Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sábado, Outubro 23, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Abrantes | José Paisana, treinador da seleção sub-19, diz que no futebol feminino “há muito para crescer”

José Paisana nasceu a 15 de janeiro de 1961. Natural de Abrantes, concretamente de Alvega, é atualmente o treinador nacional do futebol feminino sub-19. Mas antes de treinar, jogou futebol durante 12 anos, fazendo a sua formação em clubes como o Sporting de Abrantes e Dragões de Alferrarede. Neste último clube jogou também alguns anos no escalão sénior. No inicio de 2012 ingressou na Federação Portuguesa de Futebol (FPF) para orientar a Seleção Nacional feminina de sub-19 a qual comanda na fase final do Campeonato da Europa da categoria nesse mesmo ano na Turquia.

- Publicidade -

Licenciado em Educação Física pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, iniciou a sua carreira de treinador nos escalões de formação do SL Benfica, onde permaneceu 13 anos, conquistando vários títulos e somando uma incursão pelo futebol profissional, quando fez parte do corpo técnico da equipa B do clube. Seguiram-se passagens pela formação do CF Estrela da Amadora e do CAC Pontinha antes de rumar ao Sporting CP para assumir a coordenação técnica das Escolas Academia Sporting. Colaborou ainda durante vários anos com o gabinete técnico da Associação de Futebol de Lisboa na liderança de várias seleções distritais.

Em outubro as sub-19 irão disputar a primeira fase de qualificação para o Campeonato da Europa cuja fase final terá lugar na República Checa no verão de 2022. É casado, tem dois irmãos, o irmão reside em Abrantes e a irmã em Lisboa. José escolheu Colares, no concelho de Sintra, para viver. E o mediotejo.net conversou com o selecionador nacional na sua terra natal, Alvega, na margem do rio Tejo, onde começou a sua paixão pela bola.

- Publicidade -

Referindo-se ao José Paisana, nos jornais é comum ler-se selecionador nacional e igualmente comum ler-se treinador nacional. Quer fazer a diferenciação?

A nomenclatura é neste sentido; existe o selecionador nacional A, responsável por toda a estrutura feminina da Federação, e depois existem os treinador nacionais que são responsáveis por cada seleção. Esta é provavelmente a terminologia mais correta. Mas as pessoas vão dizendo selecionador nacional. No meu caso sou o treinador nacional da Seleção Nacional feminina sub-19 para a próxima época.

Que começa agora. O primeiro estágio de observação da temporada 2021/2022 decorreu há poucos dias e contou com de 24 jogadoras convocadas.

Marca o inicio da época embora já tenhamos feito em maio e junho estágios no sentido de começar a recuperar qualquer coisa para a próxima época porque até abril de 2021 as seleções de formação estiveram completamente paradas.

Depois de um período longo sem treinos. Calculo que com a pandemia não treinaram…

Algumas atletas sim. As que treinaram com as seniores, que eram da formação, e com a equipa do seu grupo principal. As restantes jogadoras faziam trabalho em casa orientado pelos seus treinadores. Algo difícil mas no fundo era só condição física, trabalho de manutenção em termos daquilo que é a condição física de cada atleta. Estavam paradas. Não havia treino de equipa, absolutamente nada. Paragem total.

José Paisana despertou a sua paixão pelo futebol nas margens do rio Tejo, na sua terra natal, Alvega, no concelho de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Como foi esse primeiro estágio?

Em maio, quando a DGS autorizou a abertura e os treinos presenciais a partir daí criamos condições para se fazer convocatórias e treinarmos. Foi um treino com todas as condições. Um das coisas que aconteceu em espaço de seleção nacional é que normalmente as jogadoras ficam a pares, em quartos duplos e ficaram em individuais, foram testadas antes do estágio. Ficamos em bolha 24 horas até recebermos os resultados e a partir do momento que obtivemos o resultado, entrámos numa situação normal. Em treino ninguém tinha máscara, por vezes os treinadores sim, e no espaço de refeições mantínhamos a máscara. E começámos com a observação das jogadoras, como estavam, quem eram. O processo iniciou-se ali.

