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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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Abrantes | Nos bastidores com a AMA a orquestrar canções de Miguel Gameiro nas Festas da Cidade

Por onde começar? Talvez pela síntese. José Miguel Vitória Rodrigues, 30 anos de dedicação à música, natural de Rossio ao Sul do Tejo, maestro da Academia de Música de Abrantes (AMA). É ele o responsável por um projeto que considera “agregador”, nascido precisamente para o centenário de Abrantes, há três anos, e que se implantou no concelho como orquestra formada por músicos de diversas entidades culturais locais. A AMA, apresentava-se numa primeira fase, aquando do projeto ‘Música do Nosso Tempo’, com um repertório com temas associados aos últimos 100 anos de história da cidade. Na noite de quinta-feira aconteceu de forma diferente e o mediotejo.net foi aos bastidores do concerto.

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“A AMA tem praticado um estilo musical diversificado. É normal que se associe a orquestra a música mais erudita mas desde o primeiro momento que temos procurado diversificar os estilos musicais porque sendo a orquestra de sopros e percussão uma formação mais abrangente do ponto de vista estilístico, também tentámos dotar os jovens músicos de uma experiência musical diversificada”, contou ao mediotejo.net o maestro José Miguel Vitória Rodrigues, referindo anteriores concertos com obras clássicas e outras mais pop/rock ou bandas sonoras de filmes.

O espetáculo montou-se cedo na Praça Barão da Batalha, no Centro Histórico de Abrantes, no palco principal das Festas dentro da cidade para um concerto da Academia de Música de Abrantes cujo convidado foi Miguel Gameiro, músico sobejamente conhecido por mais de 25 anos de carreira inicialmente com o grupo pop/rock Polo Norte, cantando agora a solo.

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O mediotejo.net esteve nos bastidores com a AMA a orquestrar canções de Miguel Gameiro para as Festas da Cidade. Foto: CMA

Falando de “responsabilidade” vincada nos últimos 15 minutos antes de subirem ao palco, o maestro deixa uma palavra de agradecimento aos músicos, a todas as pessoas que integram o projeto AMA e ao público que acarinha o projeto, e confessa que para os jovens músicos tocar no palco principal das Festas da Cidade “foi um desafio muito interessante”.

“Sempre manifestaram esse interesse por todo o rigor que colocaram nos outros 14 concertos já realizados”. Sem querer fazer o uso errado da palavra, José Miguel Vitória revela ser a oportunidade “uma ambição”. Sendo um cabeça de cartaz como Miguel Gameiro, “o desafio foi ainda maior”.

Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante os ensaios para o espetáculo com Miguel Gameiro nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. Créditos: José Miguel Vitória Rodrigues

Relata um elevado grau de exigência, que envolve uma enorme logística, um entusiasmo diferente também pelo número de espetadores “mil ou duas mil pessoas… é algo de fantástico!”, afirma. E particularmente motivador porque “conceber toda esta manifestação artística, desde a primeira reunião, pensar na montagem, dá muito trabalho”.

E se a AMA – um projeto municipal – nasceu numa mesa de café no Jardim da República, em Abrantes, curiosamente o espetáculo musical da AMA com Miguel Gameiro também nasceu numa mesa de café na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, após a comunicação da Câmara Municipal ao maestro da intenção do concerto.

O Município “tem sido inexcedível para que tenhamos todas as condições reunidas, para que possamos desenvolver um projeto qualitativo em prol da dimensão cultural e social do concelho que bem necessita. Este tipo de projetos são para a comunidade para podermos valorizar principalmente os jovens que precisam de boas referências”, notou.

À semelhança da preparação para outros concertos, a AMA funcionou em regime de estágio trabalhando de forma intensiva o programa e a metodologia para que no palco seja funcional. Para este espetáculo em especifico a AMA teve “um primeiro estágio em abril de quatro dias, com uma média de 8 horas por dia de ensaios, por secções, sob a orientação dos professores orientadores de naipe e depois ensaio de orquestra, ensaio por secções em que juntamos os naipes – família das madeiras e a família dos metais com a percussão. No último fim de semana os ensaios começaram na sexta-feira à noite, no sábado ensaio com Miguel Gameiro, e no domingo novamente todo o dia a trabalhar”.

