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Quinta-feira, Julho 29, 2021

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Abrantes mais pobre com morte do artista Mário Rui Cordeiro

A cidade de Abrantes acordou no sábado com a notícia da morte de Mário Cordeiro. Sentimento de perda e de tristeza num dia que acordou, também ele, vestido de tons de cinzento. Mário Rui Cordeiro era livros, era desassossego, era ruas floridas, era Abrantes. Abrantes perdeu uma das suas referências artísticas e culturais. Muito debilitado fisicamente, nos últimos anos, os locais que frequentava notaram a sua ausência nos últimos dias. Os bombeiros foram encontrá-lo na sexta-feira à noite, em sua casa, já cadáver.

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Morreu esta semana em Abrantes, cidade que adotou desde muito novo, o Mário Rui Cordeiro. Tinha 66 anos [nasceu em Santa Margarida/Constância no dia 28 de outubro de 1950]. Poeta, pintor, desenhador e encadernador, o Mário Rui, desassossegado e desassossegador, teve muitos misters.

Escrever sobre Mário Cordeiro é escrever sobre a sua cidade. Aquela a que está indelevelmente ligado desde a infância. Aquela que escreveu, aquela que desenhou.

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Mário Rui Cordeiro nasceu em Santa Margarida/Constância no dia 28 de outubro de 1950. Cedo adotou Abrantes como a cidade da sua vida. Foto: DR
Mário Rui Cordeiro nasceu em Santa Margarida/Constância no dia 28 de outubro de 1950. Cedo adotou Abrantes como a cidade da sua vida. Foto: DR

Ou nas palavras de Estevão de Moura, na pequena edição intitulada “C’est triste la vie de l’artiste” retrospectiva de Mário Cordeiro: “Escrever sobre ele, como Protagonista, é o mesmo que escrever sobre a cidade em que ele, em vagas sucessivas, criou e destruiu (criativamente) a sua imagem… O Mário Rui foi um Protagonista da cidade.”

Estêvão de Moura in “C’est triste la vie de l’artiste”, Município de Abrantes.

 

“E há sempre perigo de a cidade esquecer os seus artistas.”

Isilda Jana in: “C’est triste la vie de l’artiste”, município de Abrantes.

“Um artista não tem um nome definitivo, ou antes: nomeia-se um artista através da vida e da expressão, no acumular diário de sinais e raiva, de textos e anos, desenhos e ódio.”

José-Alberto Marques, Abrantes 1982, in: “C’est triste la vie de l’artiste”, município de Abrantes.

“Abrantes ficou mais pobre.
Perdeu um filho.
Perdeu um artista.
Perdeu cor.
Perdeu flores.
Mário Cordeiro aquele que dava mais cor, mais vida, mais flores à nossa cidade”.

Bruno Tomás, autarca de Abrantes, 04 dezembro 2016

Poeta, pintor, desenhador e encadernador, o Mário Rui, desassossegado e desassossegador, teve muitos misters. Foto: DR
Poeta, pintor, desenhador e encadernador, o Mário Rui, desassossegado e desassossegador, teve muitos misters. Foto: DR

“Trata-se de um pequeno território dum mundo que certamente não existe. A força é uma catedral entre laranjais. Escrevam sobre isto, dizem. E nós escrevemos para disfarçar uma impossibilidade. Depois chegam as coisas que andam connosco pelos caminhos e os que são tristes sorriem e os alegres choram.

Assim se cumpre a nossa inclinação para o que é magnífico. Somos frios, às vezes somos também os que sabem os nomes mais serenos: água, fogo, ternura. Esta noite podia ser um século de força na nossa vida. Será numa noite destas que acenderemos os archotes aos amigos que partem. Vão sós. É assim o silêncio. Então aprendemos a dar importância à nossa primeira descoberta e o mundo inteiro estabelecerá que se deve falar disto ou daquilo.

E numa noite destas procuraremos pelas ruas a palavra porque partimos e chegamos e os nossos braços buscarão a distância. Falar-se-á dela sempre que se necessitar de um objecto batido pela luz. Uns dirão: é o sol e o mar. São algas e bichos. Outros: é um nome.

Será uma coisa destas – digo eu e paro de escrever, porque escrever pesa-me imenso.”