E como se encontravam em termos físicos?

Em termos físicos e não só, em termos do conhecimento do que é o nosso jogo. A não prática permite e acontece esquecimento. Se não vivenciamos a atleta vai perdendo aquelas vivências segundo as quais as atletas estão habituadas. Fomos a pouco e pouco, com conteúdos simples recuperando aquilo que entendíamos que era necessário para aquele momento da época; a abertura dos trabalhos. Para nós em espaço de Seleção Nacional é fundamental para aquilo que queremos ensinar em termos técnico-táticos. As questões físicas vêm um bocadinho por arrasto. Não nos preocupamos em demasia com as questões físicas porque sabemos que a jogadora teve algum cuidado, em termos alimentares, treino, nem que fosse individualizado. Foi uma situação normal.

E emocionalmente?

Foi algo maravilhoso. Não nos encontrávamos há 16 meses. Chegar àquele espaço de elite e excelência para todos nós, em que as coisas acontecem, foi uma nova alegria.

Em outubro vai ser disputada a primeira fase para o Campeonato Europeu, correto?

Sim. Temos um plano de preparação por semestre. As seleções preparam-se em espaços temporais, por pequenas reuniões do grupo, das convocatórias. Seleção Nacional é isto mesmo. Há convocatórias, há trabalho, as jogadoras vão novamente para os clubes. Neste primeiro semestre que decorre até acontecer a primeira ronda, que é o primeiro apuramento, vamos reunir em setembro e teremos um período preparatório com competição, jogos particulares.

Jogo da seleção nacional de futebol feminino sub-19 com a Espanha. Créditos: Federação Portuguesa de Futebol

Com que países?

Temos connosco a Dinamarca, República da Irlanda e a Noruega. Um torneio particular organizado pela nossa Federação mas com um nível de exigência altíssimo, com estas duas seleções nórdicas escolhidas por nós com uma matriz de jogo que desejamos para aquilo que vamos encontrar. Continuando em outubro, onde vamos ter a primeira ronda – a UEFA chama-lhe primeira ronda – será o primeiro apuramento e vamos tentar apurar-nos para o Campeonato da Europa. Até lá ainda vamos ter dois mini estágios no fim de setembro e no inicio de outubro. Temos de nos preparar de uma forma rápida e com qualidade.

A fase final de qualificação para o Campeonato da Europa terá lugar na República Checa de 27 de junho a 9 de julho de 2022, mas para lá chegar a equipa nacional terá de ultrapassar a segunda ronda de qualificação na primavera de 2022.

Exatamente. Nesta organização da UEFA, este ano houve nova abordagem, nova reorganização dos campeonatos destes apuramentos, no sentido das competições ficarem mais equilibradas. Mas antes de chegarmos a esta segunda ronda ainda há um processo de apuramento complexo. A UEFA tem as suas federações internacionais, cerca de 48 neste campeonato das sub-19, vão-se agrupar a quatro e vão fazer jogos em sítios diferenciados. Portugal tem Espanha, República Checa e Eslováquia no seu grupo e por decisão, quando foi o sorteio, este mini apuramento vai realizar-se em Portugal, mas noutro espaço da Europa vão-se reunir outras 4 seleções no país que vai organizar. Portanto são 11 mini torneios com grupos de 4. No final, os três primeiros passam a essa segunda ronda, o quarto classificados destes mini torneios desce de divisão, ou seja, passa para uma segunda divisão onde estão as equipas de ranking mais inferior. Nesta primeira ronda Portugal está nas 28 melhores da Europa. Estamos na primeira divisão e há uma segunda divisão onde estão outras 28 seleções. Portanto, a adversidade de encontrar a República Checa, Espanha, sobretudo, porque é a primeira do top Mundial e Europeu, e Eslováquia, cria-nos alguma dificuldade.

