Abrantes | Na Associação Vidas Cruzadas o Natal faz-se “todos os dias do ano”

Vânia Grácio, presidente da Associação Vidas Cruzadas. Créditos. mediotejo.net

As Redes Locais de Intervenção Social (RLIS) vivem dias incertos. A Segurança Social pode assumir de volta os processos de famílias acompanhadas por algumas IPSS. Estas Redes, que trabalham na linha da frente da Ação Social, podem ver a Segurança Social retomar respostas, designadamente do SAAS (Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social), prestadas pelas instituições. É o caso da Vidas Cruzadas com provas dadas no âmbito da RLIS no concelho de Abrantes, atendendo 900 pessoas, só em 2019.

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O protocolo termina no final de dezembro e a “prenda” que a Associação pede no sapatinho, passa por “manter as equipas para poder manter as respostas sociais com a mesma qualidade” que a IPSS tem prestado até ao momento. O mediotejo.net foi falar com a presidente Vânia Grácio para perceber o trabalho de uma Associação onde é Natal “todos os dias do ano”.

Aquela frase bastante batida sobre o Natal ser quando o Homem quiser aplica-se realmente na prática no que toca ao trabalho solidário da Associação Vidas Cruzadas, de Abrantes. A instituição existe legalmente constituída desde 2007, e nasceu de uma vontade de criar uma resposta inovadora no concelho, que respondesse às lacunas sentidas na área social.

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“Tramagal é uma terra rica em associações, temos imensas, cada uma a trabalhar numa determinada área, e havia a necessidade de criar uma associação que tivesse um foco mais abrangente na área social. Estava a acabar o meu curso de Serviço Social e decidimos criar esta Associação que hoje cá está a fazer o seu trabalho”, explicou a fundadora da Associação Vidas Cruzadas, Vânia Grácio, ao mediotejo.net.

Há 12 anos, Vânia e as pessoas que à presidente se associaram iniciaram o trabalho “na casa uns dos outros” aproveitando os recursos que tinham bem como as capacidades de uns e outros, trilhando caminho e definindo o que queriam fazer. Encaixaram-se num espaço “nos camarins” do Teatro Tramagalense que lhes deu casa e onde se mantém a sede.

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Associação Vidas Cruzadas, iniciativa parceiros. Créditos: AVC

Mais tarde a Associação propôs junto da Segurança Social adquirir o estatuto de IPSS (Instituição Privada de Solidariedade Social) e a partir daí “integramos algumas parcerias em Abrantes, nomeadamente a Rede Social, a Comissão Social de Freguesia, a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens” sempre num trabalho articulado com parceiros da comunidade abrantina.

Depois propuseram, através de candidatura, criar o Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP), “a nossa primeira grande resposta protocolada com a Segurança Social e que se mantém até hoje. Ao mesmo tempo começamos a criar a nossa Loja Social, a funcionar no antigo Jardim de Infância de Tramagal”.

O CAFAP visa a qualificação familiar mediante a aquisição e o fortalecimento de competências parentais nas diversas dimensões da vida familiar e compreende níveis diferenciados de intervenção de cariz pedagógico e psicossocial que, de acordo com as características das famílias integram três modalidades: preservação familiar; ponto de encontro familiar; e reunificação familiar.

A Loja Social, a funcionar também com um serviço itinerante, “vai às 13 freguesias do concelho para dar acesso às pessoas que não possam ir a Tramagal” diz, acrescentando que dá resposta atualmente a cerca de 900 pessoas. A Loja está aberta a toda a comunidade, sendo possível fazer uma inscrição do agregado familiar e beneficiar gratuitamente de todos os artigos, mediante análise social da situação.

“Roupa, calçado, brinquedos, artigos de casa. Inicialmente quando estávamos no Teatro tínhamos alguma capacidade para guardar móveis. Neste momento não temos um espaço para isso. Portanto, o que fazemos quando nos fazem doações de móveis e eletrodomésticos, é tentar canalizar esses artigos para as pessoas” inscritas na Loja Social.

As roupas chegam de todo o lado e o Município tem uma parceria com uma empresa de Braga, com contentores espalhados pelo concelho de Abrantes. “Faz parte da responsabilidade social dessa empresa: uma parte da roupa recolhida no concelho deve voltar para fins sociais” e a Associação Vidas Cruzadas é responsável pela distribuição.

Loja Social da Associação Vidas Cruzadas. Créditos: AVC

Questionada sobre se Abrantes é um concelho pobre, Vânia Grácio considera que “haverá outros mais pobres e outros em melhores condições”. Contudo, reconhece “uma evolução” em Abrantes embora “ainda existam muitas situações de pobreza envergonhada, de pessoas que não pedem ajuda porque têm vergonha, principalmente nas zonas mais isoladas do concelho onde é mais difícil chegar” diz, acusando “um esforço” da instituição para chegar a essas pessoas.

É aqui que entra a Rede Local de Intervenção Social (RLIS) e o Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS), um serviço que assegura o atendimento e o acompanhamento social de pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade e exclusão social, bem como de emergência social em todo o concelho de Abrantes.

