Abrantes | “Ninguém pode garantir que nenhum aluno fica para trás”, diz diretor do Agrupamento

Os alunos devem receber em casa os exercícios e tarefas escolares para que o ensino à distância seja efetivo, mas muitos não têm computador ou acesso à Internet. Créditos: Pixabay

A pandemia da Covid-19 mudou a escola. De um dia para o outro, professores e alunos viram as suas rotinas alteradas, o ensino passou de presencial a remoto exigindo adaptabilidade, meios e criatividade. Num cenário de desigualdade social, quando ensinar e aprender depende do acesso a computadores ou até, simplesmente, de ter rede de telemóvel, é complicado garantir que ninguém fica para trás. A incerteza reina no que diz respeito ao restante ano letivo, particularmente depois das declarações do primeiro ministro, António Costa. Afinal o encerramento dos estabelecimentos de ensino pode ir além da Páscoa. Mas, para já, como estão a prosseguir os trabalhos determinados pelo Ministério da Educação, em Abrantes? O mediotejo.net foi tentar perceber.

À semelhança dos restantes alunos do País, os alunos do Agrupamento nº 2 de Abrantes vivem a sua segunda semana sem aulas presenciais. O Ministério da Educação vinca que os alunos não estão de férias e envia orientações para as escolas. Mas neste novo cenário nem tudo corre bem.

Antes dessas orientações do Ministério da Educação chegarem às escolas, estas já se organizavam porque, segundo Alcino Hermínio, diretor do Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes, “não chegaram atempadamente”.

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Um trabalho “muito complexo para o qual ninguém teve oportunidade de se preparar”, considera, razão pela qual o Ministério da Educação não deu orientações mais cedo. “É um processo que começou mas está longe de estar finalizado. Vai prosseguir nas próximas semanas e meses. As escolas estão a organizar-se, a escolher caso a caso, de acordo com o ano de escolaridade, as melhores estratégias para chegar aos alunos”, explica o diretor.

O Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes contabiliza mais de dois mil alunos e 200 professores. “As dificuldades são muitas”, admite Alcino Hermínio. Sem oportunidade de planeamento, encerrando as escolas de um dia para o outro, fazer “à distância reuniões via plataformas de comunicação ou por e-mail tem sido um problema, mas estamos a encarar tudo isto como um desafio e uma oportunidade para descobrirmos novas formas de trabalhar”.

Quando ensinar e aprender depende do acesso a computadores e ligação à Internet e há alunos que se encontram em locais que nem sequer têm acesso a uma boa rede de telemóvel, Alcino Hermínio considera que “ninguém pode garantir” que nenhum aluno fica para trás. “Será inevitável!”, considera o diretor.

Situação para a qual “as escolas e os professores em particular alertavam há muito tempo”, lembra, referindo os muitos estudos que o confirmam. “A sociedade portuguesa é profundamente desigual e tem reflexos dentro da escola, que os professores não conseguem compensar plenamente e é nestas ocasiões que as pessoas têm oportunidade de perceber que essas desigualdades têm efeitos muito concretos nas escolas, que sozinhas não vão conseguir compensar”, insiste.

A Direção-Geral de Educação (DGE) apresentou na semana passada uma plataforma digital, disponibilizando à comunidade educativa um conjunto de recursos “para apoiar as escolas na utilização de metodologias de ensino a distância que lhes permitam dar continuidade aos processos de ensino e aprendizagem”.

O site “apoioescolas.dge.mec.pt” informa que “brevemente, a DGE irá disponibilizar um curso sobre metodologias de ensino a distância, procurando também desta forma apoiar as escolas e os seus docentes”.

Mas “em cada escola deverão ainda ser definidas as ferramentas e as metodologias a utilizar, tendo em conta os diferentes níveis de ensino. Na medida do possível, deve ser evitada a proliferação de ferramentas e de plataformas para que haja uma harmonização de métodos de ensino e aprendizagem em cada ciclo e, com isto facilitar a concentração dos alunos nos espaços digitais”.

Algo que, no terreno, figura-se complicado alcançar. Alcino Hermínio assegura que os professores “estão a fazer a sua parte”, aguardando que o Ministério da Educação e outros parceiros da sociedade “façam a sua parte e tentem ajudar a escola a ultrapassar essas dificuldades”.