São então 24 mulheres – embora muito jovens – escolhidas para integrar a seleção nacional sub-19 de futebol. Como é treinar mulheres?

É um desafio fantástico. Estive na formação masculina durante 25 anos. Felizmente tive a sorte, o trabalho e a competência de estar nos sítios melhores da formação. Quando fui convidado para treinar o futebol feminino e principalmente trabalhar no espaço de Seleção Nacional para mim foi mesmo um desafio. Tinha alguma curiosidade. 

Porquê?

Porque durante o meu tempo de professor, na escola, percebendo que a igualdade de género é algo fundamental também nas escolas e nomeadamente no desporto escolar, tive sempre futebol feminino. Ou seja, sendo um treinador de elite da formação do masculino, ao longo do meu percurso académico como professor trabalhei sempre com futebol feminino.

José Paisana é o treinador nacional da seleção de futebol feminino sub-19. Créditos: Federação Portuguesa de Futebol

E qual era o desafio?

Era trabalhar ao nível de topo no futebol feminino. Quando apareceu o convite da FPF foi algo desafiante mas também muito motivador e ao longo destes 10 anos que estou na Federação tem sido muito gratificante. Primeiro trabalhar num espaço de elite e de excelência como é a nossa Federação, e depois com esta direção do dr. Fernando Gomes. Fui convidado quando iniciou todo este processo com a professora Mónica Jorge, diretora do Futebol Feminino, que veio dar credibilidade ao futebol no feminino, provando que o futebol não é uma modalidade masculinizada. E portanto foi um desafio maravilhoso. Quando me deparei a primeira vez a trabalhar com as raparigas senti que havia uma diferença sobretudo na forma de questionar, de perceber como era o treino, perguntar como era o treino, entender aquilo que acontecia. Há 10 anos tínhamos um campo de recrutamento muito pequenino, escolher a seleção era muito fácil. Poucas jogadoras, eram duas mil praticantes, hoje com todo o trabalho realizado, com o crescimento dos clubes, das associações, há muito mais jogadoras para escolher.

O que o cativava e motivava?

Vi que a mulher era capaz de se relacionar com o treino e com o jogo de uma forma diferente dos rapazes, sobretudo porque questiona, porque quer saber mais, porque quando está motivada o nível de agregação no grupo é brutal, a união, sabendo que entre raparigas, quando as coisas não funcionam bem, há sempre maiores quezílias. Mas no espaço Seleção Nacional nunca senti isto. Tem-me valorizado com treinador porque tem-me feito crescer.

José Paisana iniciou a sua formação no Sporting de Abrantes e do Alferrarede. CRéditos: mediotejo.net

Elas gostam tanto de futebol como eles?

Gostam tanto ou mais. A jovem entrega-se com mais motivação. Quando sente que aquele é um espaço que lhe diz alguma coisa entrega-se e preocupa-se em crescer e aprender de uma forma diferente dos rapazes. Os rapazes são mais desprendidos relativamente à aprendizagem, por aquilo que é o futebol masculino na sua essência. Naturalmente o menino joga futebol e naturalmente a menina não joga futebol. Felizmente tudo isto está muito esbatido, mas há 10 anos a rapariga que gostava de jogar futebol era vista como uma maria-rapaz e era diferenciada por isto. Numa família, um pai que tivesse um filho com talento fazia todos os sacrifícios para andar 40 ou 50 quilómetros para o levar ao treino e à competição. Se acontecesse com a sua filha: não pode, não sabemos quem treina, é muito longe… e um conjunto de ‘problemazinhos’ que não acontecia com o rapaz.

Portanto o futebol não é um desporto masculino?

Não. De forma alguma! A Federação com este seu projeto de igualdade foi esbatendo tudo isto. Hoje temos meninas a jogar com os rapazes. É natural que ainda persistam preconceitos em algumas famílias. É verdade! Mas também sentimos que as coisas estão muito mais naturais.