“Também trabalhamos muito próximo dos presidentes de Junta e sempre que temos informação de alguma situação, de uma família ou de alguém que viva isoladamente, que esteja em dificuldade, vamos ao terreno para avaliar a situação e tentar encontrar respostas” sociais, indica a presidente da Vidas Cruzadas.

Loja Social itinerante da Associação Vidas Cruzadas. Créditos: AVC

O trabalho da Associação “é semelhante ao longo do ano. A nossa preocupação não é só agora, o Natal é o ano todo. Claro que nesta época há sempre uma atenção especial, até por parte da comunidade que se sente mais motivada para ajudar” nota Vânia Grácio.

Assim a Associação contou, neste Natal, com a doação de bens alimentares de uma empresa da região e foram feitos alguns cabazes distribuídos pelas famílias que acompanham no CAFAP como na RLIS. “Tentámos fazer uma triagem das famílias que não estão a receber apoio alimentar de outros serviços e respostas”.

E em parceria com outras entidades que trabalham na área da infância e juventude, à semelhança de 2018, “com bastante sucesso” criaram a iniciativa de Natal Solidário. “As crianças do concelho que são acompanhadas pelas diferentes entidades escreveram a Carta ao Pai Natal, fizeram os seus pedidos, colocados numa página do Facebook criada para o efeito, e as pessoas apadrinharam esses pedidos” conta. Neste Natal a Associação atendeu os pedidos de 50 crianças.

Na RLIS, a Vidas Cruzadas realizou mais de 900 atendimentos, em 2019, com duas assistentes sociais a trabalhar nessa resposta social. Reconhecendo as dificuldades de “chegar a todo o lado” destaca a articulação com parceiros que estão mais perto como centros de dia, lares de terceira idade e outras instituições que trabalhem no terreno.

A Associação Vidas Cruzadas conta com o trabalho de nove profissionais, sete técnicos e duas ajudantes de ação direta. Para 2020, o principal foco da Associação “é manter os serviços que temos à comunidade e manter os postos de trabalho”.

Na área social, a manutenção dos postos de trabalho está “dependente dos financiamentos externos, dos protocolos existentes. Tentamos que as pessoas que trabalham na Associação tenham estabilidade. Estamos constantemente a investir nos profissionais que trabalham connosco para aprofundar conhecimentos, para prestar um trabalho cada vez mais sólido, eficaz, e que melhor responda às necessidades da comunidade”.

Por isso a Vidas Cruzadas quer “manter as equipas para continuar a desenvolver o trabalho feito” pela Associação até ao momento.

Para o SAAS a Associação tem protocolo até final de 2019. “Dia 1 de janeiro 2020, ainda não sabemos. A partir de janeiro não sei se estes 900 atendimentos vão deixar de ter resposta dada por nós. Aguardamos orientações por parte da Segurança Social” que 11 dias antes do final do ano (momento da realização desta entrevista) ainda não tinham chegado.

Na RLIS, firmou-se um protocolo para três anos. Ou seja, para a instituição assumir o SAAS “a candidatura aos fundos comunitários foi por 36 meses. Como conseguimos fazer uma boa gestão do orçamento – tínhamos orçamento remanescente -, foi possível pedir mais um ano de projeto. E a autorização de funcionamento termina no dia 31 de dezembro”, explica.

A continuar no próximo ano, só com o aval da Segurança Social, sistema que pode voltar a receber os processos de famílias acompanhadas pela instituição, pelo menos até à transferência de competências de Ação Social para o Município, responsável a partir de 2021 pelo SAAS.

Espaço da Associação Vidas Cruzadas em Abrantes. Créditos: AVC

Fazendo um balanço dos últimos 12 anos, Vânia Grácio fala numa “evolução” no concelho. “Em termos de intervenção conseguimos trabalhar muito bem em parceria em Abrantes, a maior dificuldade acaba por ser a falta de respostas mais específicas e o desgaste dos profissionais, porque trabalhar nesta área é muito desgastante e pode deixar alguma frustração. Estamos todo o dia a trabalhar com os problemas das outras pessoas e a tentar encontrar soluções, às vezes para problemas que as próprias pessoas, ou não identificam ou têm muita resistência”.

Em termos de recursos, Vânia afirma que os profissionais da área social habituam-se a fazer omeletes sem ovos. Mas a boa comunicação com outras entidades representa “uma mais valia” e as dificuldades vão sendo ultrapassadas. “Não temos uma postura assistencialista, a nossa lógica é ajudar a pessoa a orientar a sua vida mas não fazemos por ela, salvo em situações limite”.

Esta missão envolve ainda um trabalho psicossocial, de diálogo, de atenção, de conversa. “Às vezes as pessoas só querem conversar, ou porque têm alguma dúvida e vêm até nós, mais na procura de um aconchego e de uma palavra amiga do que de outro tipo de resposta”.