Sabe-se que, em termos nacionais, um em cada cinco alunos não tem computador em casa e 5% das famílias com crianças até aos 15 anos não tem internet. A solução pode passar por estes parceiros – empresas, autarquias, outras instituições – “que emprestem computadores, possam melhorar a rede, e encontrar outras formas. Com um pouco de esforço talvez se conseguisse resolver os problemas de todos, ou de quase todos os alunos”, considera.

Alcino Hermínio, diretor do Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

O diretor lembra que as escolas estão numa fase inicial do processo. “Já na semana passada os professores iniciaram contactos com alguns alunos”, refere. O objetivo do Agrupamento nº 2 passa por conseguir chegar a todos os alunos até ao final desta semana. “E depois, de acordo com a natureza da situação, perceber a quem podemos pedir ajuda para resolver os problemas de acesso”.

Contudo, processos mais ou menos simples, mas sempre exigentes de alguma tecnologia, largura de banda e competências digitais dos utilizadores, não se coloca apenas do lado dos alunos. Alcino Hermínio deu conta que também os professores manifestam dificuldades nesse âmbito.

Desses 200 professores, “alguns em complemento às aulas presenciais, já trabalhavam com sucesso com os alunos à distância em várias plataformas. Mas num curto espaço de tempo generalizar esses métodos de trabalho é difícil, até porque os professores estão em casa e trabalham com recursos próprios. Estamos a descobrir que, por exemplo, há professores que têm computador sem câmara de vídeo. Portanto vão ter mais dificuldades se quiserem dar uma aula à distância. Há professores que têm filhos, que também têm de ter aulas, e só há um computador em sua casa”, esclarece.

O professor considera que na sociedade portuguesa “todos estão a dar o seu melhor”, mas define como “importante a sociedade aproveitar este momento de pandemia para perceber as profundas desigualdades que a atravessam”. Defende, por isso, um apoio urgente à escola “para que todos os alunos tenham efetivas oportunidades de aprendizagem”, em pé de igualdade.

Alcino Hermínio fala na “diversidade de cada família e de cada disciplina” e na imprevisibilidade. “Não sabemos quando é que isto vai acabar, como vão decorrer as aulas no terceiro período, se vão ser só à distância, se vai haver aulas presenciais, e isto dificulta o nosso planeamento e a nossa organização”.

Para o professor, a prioridade não passa pelo cumprimento dos programas das disciplinas, apresentando dois objetivos: “Por um lado, que não se perca o que já se aprendeu este ano, que se consolidem as aprendizagens. Por outro, que se garanta aos alunos uma proximidade, da escola e dos professores, porque estamos todos fechados em casa e daqui a algum tempo poderá ter efeitos nefastos a nível psicológico.”

Quanto às avaliações e exames dos alunos está tudo em aberto. “Não sabemos! Os exames têm implicações no acesso ao ensino superior, é uma questão complexa que o Ministério terá de pensar muito bem e tomar decisões”.

Como solução que “aliviaria bastante o trabalho das escolas e permitiria às escolas, enquanto organizações, centrar-se no que é essencial”, aponta a suspensão das provas de aferição “que não têm reflexo na avaliação dos alunos e que têm uma organização muito complexa”. Tratam-se de provas dos 2º, 5º e 8º anos, que, uma vez suspensas, diz Alcino Hermínio, permitiria aliviar a carga burocrática e de trabalho e tiraria tensão aos professores e aos alunos. “Até porque nem imagino como se pode fazer em finais de maio as provas de aferição a não ser presencialmente”. Defende ainda a suspensão das provas do 9º ano.

Neste momento, entende o diretor, seria ainda prioritário o Ministério da Educação definir orientações “muito claras” sobre o que irá fazer “porque quanto mais tarde essas definições saírem, mais trabalho inútil se vai pedir às escolas e aos professores”, nota, lembrando que as “rotinas anuais” obrigam os professores “a fazer planeamento e trabalho antecipado”.

Escola Manuel Fernandes, em Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Importa igualmente definir cenários para o final do ano letivo. No atual momento, diz desconhecer como será realizada a avaliação. “Como é que se pode fazer de uma forma credível a aviação dos alunos no final do terceiro período? O Ministério da Educação ainda não definiu como quer que as escolas trabalhem”.

