Quinta-feira, Fevereiro 25, 2021
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Abrantes: José Martinho Gaspar foi ao baú de Água das Casas para encontrar memórias da aldeia

“Lembro-me do José Martinho correndo, de calções, em direção à barragem, com uma cana de pesca, que ora se partia ora se enleava, e que já não o deixava fazer o primeiro lançamento…”, foi desta forma que Ercília Lucas Francisco recordou, perante uma plateia de conterrâneos e amigos, a infância e juventude que partilhou com José Martinho Gaspar, na apresentação do livro “Água das Casas: memórias de uma comunidade”, que decorreu na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, no dia 22 de outubro.

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Ercília Francisco, que apresentou o livro a convite do autor, definiu o José Martinho Gaspar como alguém “sereno, calmo e com infindo gosto pela história, leitura, estudo e escrita.” Sobre “Água das Casas: memórias de uma comunidade” referiu ainda que “servirá para alicerçar ainda mais os laços fortes que já existem entre a nossa comunidade mais jovem.” Ercília Lucas Francisco não nasceu em Água das Casas, mas sente-se filha da terra por ter vivido com os pais na aldeia. Foi naquela localidade abrantina que passava férias e que se casou.

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Amigos, familiares e conterrâneos marcaram presença na sessão de apresentação do livro

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José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas e viveu durante muitos anos com os avós porque os pais estavam emigrados na Alemanha. “O livro foi um trabalho de colaboração com várias pessoas e que a Ercília Francisco é exemplo disso, uma colaboradora sempre presente”, disse, agradecendo o empenho e dedicação, tanto na construção do livro, como nas atividades que ajuda a realizar na aldeia.

“Água das Casas: memórias de uma comunidade” nasceu “do coração” do seu autor há cerca de um ano. Tudo começou com a recolha de imagens, filmes e testemunhos, a fim de criar um repositório, um fundo local, contando, desde sempre, com o apoio do Centro Social, Cultural, Recreativo e Desportivo de Água das Casas e do FinAbrantes, programa municipal de apoio ao associativismo.

Depois de algum tempo de pesquisa, José Martinho Gaspar reuniu com a comunidade para apresentar o projeto, mostrar as imagens e os filmes que tinha conseguido até então, o que veio a gerar um grande entusiasmo por parte da população. Daí até ao resultado final do livro foi um longo processo, para o qual toda a comunidade contribuiu.

A construção da Barragem de Castelo de Bode mudou a vida de Água das Casas

Água das Casa é um local isolado, junto à albufeira de Castelo de Bode. Há cerca de 20 anos, dentro da própria aldeia as estradas eram intransitáveis e mesmo assim a população opunha-se ao alcatrão. No decorrer da sessão de apresentação, José Martinho mostrou uma tabela com a evolução descendente do número de habitantes: em 1911 a aldeia tinha 154 pessoas, hoje restam cerca de 30. E estes números tendem a piorar se não se fizer nada.

As terras férteis foram invadidas por causa da Barragem de Castelo de Bode e, na altura, houve gente que abandonou a aldeia. As pessoas que ficaram na terra tiveram que mudar de vida. “Durante muitos anos, o tio Zé barqueiro passava os habitantes de uma margem para a outra do afluente do rio Zêzere.” Mas com a construção da barragem nem tudo foi mau: “as pessoas encontraram nela uma máquina de lavar roupa” e os jovens transformaram a zona ribeirinha “num parque de aventuras, uma vez que o nível das águas nunca era constante”.

“Mal entrámos na sala de aula, a professora Júlia ligou o rádio, levantámos o olhar do caderno mas depressa esmorecemos, por não se ouvir música. Nesse dia ouviram-se apenas palavras de ordem, avisos. Fizemos o maior intervalo de que tenho memória desde que, sete meses antes, tinha entrado para a primeira classe. Foi uma revolução em Lisboa, disseram-nos em Água das Casas. A professora explicou-nos, dias depois, que os soldados, o tal MFA, se tinham revoltado para nosso bem e que dali em diante muita coisa iria mudar para melhor”, contou o historiador à TSF, aquando dos 40 anos da Revolução de Abril, momento que foi recordado na sessão com uma ovação sentida por parte da plateia.

Nesta noite, em que a Biblioteca Municipal de Abrantes encheu para ouvir as memórias da “aldeia presépio”, muitas histórias ficaram por contar.

Luís Filipe Dias, vereador com o pelouro da Cultura na Câmara Municipal de Abrantes, também ele emocionado, deixou o desafio para que os jovens façam o mesmo com as suas terras: “Era bom que os mais jovens fizessem estes exercícios de memória” para que a história se perpetue.

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Para o final da sessão, o diretor da biblioteca, Francisco Lopes, lançou duas perguntas: Como é que Portugal ainda não descobriu Água das Casas? Que futuro existe para estas aldeias? No ar ficaram as dúvidas e as respostas dissiparam-se.

No dia 31 de outubro, a Associção de Água das Casas vai organizar um “Baile dos Anos 80”, recriando os eventos organizados naquela altura. Haverá castanhas e água-pé. E por certo se falará do futuro. Do incerto futuro de Água das Casas.

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