E “combinar música erudita com pop/rock não é fácil” assegura o maestro nomeadamente “na conceção dos arranjos. É preciso conhecer muito bem aquilo que o artista tem na sua originalidade e depois transformá-la num conceito mais sinfónico”, explica.

O maestro José Miguel Vitória da Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante a montagem do espetáculo com Miguel Gameiro nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. Créditos: mediotejo.net

Os músicos que compõem a AMA são provenientes de “bandas filarmónicas, conservatórios, alguns não tocam numa banda filarmónica em específico vão colaborando, têm formação em música e procuram este tipo de projetos para enriquecer a sua prática artística”, diz o maestro José Miguel Vitória, estando em palco para este concerto 55 músicos com idades compreendidas entre os 11 e os 64 anos, incluindo os professores, “presença fundamental para uma boa articulação do projeto artístico”.

Do concelho, desde o início do projeto que a AMA tem músicos da Banda Filarmónica Riomoinhense, da Sociedade de Instrução Musical Rossiense e da Banda Filarmónica Mourisquense.

A orquestra conta ainda com “jovens músicos que têm procurado o projeto no sentido de evoluir. Temos músicos de vários concelhos vizinhos. E quando subimos ao palco há um ambiente de equipa que tenho procurado transmitir enquanto diretor artístico aos meus colegas professores orientadores de naipe para fomentarem esse espírito de equipa porque só assim o projeto pode resultar, uma vez que o tempo de trabalho é escasso”, revela José Miguel.

Maestro José Miguel Vitória com a AMA e Miguel Gameiro. Foto: CMA

Para o maestro, a Academia de Músicos de Abrantes “pode crescer ainda mais, basta as pessoas quererem congregar. Porque se pensarmos cada um na sua ilha jamais conseguimos viver em arquipélago”, defende.

E José Miguel Vitória entende este projeto como de “congregação” admitindo que está por fazer “muito trabalho”. Esta dimensão artística “mexe com muita gente, com pensamentos, hábitos e rotinas que estão criados à muitos anos e rompe um pouco com essas rotinas”.

As bandas filarmónicas, em sua opinião, “têm um papel muito importante no incremento dos jovens músicos porque se olharmos para as orquestras profissionais os instrumentistas de sopro e percussão iniciaram a sua formação nas bandas filarmónicas. Do concelho de Abrantes temos músicos profissionais já em orquestras sinfónicas e em bandas pessoais. Acho que está na hora das pessoas perceberem o que querem fazer com as bandas filarmónicas da sua comunidade e os sócios têm um papel preponderante para que as bandas não terminem”, incentiva.

Músicos da Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante a montagem do espetáculo com Miguel Gameiro nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. Créditos: mediotejo.net

Apesar de algum nervosismo aquando das apresentações, os jovens manifestam entusiasmo por este tipo de projetos dada a sua dimensão mas o maestro esclarece que o objetivo passa pela “experiência musical” e “transportá-la para a sua realidade, à sua escala”.

Tendo em conta à instrumentação, o primeiro passo prende-se com o conhecimento das partituras, os arranjos, e para o palco passavam flautas, oboés, clarinetes, saxofones, trompetes, trompas, trombones, bombardinos, tubas e todo um kit de percussão orquestral, instrumentos cedidos pelas bandas filarmónicas, para 10 temas que a AMA toca com Miguel Gameiro, escolhidos pela produção em conjunto com o artista, temas maioritariamente do grupo ‘Polo Norte’, três obras com apontamentos mais orquestrais escolhidos por José Miguel Vitória Rodrigues, e dois temas acústicos entre Miguel Gameiro e o pianista Pedro Zagalo.