Pela “complexidade” da situação, fala na possibilidade de surgirem “conflitos”, dentro de algumas semanas, entre encarregados de educação e professores. Apela, por isso, a “uma grande empatia para percebermos o lado dos pais e o lado dos professores”, apelando também a uma “grande capacidade de diálogo para limar dificuldade e encontrar o nosso caminho, não o caminho do Agrupamento nº 2, mas muito provavelmente da turma A do sétimo ano que não vai ser necessariamente igual ao da turma D do sétimo ano, porque os professores são diferentes e optaram por diferentes estratégias”.

Mesmo desconhecendo o futuro, o diretor ao Agrupamento nº 2 de Abrantes arrisca dizer que para a escola, “haverá um antes e um depois” da Covid-19.

“Alguns professores já trabalhavam à distância com os alunos em complemento da atividade da sala de aula, é provável que passem a recorrer a essas estratégias, que aumente significativamente”.

No entanto, não vê como positivo a tentativa de diluir as aulas presenciais. “Têm um papel muito importante na formação dos alunos enquanto seres humanos, no contacto com outros alunos, contacto com o professor, com a pessoa mais velha que transmite a sua experiência. É fundamental na sua formação. Eventualmente poder-se-á aliviar alguns processos burocráticos, o chamado teletrabalho pode aumentar… não faço ideia! Mas sinto que a escola vai mudar em muitos aspetos”.

Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Pais e professores prevêem terceiro período à distância

Se o pico da Covid-19 acontecer em maio, o terceiro período do ano letivo pode ter de decorrer em casa com aulas lecionadas através das plataformas digitais. Mas será um cenário viável no concelho de Abrantes?

Também Susana Martins, presidente da Associação de Pais da Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Fernandes, que integra o Agrupamento nº 2 de Abrantes, reconhece como “tempos complicados”  os que atravessamos, dando conta que “muitos alunos não têm computadores em casa para trabalharem à distância”.

Das informações que a Associação de Pais tem vindo a recolher nestas duas últimas semanas, “tem sido mais fácil para os pais que estão a acompanhar os filhos em casa e que não estão em teletrabalho”, diz, admitindo ser, no entanto, prematuro nesta fase perceber as verdadeiras necessidades dos pais.

“Não tínhamos os contactos de 1200 pais. Estamos a recolher todos os contactos e a tentar apurar como os alunos estão a ser acompanhados, porque há pais que não têm nenhuma disponibilidade; ou porque continuam a trabalhar fora de casa e os filhos estão com outras pessoas ou porque mesmo em teletrabalho têm dificuldades”, explica.

Entre essas diversas problemáticas, algumas básicas para manutenção do ensino à distância, encontramos com alguma frequência “a falta de computadores. Um pai ou uma mãe pode estar em teletrabalho mas haver um único computador em casa. Todos os dias estamos a tentar chegar a essas famílias e a escola também tem feito esse esforço, mas é preciso perceber no concreto o que falta” para que o ensino à distância possa chegar a todos os alunos e “ninguém fique para trás”.

Susana Martins (ao centro) aquando uma visita do secretário de Estado da Educação, João Costa, à Escola Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Nessa sequência de trabalho, Susana Martins refere os contactos que a Associação tem mantido com entidades regionais e nacionais, nomeadamente a Federação de Associações de Pais das Regiões do Oeste, Lezíria do Tejo e Médio Tejo (FAPOESTEJO), no sentido de “ajudar a encontrar uma solução”, principalmente se o terceiro período do atual ano letivo tiver de ser lecionado à distância.

“Nada é certo! Garantimos que estamos muito atentos e em contacto com o Ministério da Educação” assegurou a responsável, notando que a existência de desigualdades é um facto. “Há desigualdades! Já havia desigualdades mesmo nas escolas públicas. Umas têm mais e melhores equipamentos do que outras. A nossa escola tinha deficiências informáticas outras estão bem equipadas” atenta.

Susana Martins observa ainda que também os professores manifestam dificuldades para o ensino distância. “Alguns alunos têm recebido material de trabalho em casa de várias formas outros nem tanto. E isso está relacionado com os equipamentos que cada aluno dispõe e que cada professor dispõe”. Avança com um exemplo: “Os alunos todos têm telemóveis mas usam-nos para as redes sociais, agora verificamos que têm muitas dificuldades em abrir plataformas que permitem fazer as tarefas escolares”.