Vânia Grácio numa iniciativa da Associação Vidas Cruzadas. Créditos: AVC

No CAFAP, a Associação atendeu, em média, 60 famílias por mês, em 2019. “Essencialmente famílias encaminhadas pelo Tribunal, com situações ou de conflitos entre os pais ou de negligência, situações de risco e de perigo”.

Vânia nota “um acréscimo” comparativamente aos anos anteriores, principalmente situações de conflitos parentais, e o trabalho da Vidas Cruzadas passa por criar canais de comunicação, embora fora do âmbito da “mediação familiar”.

Tal acréscimo significa: “pais que se divorciaram e não conseguem entender-se quanto aos cuidados dos filhos, uma fase de adaptação da nova dinâmica familiar. Há muitas dificuldade de comunicação entre estes casais” garante.

A Associação disponibiliza um horário alargado de atendimento ao público, em três dias por semana está de portas abertas até às 19h00, adaptando-se às necessidades das famílias. Ao longo destes 12 anos “as problemáticas foram-se alterando. A maioria das pessoas trabalha e só pode vir ao nosso serviço no horário pós-laboral. Há alguma situações que acompanhamos inclusivamente ao sábado”, indica.

Recorda que, no arranque da Associação, os técnicos deparavam-se com “mais situações de negligência, dificuldade em cuidar dos filhos nomeadamente nos cuidados de higiene, a higiene habitacional, a organização do espaço, a organização do orçamento familiar”.

Hoje a realidade mudou. “São mais questões de comportamento das crianças com as quais os pais não conseguem lidar, as crianças estão mais desafiantes e os pais têm maior dificuldade em impor regras e limites. As situações de violência doméstica também aumentaram” dá conta explicando que estas situações estão ligadas à evolução da sociedade. “São novas famílias, uma nova geração”, vinca.

A Associação Vidas Cruzadas já foi homenageada já em diversas ocasiões, mereceu a atribuição da Medalha da Cidade no ano do centenário, entregue pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Créditos: AVC

Às portas de um novo ano, a Vidas Cruzadas indica alguns projetos para 2020. Uma das áreas de investimento, e tem previsto em plano de ação para o próximo ano, é no âmbito da saúde mental, especificamente na área do bem estar das pessoas.

A saúde mental é uma problemática que preocupa a Associação Vidas Cruzadas. “As respostas são muito poucas. Temos situações graves no concelho que nos preocupam imenso. Muitas nem sequer têm acompanhamento médico ao nível da especialidade. Situações de adultos ainda ao cuidados dos pais já com idade avançada e que não conseguem dar resposta a estes filhos”.

A capacidade de resposta das instituições na área da saúde mental “é limitada e conseguimos mais facilmente encontrar resposta num lar de terceira idade do que num lar residencial para pessoas com problemas de saúde mental. É o parente pobre no nosso País e Abrantes não é exceção”, afirma.

Vânia Grácio lembra que a saúde mental “é transversal a toda a nossa vida. Começa na gravidez e vai até à terceira idade” por isso defende investimento e políticas sociais mais focadas na prevenção da saúde mental e de intervenção precoce. “A nossa sociedade tem de mudar e todos temos essa responsabilidade”, sublinha.

Outro projeto pensado para executar futuramente está relacionado com a violência doméstica. Sendo parceiros e fundadores da Rede Especializada de Intervenção na Violência em Abrantes, uma das lacunas sentidas passa pelas respostas de emergência para estas situações.

A ideia não passa pela criação de uma casa abrigo mas antes “um espaço onde possamos dar resposta, não só a violência doméstica, mas situações de vulnerabilidade social, porque também nos vamos deparando com situações de sem abrigo, situações de passantes que não têm onde pernoitar e é difícil arranjar uma resposta no imediato” indica, ou seja, um abrigo transitório.

Projeto Bairro ConVida em Abrantes. Créditos: AVC

A Vidas Cruzadas também possui o Centro de Recursos de Ajudas Técnicas que cede equipamentos a título gratuito como cadeiras de rodas, camas articuladas, andarilhos, cadeiras sanitárias entre outros equipamentos, em funcionamento desde 2009. Este ano, emprestaram equipamentos a 76 pessoas e são 102 os equipamentos entregues, numa parceria entre a Associação, o Município de Abrantes, o Centro Hospitalar do Médio Tejo e o Agrupamento de Centro de Saúde, sendo a Vidas Cruzadas responsável pela gestão do projeto e atribuição dos equipamentos.

O Bairro ConVida, ainda a decorrer no Bairro de Vale de Rãs, em Abrantes, dinamizado pelo Município é outro projeto “na vida” da Associação. A Vidas Cruzadas, como parceiro deste projeto transferiu para o Edifício Millennium um serviço de atendimento do CAFAP.

Pelo seu reconhecido trabalho solidário, de ajuda ao próximo, de ação social, a Associação Vidas Cruzadas já foi homenageada em diversas ocasiões, tendo merecido inclusivamente a atribuição da Medalha da Cidade, no ano do centenário.

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