Mário Rui Cordeiro, in Central Park

Escrever sobre Mário Cordeiro é escrever sobre a sua cidade. Aquela a que está indelevelmente ligado desde a infância. Aquela que escreveu, aquela que desenhou. Foto: DR
Escrever sobre Mário Cordeiro é escrever sobre a sua cidade. Aquela a que está indelevelmente ligado desde a infância. Aquela que escreveu, aquela que desenhou. Foto: DR

Sónia Pedro, cronista do mediotejo.net, escrevia há precisamente um ano (16 dezembro 2015) sobre o artista que não conhecia. Mas de quem ouvia falar e que procurava. “Escrevo hoje sobre um artista que não conheço. Sabem onde o posso encontrar?”…

“Mário Rui Cordeiro, poeta, pintor, desenhador de Abrantes”, por Sónia Pedro

Escrevo hoje sobre um artista que não conheço. Não conheço Mário Cordeiro. Como não conheço tantos outros artistas que viveram esta e nesta cidade. Alguns me falaram sobre ele. Sabem onde o posso encontrar?

Na semana passada de passagem pelo Fundo Local da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, descobri uma pequena edição intitulada “C’est triste la vie de l’artiste” retrospectiva de Mário Cordeiro, referente a uma exposição dedicada aos trabalhos artísticos de Mário Cordeiro e organizada pela Câmara Municipal de Abrantes em junho de 2002, e que teve o apoio de várias pessoas que cederam os quadros adquiridos.

Procurei perceber a sua estória de vida, a sua obra pelos parcos fragmentos impressionistas que descobri aqui e além. Continuo a sentir o vazio que falta ao conhecimento e reconhecimento deste homem, deste nosso artista.

Mário Rui Nunes Cordeiro, de seu nome, nasceu na aldeia de Santa Margarida da Coutada, no concelho de Constância, em meados do século passado. Cedo se mudou para a cidade de Abrantes e a viveu como sua.

Escrever sobre Mário Cordeiro é escrever sobre a sua cidade. Aquela a que está indelevelmente ligado desde a infância. Aquela que escreveu, aquela que desenhou.

A sua vida esteve invariavelmente ligada aos livros, às letras. O seu pai exerceu durante meia centena de anos a profissão de encadernador.

Frequentou o Colégio La Salle e a Escola Industrial e Comercial de Abrantes onde venceu, pela primeira vez, com 14 anos um Prémio Literário, com o conto “O Contador de Histórias”. Outros se lhe seguiram. Assim como a participação em vários jornais.

No ano de 1969 foi convidado a integrar a organização das “Jornadas Culturais de Abrantes”, numa organização do Cine-Clube de Abrantes. Neste mesmo ano aderiu à Campanha Local do MDP CDE para as Eleições Democráticas.

Em Portugal viviam-se dias conturbados. E várias vezes foi interrogado pela PIDE-DGS, e posteriormente forçado ao exilio por não querer participar na guerra colonial. Remetido ao exílio passou por Bruxelas, Paris, Madrid.

Frequentou então em Paris, a Escola N.S. de Belas Artes e a Universidade Vincenne e obteve uma Bolsa de Estudo da Ent’raide Universitaire. A Cidade da Luz era, como ainda hoje, uma cidade cultural por excelência. Por lá viviam artistas e intelectuais exilados como Joan Miró, Pablo Picasso e Jean Paul-Sartre.

Em setembro de 1974, interrompeu os seus estudos e regressou a Portugal, a Abrantes. Participou em diversas exposições em várias localidades.

Não se sabe ao certo quantos livros seus ou participações em antologias e edições coletivas estão publicados. Sabe-se que em 1969 publicou “Mãos para Dedos”, uma publicação da Escola Industrial e Comercial de Abrantes. Posteriormente, em 1984 publicou um livro de poesia “A Nau Eléctrica” e que poderão encontrar na Biblioteca Municipal António Botto.

O seu nome figura nos roteiros de Arte publicados pela Secretaria de Estado da Cultura.

Mas mais uma vez, a maioria das pessoas ignora, hoje, que Mário Rui Cordeiro foi uma referência cultural: “Que teve um estatuto que o projectava como uma grande esperança da poesia portuguesa” Estêvão de Moura in “C’est triste la vie de l’artiste”.

Escrevo hoje sobre um artista que não conheço. Sabem onde o posso encontrar?…

Sónia Pedro, in mediotejo.net

*A Câmara de Abrantes inaugurou no dia 10 de setembro, na quARTel – Galeria Municipal de Arte, a exposição coletiva “100 anos de artes plásticas em Abrantes”, tendo conseguido reunir no mesmo espaço dezenas de trabalhos de artistas plásticos que marcaram a história das artes nesta cidade no último século. É um dos locais onde o Mário Rui Cordeiro pode ainda ser encontrado.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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