Além disso “existem alunos cujos pais são info-excluídos, sem aptidões informáticas. É agora que estamos a perceber tudo isto!”, afirma.

Mas no meio da tempestade, encontramos uma trégua ou outra bonança, e as iniciativas de solidariedade repetem-se, designadamente “entre os próprios pais” dos alunos da Escola Dr. Manuel Fernandes. “Há entreajuda entre pais para encontrar, com a escola, o que for preciso para que a tarefa de ensinar e aprender chegue a bom porto”.

Ainda em Abrantes, noutras escolas do concelho, incluindo do Agrupamento nº1, outros professores e pais organizam-se da forma que conseguem. O mediotejo.net conhece o exemplo de um professor que diariamente lança desafios aos seus alunos do terceiro e quarto ano.

Em maior ou menor quantidade, os estudantes recebem via WhatsApp exercícios, desafios e até sugestão para jogos sobre as mais diversas temáticas aproveitando designadamente as efemérides, como do Dia Mundial da Árvore ou o Dia Nacional do Estudante.

Depois de os resolverem, têm de os reenviar para o professor. Um esforço conjunto com um grupo de pais em contacto diário com o docente. Só hoje o professor tentou apurar junto dos pais, ligados através do grupo no WhatsApp, quais os alunos com acesso a computadores, impressoras e internet, e quem entre os encarregados de educação possuía e-mail. Sendo certo que nem todos responderam afirmativamente.

Aos alunos sem acesso à Internet ou computador, o ministério recomenda “um contacto através de organizações e associações locais ou da Junta de Freguesia”. No concelho de Abrantes, por exemplo, Alvega e Rio de Moinhos já disponibilizaram os serviços da Junta de Freguesia para imprimir e distribuir fichas e outros trabalhos escolares pelos alunos dos seus territórios.

Alunos carenciados recebem refeições durante o encerramento das escolas

Apesar do encerramento das escolas, por causa da pandemia de Covid-19, são 48 os alunos com escalão A do concelho de Abrantes que continuam a receber o almoço, com o município a garantir as refeições dos alunos mais carenciados. E são duas as escolas de referência para receber os filhos dos profissionais de saúde e forças de segurança: Escola Ensino Básico António Torrado (Agrupamento de Escolas nº 2) e Escola Ensino Básico Lucília Moita (Agrupamento de Escolas nº 1)

Na Escola António Torrado “não chega a ser uma nova realidade, porque só muito pontualmente é que temos alunos”, dá conta Alcino Hermínio. “Tivemos no primeiro dia um aluno, há uns dias outro, portanto na verdade não tem sido um recursos utilizado pelos profissionais de saúde e forças de segurança”.

Quanto às escolas abertas para os alunos mais carenciados, o diretor confirma que os alunos do escalão A vão buscar a refeição à escola. “Não há problema de maior quanto ao primeiro ciclo, quanto ao terceiro ciclo há consumo na Escola Octávio Duarte Ferreira, em Tramagal”.

Na Dr. Manuel Fernandes inicialmente também estava previsto o consumo na escola, mas “os alunos que se inscreveram ou que manifestaram interesse em vir à escola consumir – porque não havia possibilidade de entregar – desistiram. Na Duarte Ferreira têm aparecido quase todos os dias um conjunto de alunos, cerca de uma dezena. A situação está normal, no sentido que o esquema de trabalho que foi organizado e está a funcionar”, refere.

No concelho de Abrantes são 275 os alunos sinalizados com escalão A, mas por decisão dos Encarregados de Educação apenas 48 optaram por continuar a receber o almoço para os seus educandos.

Ou seja, “na escola de Alvega são cinco refeições, na Escola Maria Lucília Moita são 10, na Escola do Pego uma criança sinalizada, em Rossio ao Sul do Tejo são cinco sinalizadas, na Escola dos Quinchosos temos três, no Jardim de Infância de São João temos quatro, na Escola da Chainça temos oito, em Rio de Moinhos temos uma e na Escola de Tramagal temos 11”, indicou Celeste Simão, vereadora com o pelouro da Educação e Ação Social. A autarquia anunciou que as refeições são entregues nas respetivas escolas.

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