como a árvore mais antiga de Portugal em 2016, tal como o mediotejo.net então noticiou, e é património nacional classificado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. A oliveira pertencia aos terrenos de Ermelinda Marques, de 95 anos, que doou a árvore à Junta de Freguesia, em 2019.

Um Roteiro das Oliveiras daquela região foi já criado pela Associação Cultural das Rotas de Mouriscas (ACROM) e pela Junta de Freguesia, e a sinalética começou a ser colocada em janeiro de 2020. Foram identificadas mais de uma centena de oliveiras centenárias e milenares, mas as placas não vão indicar uma datação precisa, porque isso implicaria “um investimento muito elevado”, como explicou ao mediotejo.net António Louro, presidente da ACROM, lembrando que a certificação da oliveira do Mouchão custou “cerca de mil euros”.

Colocação das primeiras sinaléticas do Roteiro das Oliveiras pela ACROM, em Mouriscas, decorrem em janeiro de 2020. Créditos: mediotejo.net

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