Vinte anos depois de iniciar uma profissão como professor, o maestro – com uma família ligada à fundação da Sociedade de Instrução Musical Rossiense – continua a acreditar que a música “faz um jovem ser diferente. É um desafio constante, é exigente, a música não é para todos. Há 20 anos acreditava que era mas a música é uma arte que exige um desafio e um estudo constante e muito rigor, empenho e capacidade de superação. Há peças difíceis, há momentos difíceis, vamos apanhando professores difíceis”, revela.

Mas quem sabe não está na AMA a semente de uma futura escola oficial de música de Abrantes, apesar de atualmente a música integrar o ensino do Agrupamento de Escolas de Abrantes que “tem uma seleção criteriosa” e no entender do maestro “há que criar espaço para os que ficam de fora porque esses alunos também gostam de música”.

Para José Miguel Vitória “é preciso projetos integradores em ação. É preciso olharmos para projetos locais e comunitários e dar-lhes uma outra roupagem, pôr os jovens a olharem para as coisas de maneira diferente”, defende.

Músicos da Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante a montagem do espetáculo com Miguel Gameiro nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. Duarte Guedes na montagem de um instrumento. Créditos: mediotejo.net

Sem criticar, disse ser “importante a comunidade educativa meditar nas ações que estão no terreno. Existem projetos no nosso País onde a música tem um papel preponderante na inclusão, no nosso concelho temos ainda um caminho a percorrer nesse sentido. Todos os jovens que vamos encontrando têm o seu potencial, necessitam de o desenvolver, mas tem de haver um conjunto de vontades, com alicerces fortes nos agentes educativos. Acredito que possamos ter aqui uma geração muito interessante a nível musical. A música é um caminho, é uma viagem contínua”, defende.

Vasco Fernandes é um desses jovens. Atualmente com 15 anos optou por saxofone tenor há quatro anos na Banda Filarmónica Mourisquense, de Mouriscas. Para ele é a oportunidade de “viver experiências novas, algo sempre agradável, a música dá-me mais conhecimentos”, diz. Além disso funciona como algo terapêutico, como que “um passatempo que me alivia da escola”.

A Inês Alves, de 14 anos, escolheu tocar saxofone alto na Banda Filarmónica Mourisquense motivada pelo sentimento de pertença. Há três anos “via a Banda tocar e sentia que também queria”. Considera que “com estudo toda a gente pode conseguir e a música vai sempre fazer parte da minha vida mesmo que não profissionalmente. Relaxa-me obrigando a grande concentração e organização”, confessa.

Já Sara Martins, de 12 anos, toca flauta transversal igualmente na Banda Filarmónica Mourisquense, a quem a música traz “muita felicidade”, por isso sonha com um futuro profissional ligado à música, gostando do contacto com o público. Na Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes, frequenta o Curso Básico de Música já a pensar no futuro.

Para este concerto a preparação “foi um bocadinho diferente porque não estamos habituados a tocar com voz”, nota, sem que esse facto lhe retire entusiasmo.

Músicos da Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante a montagem do espetáculo com Miguel Gameiro nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. Créditos: mediotejo.net

Outro saxofone alto da AMA é Simão Santiago, de 12 anos, também de Mouriscas. Os sentidos despertaram-lhe para a música através da televisão. “Entrei para o quinto ano no Curso Básico de Música no Liceu, experimentei vários instrumentos mas escolhi o saxofone, Gosto de tocar, é um entretenimento. E quero tentar uma carreira musical, treino duas horas por dia”, revela.

Na música, o percurso de Francisco Matos, de 15 anos, prende-se com a herança de família, “com vasta tradição musical”. Além disso, revela, “tinha necessidade de encontrar um passatempo, algo para relaxar fora dos estudos”. Por isso toca saxofone tenor na AMA e na Banda Filarmónica Riomoinhense, que o ajuda a “concentrar” considerando a AMA “um projeto muito interessante, que está a ficar fantástico e onde temos muitas horas de trabalho investido”.