No campo, estão ao mesmo nível técnico e até físico?

A mulher é diferente do homem. A sua constituição física, atlética, é diferente do homem. Mas em termos técnico-táticos do ensino do jogo, do conhecimento ela aprende e joga exatamente da mesma maneira. Portanto, o jogo tem um nível diferente em termos de força, de velocidade, de resistência, das questões fisiológicas – isso não é só no futebol mas também noutras modalidades -, mas em termos da qualidade do jogo, tem o mesmo patamar. Hoje observamos um Campeonato do Mundo feminino ou a Liga dos Campeões feminina e percebemos que a qualidade do jogo e a qualidade da jogadora é de um patamar idêntico ao do masculino.

José Paisana é o treinador nacional da seleção de futebol feminino sub-19. Créditos: Federação Portuguesa de Futebol

No que diz respeito a espetadores, como tem sido a evolução?

Há ainda uma grande diferença. Na formação, muitas vezes, os espetadores são os pais das atletas, a família, ainda sentimos isto. Mas num nível mais alto, da Liga BPI, que é a nossa liga principal feminina, já temos nos grandes jogos enchentes agradáveis para o futebol feminino. Temos cinco mil pessoas. Tivemos jogos antes da pandemia com 10 mil pessoas, jogos do Benfica, do Sporting, do Braga, jogos entre eles, finais de Taça de Portugal, finais de Super Taça. Quando no passado existiam 50 pessoas… já ficávamos felizes com isso. Agora não. Comparativamente com os homens ainda é um número aquém. Mas olhamos a final do Campeonato do Mundo e no estádio estiveram 60 mil pessoas, um estádio complementarmente cheio. É fantástico!

Estas 24 mulheres são jogadoras de Norte a Sul do País e das ilhas?

Sim. Com todo este crescimento as equipas mais fortes, nomeadamente Sporting, Benfica, Braga, Famalicão, equipas que foram crescendo ao longo destes 10 anos vão tendo as melhores jogadoras. O feminino está a percorrer o trabalho, com uns anos de atraso, do futebol masculino. As melhores equipas já têm também as melhores jogadoras.
Mas a nossa convocatória ainda tem 9 clubes diferenciados, o que por exemplo na formação masculina já não acontece; três ou quatro clubes dominam as convocatórias. Das ilhas temos alguma representatividade, Madeira sobretudo, do Marítimo. A seleção sub-17 tem jogadoras também dos Açores.

A seleção sub-19 tem alguma jogadora do distrito de Santarém?

Neste momento não temos ninguém. Há uma ou outra menina que jogou no distrito mas neste momento representa Sporting ou Benfica. Isso acontece. Temos alguém que já representou a seleção de Santarém.

José Paisana durante um jogo de futebol, como treinador nacional da seleção sub-19. Créditos: Federação Portuguesa de Futebol

Concluo que nota uma evolução?

Exatamente. Esta evolução foi algo estimulada pela nossa Federação para as associações distritais. E o papel que as associações distritais têm tido no sentido de motivar os clubes, criar torneios de desenvolvimento, torneios de promoção tem sido determinante para que as meninas tenham oportunidade. Porque não temos dúvidas absolutamente nenhumas – nós estrutura nacional e associações – que as meninas estão a jogar e jogam na escola. Neste projeto de desenvolvimento da Federação falta-nos terminar a relação com o Ministério da Educação e com o desporto escolar, este crescimento até ao primeiro ciclo, onde, ainda mais cedo, consigamos ir buscar e cativar e motivar as meninas a jogar.

As escolinhas de futebol, nas associações, também têm tentado desempenhar esse papel. Têm conseguido?

