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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022
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Abrantes | Novo Caderno Cultural vem avivar o passado agrícola de Mouriscas

Praticamente a fazer 84 anos, Carlos Lopes Bento, autor mourisquense, junta mais um Caderno Cultural aos três que já se alinharam na prateleira. O denominador comum entre todos? Mouriscas. O antropólogo e professor universitário assume como missão preservar o passado da sua terra, pois considera que “sem passado, não há presente nem futuro”. Nos dois volumes de «Obreiros do Mundo Agrícola de Mouriscas», obra apresentada ao final da tarde desta terça-feira, o autor olha para a realidade dos anos 1860-1911 em termos dos desempenhos laborais da época efetivamente assentes na agricultura, baseando-se em documentos, certidões e registos, que vêm lembrar proprietários, agricultores, jornaleiros e seus titulares.

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Este é já o quarto caderno cultural sobre a freguesia das Mouriscas, depois do primeiro sobre as “Vivências e Memórias de um Jovem Moleiro”, o segundo dedicado a “Mouriscas – Preservar o seu património cultural para a defesa da sua identidade” e o terceiro sobre “Mouriscas do Passado ao Presente – Artes e Ofícios e seus titulares, 1860-1911”.

“Tem sido um trabalho árduo, foram milhares de registos passados um por um, não é trabalho fácil. Mas ele foi feito, está feito e continuará a ser feito”, notou o autor, acrescentando que o intuito continua a ser cumprido: “trazer o passado com mais de cem anos ao presente”.

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Fazendo a ponte com o anterior caderno, o terceiro sobre as artes e ofícios de Mouriscas, o escritor frisou, em relação às antigas artes e ofícios, verificar-se que “grande parte deles eram dependentes de um setor importante e essencial, a agricultura”.

Moleiros, ferreiros, serralheiros, ferradores, barbeiros, correeiros, carpinteiros, dependiam do mundo agrícola e dos seus agentes, explicou o professor universitário natural de Mouriscas.

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Estes dois volumes complementares resumem os “pequenos problemas, que a juventude nem sonha o que foram as gerações anteriores às suas, os sacrifícios que tiveram de passar para que sejamos aquilo que somos hoje”.

Carlos Lopes Bento (ao centro), com quase 84 anos, vai já na quarta publicação de Cadernos Culturais sobre a sua terra natal, Mouriscas. À esquerda, João Serrano, da AIDIA, e Humberto Lopes, da ADIMO, à direita. Foto: mediotejo.net

Estas edições surgem da parceria com a ADIMO e a AIDIA, cujos representantes estiveram presentes, à semelhança dos momentos anteriores, na sessão de apresentação deste novo caderno cultural. Humberto Lopes, representante da Associação de Desenvolvimento Integrado de Mouriscas (ADIMO), e João Serrano, representante da Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça (AIDIA), abordaram esta parceria entre as entidades, lembrando o motivo pelo qual têm apoiado a publicação deste trabalho de investigação.

Humberto Lopes explicou que a motivação para a continuidade deste trabalho parte da necessidade de “preservação de valores que de certo modo se vão perdendo”, ressalvando a “disponibilidade e juventude [de Carlos Lopes Bento] para ir trabalhando todos estes temas”.

O dirigente associativo reconheceu ainda o “trabalho bastante extenso, que é editado em dois volumes”, na senda da “preocupação de deixar para o futuro aquilo que foi a vida de Mouriscas nos meados do século XIX até meados do século XX. Não tem sido fácil, porque primeiro fizemos algumas publicações com base na oralidade, na transmissão de conhecimentos através de entrevistas feitas a pessoas da terra. O terceiro e o quarto caderno já são baseados em documentos, em registos de batizo e de casamento, há aqui cadernos publicados com origens diferentes”.

Apesar de ainda não ter tido tempo de ler na totalidade, Humberto Lopes assumiu que “é extremamente agradável pegar num caderno que tem registos de nascimento, de batismos e de casamentos de 1860 a 1911, 51 anos, encontramos lá os nossos avós, eu já encontrei os meus. (…) É extremamente agradável nós lermos e encontrarmos esse passado a que estamos ligados mas que fomos esquecendo”, disse.

Luís Dias, vereador com o pelouro da Cultura da CM Abrantes, também esteve presente na sessão de apresentação deste caderno cultural. No discurso de abertura referiu que Mouriscas merece ser “caso de estudo” pela capacidade de iniciativa “não só na valorização do nosso património, seja ele etnográfico, seja ele bibliográfico, seja ele o património cultural”. O vereador relembrou o aniversário da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural, também situada em Mouriscas, que fez 27 anos esta segunda-feira, dia 20 de março, reforçando a presença do setor da agricultura naquela freguesia do concelho de Abrantes, felicitando a ADIMO e os seus corpos sociais pela acutilância que têm tido com estas edições culturais.