De Tramagal chega José Fernandes que toca na Banda Filarmónica de Montalvo, e dedica-se à percussão na marimba, vibrafone e glockenspiel. Estes instrumentos “tocam-se com baquetas diferentes, as de marimba podem ser feitas em lã para sons mais misteriosos e mais leves”, explica.

José iniciou o seu contacto com a música na bateria: “também gostava de aprender a tocar e estudei bateria durante cinco anos. No 10º ano decidi ir para a escola Canto Firme em Tomar aprender percussão”.

E espera seguir com a música “numa carreia de solista ou a participar em estágios ou em grandes orquestras como a Gulbenkian ou a Casa da Música”. Quanto à AMA, “mostra às pessoas que nem só os adultos tocam bem e conseguem realizar concertos memoráveis”.

Músicos da Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante a montagem do espetáculo com Miguel Gameiro nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. José Fernandes. Créditos: mediotejo.net

Mafalta Soares, de 19 anos, reside em Montalvo mas toca flauta transversal na Banda Filarmónica de Rio de Moinhos. “Entrei para o ensino articulado no quinto ano porque gostava de ouvir música e gostava de participar e continuei sempre apesar de ser um passatempo. Continuo a tocar e a participar em estágios”. O projeto Academia de Música de Abrantes que considera “bem estruturado” tem a jovem a mais valia de “conhecer pessoas novas”.

Duarte Guedes, de 16 anos, chegou à AMA através de um convite do professor Rudolfo Freitas precisamente por tocar percussão na Banda Filarmónica da Gançaria. “Inicialmente desconhecia o projeto AMA, mas é fantástico. Gostei muito da ideia de tocar com o artista Miguel Gameiro e acho que faltam iniciativas semelhantes pelo País”.

Desde os 8 anos que Duarte se interessa pela música “graças aos primos que são músicos militares profissionais”. Ambiciona ter uma carreira profissional ligada à música porque lhe dá “tudo. Relaxa-me, dá-me alegria, faz-me pensar noutras coisas apesar de ser muito exigente e precisar de estudar muito. Por dia agora estudo diariamente três horas, mas já cheguei a estudar seis. No conservatório passo um bocadinho por todos os instrumentos de percussão, mais na marimba onde sinto mais dificuldades. Obriga a estudar uma variedade de técnicas”, explica.

Miguel Gameiro, o convidado da Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante a montagem do espetáculo nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. Créditos: mediotejo.net

O espetáculo nas Festas da Cidade de Abrantes é “um resumo de 25 anos de música tocado brilhantemente por jovens músicos e uma maneira diferente das pessoas ouvirem e conhecerem o meu trabalho” afirma, por sua vez, Miguel Gameiro ao mediotejo.net. Canções conhecidas por todos aliadas à novidade dos arranjos tocados em orquestra, com diferentes instrumentos, são novas roupagens. “As canções estão lá, as palavras e a base melódica mas toda a musicalidade é diferente”.

Para Miguel Gameiro tratou-se de “uma experiência muito positiva” embora não sendo novidade para o artista. “É sempre bom ver as canções que começaram com uma guitarra, com um piano serem transformadas em canções de orquestra”.

Sobre o entusiasmo dos jovens, por tocarem com um artista de uma geração diferente, Miguel Gameiro considera “importante”.

Para Miguel Gameiro tratou-se de “uma experiência muito positiva” embora não sendo novidade para o artista. Foto: CMA

“Hoje em dia há muitas coisas, a comunicação é cada vez mais fluída e rápida, não a melhor comunicação, mas de forma geral muito rápida e é nestes momentos, tanto eu como eles, que podemos parar um pouco e ouvir canções que atravessam mais de duas décadas. E atualmente é difícil pensar numa canção que possa atravessar 25 anos. Era um tempo diferente de hoje e isso tem um lado positivo mostra-nos outra maneira de estar na vida, de ter tempo para as coisas, e espero que daqui saia uma experiência positiva para estes jovens, para mim e para o público”, referiu o músico, como que antecipando o sucesso do concerto no 2º dia das festas da cidade de Abrantes.

 

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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