Têm conseguido. As meninas têm jogado com os rapazes. Temos promovido muito o futebol misto até ao escalão de infantis embora possam jogar até aos juvenis (17 anos). Queremos muito que joguem com os rapazes até aos 13 anos. Para elas é um espaço de desenvolvimento muito apelativo. As escolinhas de futebol e os clubes promovem esse jogo a pares e o caminho é por aí. Já temos muitas equipas só femininas mas também temos muitas meninas a jogar com os rapazes, nas equipas masculinas. Existe de tudo, e tudo aquilo que possa permitir que uma menina jogue, é bom para nós, ficamos contentes. No fundo é dar oportunidades.

Quais as expectativas para este Campeonato da Europa?

Neste Campeonato da Europa, a sua organização é diferente das competições seniores, e para a formação nomeadamente no feminino, o Campeonato da Europa só tem sete seleções e o anfitrião apurado naturalmente. Em 48 seleções. Para os países mais pequeninos, que começaram mais tarde, é um contexto de adversidade enormíssimo. Não fazemos ideia da adversidade que vai ser para as nossas jogadoras. Para Portugal é muito difícil. Quando olhamos para o número de atletas praticantes e nível competitivo dos campeonatos, nós já partimos muito atrasados. Mas com a grande motivação, a grande capacidade de superação da mulher portuguesa, com aquela capacidade de agregação, com estes três fatores costumamos dizer que fazemos milagres. Porque muitas vezes saímos de um patamar baixinho e elevamos estas jogadoras e estas seleções ao longo destes 10 anos, a patamares que ninguém acredita. Só acredita quem está lá; o treinador, a equipa técnica e as jogadoras. Em 10 anos conseguimos levar três seleções de formação, nessas sete melhores, aos campeonatos da Europa. Foi uma coisa fantástica quando tínhamos duas mil praticantes. E ainda levámos em 2017, a seleção A, a um Campeonato da Europa. Neste espaço de evolução do futebol feminino em 10 anos estivemos em quatro campeonatos da Europa, o que para nós no meio desta adversidade, é uma vitória, dos clubes, associações, Federação.

José Paisana despertou a sua paixão pelo futebol nas margens do rio Tejo, na sua terra natal, Alvega, no concelho de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

O futebol é um desporto desde sempre na sua vida, desde o Sporting de Abrantes e do Alferrarede. Qual a razão desta paixão?

Realmente para mim, desde pequenino, o futebol é uma paixão. Não consigo dizer o porquê do início desta essência. Mas há um ou outro aspeto que para mim se tornou interessante e motivador. Estamos a fazer esta entrevista neste relvado, chamámos sempre a este espaço o Tejo, porque o rio passa ao lado. Durante os verões na província, aqueles quatro meses de férias da escola, as crianças, e eu enquanto criança, vinham brincar para o Tejo. Nadava, brincava nas ribeiras e jogava futebol com os amigos, na rua. Este era um espaço onde eu aprendi a ter a paixão pelo jogo e provavelmente aqui ganhei o gosto pela atividade física, pela Educação Física, e nasceu aqui a minha paixão pelo futebol, de um dia querer ser profissional de Educação Física e ficar ligado ao desporto.

Chegou a jogar no Alvega?

Sim, também joguei aqui na aldeia, fiz crescer o futebol na aldeia como tanta gente. Não na formação porque comecei no Sporting de Abrantes e depois no Alferrarede, que eram as equipas que estavam mais próximas. Como gostava muito, fazia todos os sacrifícios com a ajuda do meu pai que me levava aos treinos, que utilizava o comboio que estava próximo, atravessava o rio, na altura existia a barca do senhor Vitorino, ia de comboio para os treinos, com sacrifício. Isto era paixão! Entrei na universidade de Educação Física foi o continuar, joguei na equipa da universidade, também treinei a equipa da universidade e continuei o meu percurso.

Depois foi para o escalões de formação no Benfica onde ficou 13 anos e teve uma incursão no futebol profissional. Como foi essa experiência?