Segundo o vereador, o exemplo de Mouriscas tem despertado outras freguesias e coletividades a quererem deixar registos para o futuro. “Desde que começámos com estes cadernos culturais, não sei o que se tem despertado (…) efetivamente nas nossas freguesias parece que se criou um à-vontade para construir essas monografias, e curiosamente, ainda este ano [após aprovação do Programa de Apoio ao associativismo em Abrantes – o FinAbrantes], irá continuar a afirmação daquilo que é muito importante para a construção do conhecimento, não só da memória histórica dos abrantinos e dos mourisquenses, mas também tudo isto que é um legado que os nossos antepassados nos deixaram”, acrescentou.

A autarquia pretende que este trabalho continue a ser feito, tendo revelado o vereador com o pelouro da Cultura que este ano a par da apresentação dos novos cadernos culturais de Mouriscas, serão editadas monografias no Pego, Rio de Moinhos e Bemposta.

2017 trará mais um Caderno Cultural a esta coleção

Depois de terem sido aprovados os investimentos de apoio ao tecido associativo do concelho, com o programa FinAbrantes, Luís Dias, vereador da CMA, referiu que o novo caderno cultural proposta pela ADIMO fora aprovado, contando com o apoio autárquico para a sua edição e impressão.

Carlos Lopes Bento aproveitou a deixa para deslindar um pouco do que se trata o trabalho “Mouriscas: Memórias etnográficas. Objectos, utensílios e artefactos em uso cerca de 1950”, “tinha eu os meus 20, estava na pujança da juventude”, disse Carlos Bento.

Perante a apresentação do documento, o autor demonstrou um trabalho de recolha exaustiva e de documentação de objetos, com a sua devida identificação, e com registo da evolução ao longo do tempo e com a descrição dos usos dos mesmos.

Desde a lavoura e aos apetrechos usados na aparelhagem dos animais, à pesagem de produtos, à cozinha e fabrico de produtos tradicionais, vários são os objetos que o autor ainda recolhe junto da comunidade, apelando às pessoas da terra que tenham exemplares em suas casas, para que possam ser registados em fotografia e aglomerados no próximo caderno cultural a ser publicado este ano.

Para dar “uma ideia do que será o próximo trabalho”, o investigador mostrou desde a aivela, alguidares de barro com gatos de arame, arados, pesos, bornil, serras, cangas e cangalhas, ferrada e asado, francela e acincho, ferraduras e canelos, cravos, tigelas de barro para tigeladas, e tantos outros objetos com história,  que estarão reunidos neste próximo trabalho da coleção de Cadernos Culturais mourisquenses.

O Caderno Cultural (volume I e II) poderá ser adquirido na Biblioteca Municipal de Abrantes, com um custo de 15 euros.

O autor, Carlos Lopes Bento, nasceu em Mouriscas, no concelho de Abrantes, a 2 de abril de 1933, onde concluiu a 4ª classe. No Colégio Infante de Sagres/Externato Infante de Sagres, concluiu o 5º ano liceal. Terminou os estudos liceais no Instituto de Santo António, sediado em Castelo Branco.
É diplomado em Administração Ultramarina, licenciado em Ciências Antropológicas e Etnológicas e Doutor em Ciências Sociais e Políticas especialidade “História dos Factos Sociais” pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa e é professor universitário.

Prefácio:

O território que constitui a Freguesia de Mouriscas e faz parte do Concelho de Abrantes, situa-se no Alto Ribatejo e numa encosta da margem direita do médio Tejo. Os seus solos bastante movimentados, a maior parte de natureza xistosa, embora, agricolamente pobres, são favoráveis ao crescimento da oliveira, da figueira, da laranjeira, do pinheiro bravo, do sobreiro, do carvalho e do eucalipto e de mato como o tojo, a torga, o rosmaninho, a carqueja e a esteva. Nas margens dos ribeiros e vales florescem os choupos, os freixos, os amieiros e os salgueiros. Está dividido em milhares de propriedades, agrícolas e silvícolas. Predomina a pequena e média propriedade, sendo aquela muito mais expressiva do que esta. Raramente as várias parcelas do mesmo proprietário são contíguas.
Neste Caderno serão nomeados os principais obreiros – proprietários, agricultores e jornaleiros – responsáveis pela organização e funcionamento da atividade agrícola desenvolvida na Freguesia entre 1860 e 1911.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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