No final da minha licenciatura felizmente tive a oportunidade de entrar num clube grande… que é sempre muito limitativo e naquela altura era muito difícil entrar num grande clube. Tive o privilégio de entrar no Sport Lisboa e Benfica, como estagiário. Fui conquistando o meu espaço, fui crescendo ali dentro e consegui ficar como um treinador do clube, onde estive todos esses anos, onde fiz todo o percurso de formação, treinei todos os escalões, desde os mais pequeninos até aos juniores e aparece o espaço profissional, a determinada altura sou convidado para entrar na equipa B profissional do Benfica. Tive também o privilégio de treinar profissionais e constatar um pouquinho o futebol profissional. Foram tempos muito bons, desafiantes, mas também muito difíceis. Treinar o futebol profissional exige de nós uma forma de estar completamente dedicada e a cada momento, são 24 horas por dia. Foi um espaço de aprendizagem fantástico.

Seguiu-se o Estrela da Amadora, o Clube Atlético e Cultural da Pontinha …

Um período intermédio, digamos assim. Quando tive de sair do Benfica – porque os nossos percursos no clubes não são para a vida e agradeço ao Benfica tudo aquilo que sou hoje como treinador, foi lá que comecei -, fiz um outro percurso. Felizmente tive muitos convites para treinar no estrangeiro, para treinar equipas profissionais, mas sentia que a minha motivação foi sempre para a formação. A minha forma de ser e de estar, de gostar de ensinar, a forma pedagógica como gosto de estar no futebol, sentia que a formação era algo que tinha de continuar a percorrer. E segui esse percurso com esses clubes que na altura me convidaram, seja o Olivais e Moscavide, o Estrela da Amadora, o Clube Atlético e Cultural da Pontinha, todos eles faziam muito boa formação e onde me convidaram para ser coordenador da formação. Fiz trabalho de coordenação e de desenvolvimento da formação destes clubes.

Até que surgiu o convite o Sporting Clube de Portugal…

Entrei no Sporting também na formação onde também estive a coordenar as Escolas Academia Sporting, durante seis anos e chegou o convite da Federação onde estou há 10, muito feliz por ter ajudado o futebol feminino a crescer.

José Paisana é o treinador nacional da seleção de futebol feminino sub-19. Créditos: mediotejo.net

E tem um clube favorito?

Diz-se que nunca mudamos de clube mas até aos 20 anos torcia pelo Sporting, depois fui trabalhar para o Benfica, era pelo Benfica ganhar. Hoje sou da Seleção.

E que memórias guarda da sua aldeia, dos tempos da infância, de jogar futebol nas margens do Tejo?

Imagens que ficam para a vida. Muito gratificantes. São tempos que nunca esquecemos. Se hoje sou um apaixonado pelo futebol, se fiz toda a minha profissional ligada ao desporto nas mais variadas tarefas – fui também treinador de associações distritais em Lisboa, durante o meu percurso académico fui treinador da Associação de Futebol de Lisboa, fui professor da Universidade Lusófona – deve-se a este espaço, desde pequenino. Todo o ano letivo era passado a pensar nos verões. Estudei na escola primária de Alvega, fiz o nono ano no colégio de Alvega, mesmo junto ao Tejo. Quando não tínhamos aulas brincávamos na ribeira ligada também ao Tejo, jogávamos futebol, jogávamos também no átrio na igreja. Lembro-me muito bem da minha mãe me chamar, de casa, e lá vínhamos a correr para o almoço ou para o jantar. Passávamos o tempo naquilo. Jogávamos hóquei de campo, sem patins só com os paus, primeiro na rua e depois no ringue, onde hoje está o Centro de Dia. São tempos que recordo com muita saudade. Gosto muito de Alvega, é a minha terra. Gosto muito do distrito de Santarém, porque é o meu.

Vem à aldeia com regularidade?

Ainda tenho cá família e venho sempre que posso. Embora esta vida ligada ao ensino e ao desporto nos tire algum tempo. Não venho com a regularidade que gostaria de vir.

E quando saiu da aldeia para estudar?

Fui estudar para Abrantes, no liceu [hoje Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes], depois fui para a universidade, o ISEF na altura, e depois foi seguir o trajeto do futebol.

Sente saudades desse passado em Abrantes?

Dos amigos, do liceu, dos tempos da escola, da cidade. Sempre foi uma cidade de estudantes. Recebia todos os alunos do concelho que faziam secundário. Tenho muitas saudades desses tempos em que me diverti muito, do convívio entre amigos. Eu sempre gostei de pessoas, de ouvir o próximo, de partilhar. Portanto, tenho muitas saudades dos meus amigos de infância que não vejo com regularidade. Este espaço onde estamos felizmente foi recuperado e muitas vezes dá-me vontade de vir só para estar aqui um bocadinho, para conversar e cumprimentar as pessoas. Esta foi a essência da minha vida.

José Paisana recorda com “muita saudade” a sua infância e adolescência em Alvega. Créditos: mediotejo.net

Algum local especial?

Convivíamos muito no antigo chamado muro do Bruno. Ficávamos ali sentados, partilhávamos a vida. Lembro-me de ir religiosamente tomar o pequeno almoço ao antigo café Pelicano. Eram rotinas feitas ao longo de muitos anos. Apanhávamos muito cedo o autocarro em Alvega, chegávamos às 8h30 a Abrantes e tínhamos tempo de tomar o pequeno almoço. Tive o privilégio de os meus pais me darem a possibilidade de tomar o pequeno almoço fora de casa. Antes de regressarmos ficávamos sentados a conviver, com as raparigas e rapazes, no tal muro do Bruno, brincávamos, contávamos anedotas e também falávamos da escola. São recordações muito fortes.

O que ainda quer fazer?

Estou muito feliz com a minha escolha. Este foi um percurso bem escolhido.

Se não estivesse profissionalmente ligado ao futebol poderia ter outra profissão?

Podia. Sempre me interessei por outras áreas. Se não tivesse sido o futebol teria sido algo ligado às ciências. Mas para mim esta foi a escolha certa. Nunca tive dúvidas! Sempre disse abertamente aos meus pais que queria seguir desporto.

Aceitaram bem?

Sim. Aceitaram sempre bem. A minha mãe nunca me influenciou muito mas o meu pai sempre me disse para fazer o que quisesse. Naturalmente gostavam que fosse para a universidade e quando fui ficaram felizes.

José Paisana durante um jogo de futebol, como treinador nacional da seleção sub-19. Créditos: Federação Portuguesa de Futebol

Sobre o futuro…

Sinto-me bem na Federação. É um espaço de excelência. Sei que o meu trabalho ajuda no desenvolvimento do futebol feminino. Sinto que o trabalho ainda não está terminado, há muito para crescer. E o meu pensamento está aqui. Nunca tive ambição de treinar seniores, de ir para o futebol profissional, de ir para os meio dos milhões. Tive essa oportunidade e não quis. Era uma espaço de exigência diferenciado. Para se estar no futebol profissional há um conjunto de aspetos na nossa vida que têm de ficar para trás, nomeadamente a família. E a família para mim teve sempre um peso muito grande. O caminho que fiz foi sempre feliz naquilo que era a minha forma de ser. O que quero fazer no futuro é continuar a ajudar jogadoras ou jogadores a serem melhores. No feminino ou no masculino, não fecho a porta nem digo que gostaria de terminar a minha carreira na Federação, que é onde estou agora muito feliz. Mas se um dia tiver de sair da Federação, gostava de continuar na formação. Não olho para o futuro de uma forma preocupada.

Para além do futebol, o que gosta de fazer?

Caminhadas, andar de bicicleta, conviver com família, com os meus afilhados, tenho alguns, de partilhar. Gosto de ler, de viajar, antes da pandemia viajávamos muito. Adorava ir ao cinema… uma coisa que se foi perdendo. Gosto muito do mar, é retemperador. Sempre gostei muito de praia e enquanto não comprámos uma casa perto da praia não descansámos. Hoje consigo, de bicicleta, rapidamente chegar até lá.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome