Abrantes | Jornadas descentralizadas sobre “A educação ao longo da vida” arrancaram com ensino profissional e superior

Sob o mote “A educação ao longo da vida”, as Jornadas da Educação regressaram a Abrantes na sexta-feira, dia 4, para se prolongarem até 30 de outubro, de forma descentralizada, e com um vasto programa que se estende por diferentes espaços públicos e escolas do concelho de Abrantes. O primeiro painel debateu em Rossio ao Sul do Tejo o papel do Ensino Profissional e Superior com vários convidados, entre eles antigos alunos do ensino profissional e tecnológico que falaram do seu percurso e das mais valias dessas escolhas.

Este ano sob o mote “A educação ao longo da vida”, as Jornadas de Educação de Abrantes pretendem ser um espaço de reflexão e debate onde se dinamizam diversas iniciativas como a entrega dos Prémios de Mérito a Alunos do Ensino Secundário e Profissional, aos Parlamentos Criança/ Sénior/Jovem ou ainda a realização do Conselho Municipal da Educação, também aberto à participação da comunidade.

No auditório do Parque Tejo, sublinhando que a iniciativa não passa por uma “ação pontual”, a vereadora da Câmara Municipal com o pelouro da Educação, Celeste Simão, começou por explicar que “estas Jornadas enquadram-se na estratégia educativa escolhida para o concelho de Abrantes que está incluída no Projeto Educativo Municipal”.

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Abertura oficial das Jornadas de Educação de Abrantes 2019. Créditos: mediotejo.net

“Uma construção iniciada em 2013, construída através de uma metodologia de ação e que fomos fazendo e aprendendo, um documento que fizemos com o apoio da Academia”, referiu Celeste Simão.

Abertura oficial das Jornadas de Educação de Abrantes 2019. A vereadora Celeste Simão. Créditos: mediotejo.net

Os temas agendados para estas Jornadas vão desde o cuidado para a educação e o papel do ensino profissional e ensino superior, à aprendizagem em adulto e à liderança pedagógica, ou ainda a importância de brincar.

As Jornadas traduzem o que o executivo pretende com o Projeto Educativo Municipal e passa por “planear em conjunto, colaborar na construção de um programa e permite a concretização de um eixo previsto no Projeto Educativo Municipal que é a articulação institucional”, disse, falando no trabalho da Câmara, professores e Juntas de Freguesia, “numa tentativa de construirmos um programa diferente dos anteriores” habitualmente para dois ou três dias ou para uma semana.

Desta vez é um programa de um mês inteiro “com ações pontuais e não todas de seguida, com temáticas diferentes umas das outras para tentar ir ao encontro das aspirações das pessoas, e de forma descentralizada” por várias freguesias, vincou.

Na abertura oficial das Jornadas da Educação o presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos, lembrou a proximidade da transferência de competências na área da Educação que Abrantes irá abraçar no próximo ano letivo, sublinhou a importância do trabalho em equipa e notou que a escola, tal como o mundo em constante mutação, também “precisa de se alterar”, adaptando-se ao mundo do trabalho.

“Urge voltar a reequilibrar os processos educativos, com pessoas mais preparadas para processos laborais”, vincou, dando conta que no concelho falta mão-de-obra especializada.

Manuel Valamatos voltou a referir que a construção da nova Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA) no Parque de Ciência e Tecnologia será uma realidade a curto prazo. “A todo o tempo temos de avançar nesse sentido”, afirmou.

Abertura oficial das Jornadas de Educação de Abrantes 2019. O presidente da Câmara, Manuel Valamatos. Créditos: mediotejo.net

Seguiu-se o painel sobre o papel do ensino profissional e do ensino superior, moderado pela diretora da ESTA, Sofia Mota, e com as presenças de Samuel Pereira, diretor da subdelegação do Centro de Emprego e Formação Profissional do Médio Tejo e dos jovens empresários abrantinos Joana Borda D’Água, Tomás e Afonso Pereira da Silva que dinamizaram o debate em substituição de Francisco Neves, do Ministério da Educação, e de Matias Alves, da Universidade Católica do Porto, ausentes por motivos profissionais.

Sobre a importância do ensino profissional e das consequências e resultados da formação profissional na ligação ao mundo do trabalho e também na ligação ao ensino superior, Samuel Pereira confirmou o “desafio” com o qual, pelas suas funções, se confronta diariamente.

“Na ligação do ensino profissional ensino superior o número é ínfimo de pessoas que concluem o percurso”, deu conta, indicando 15% como a percentagem de formandos que concluem percursos formativos do ensino profissional que acedem ao ensino superior.

Sem “soluções mágicas”, Samuel Pereira assinalou três desafios: “Um geracional, no reconhecimento da importância do ensino profissional, começamos na génese familiar; ao nível das organizações do trabalho no reconhecimento das potencialidades dos formandos que concluem percursos formativos e das suas competências técnicas e profissionais; e na organização escolar no reconhecimento da importância da formação profissional no seu planeamento de atividades”.

A nível do Instituto de Emprego o responsável destacou “a celebração de protocolos com o Instituto Politécnico de Tomar e com a ESTA a nível de reconhecimento de créditos no âmbito dos cursos de especialização tecnológica (CET) que o centro de formação de Tomar tem a decorrer”.

O objetivo passa por “motivar e tornar mais apetecível a frequência do curso de especialização tecnológica e assim potencie o início de percursos formativos no âmbito da formação profissional mas que daí decorra o interesse pela progressão de estudos pela via do ensino superior”, notou.

Abertura oficial das Jornadas de Educação de Abrantes 2019. Créditos: mediotejo.net

Samuel Pereira mencionou ainda os requisitos de acesso das pessoas que concluam percursos de formação profissional e nota “uma certa desigualdade” em relação às pessoas que concluem processos formativos no âmbito do ensino regular.

“Seria importante pensar-se numa eventual terceira via, concursos locais que estivessem adaptados à medida das formações propriamente ditas” ou seja, acesso mais igualitário ao ensino superior, defendeu.

Quanto às necessidades prementes das empresas no que toca a mão-de-obra qualificada, o diretor da subdelegação do Centro de Emprego e Formação Profissional do Médio Tejo confirmou que o ensino profissional “está preparado para colmatar as necessidades das empresas no âmbito tecnológico”.

Quanto a quadros médios “os percursos incluem em si uma forte componente de formação em contexto prático de trabalho e o feedback é a não persecução de estudos de quem concluiu percurso formativos no âmbito da formação profissional mas um enorme pendor de integrações profissionais decorrentes da conclusão desses mesmos percursos”, afirmou, indicando que cerca de 90% dos formandos que concluem percursos formativos integram-se no mercado de trabalho, referindo-se à região do Médio Tejo.

Por outro lado, o Centro de Emprego e Formação Profissional do Médio Tejo constata “uma média de 10% máximo de formandos que prosseguem percursos para o ensino superior, em pico máximo porque o habitual situa-se na ordem dos 7%, o que é pouco”, considerou.

No entanto, garante que no Médio Tejo existe uma “oferta pensada para as necessidades de trabalho. Adaptamos a oferta formativa ao nível da região, procurando dar respostas” às necessidades das empresas. Importa “transformar as profissões vintage em profissões cool”, concluiu.

Abertura oficial das Jornadas de Educação de Abrantes 2019. Créditos: mediotejo.net

Do lado dos ex-formandos, quer em cursos tecnológicos, quer em cursos profissionais, a arquiteta Joana Borda D’Água optou pela via do design no ensino secundário verificando, mais tarde na faculdade, ter mais bases práticas do que os restantes colegas, sem notar falta de bases teóricas, contou.

“Há um estigma muito grande em relação a estes cursos que não se justifica de todo. Precisamos de ter pessoas que saibam fazer coisas e não precisamos de ter um curso superior para o fazer”, defendeu, falando em “necessidades reais” que se prendem atualmente com dificuldades na contratação de um carpinteiro ou de um canalizador. Profissões que Joana considera que devem ser vistas como “uma oportunidade”.

Além disso, para a arquiteta, “quando tiramos um curso não estamos a afunilar as opções mas a alargar”.

Já os irmãos Tomás e Afonso Pereira da Silva estudantes do ensino regular até ao 9º ano optaram pela agronomia e pela Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, em Mouriscas, seguindo depois para o ensino superior na Escola Agrária de Santarém, licenciatura ainda por concluir.

Relatam uma situação de vantagem em relação aos restantes colegas de curso que não frequentaram o ensino profissional. Nesse momento já contavam com um negócio de hidroponia, uma técnica de cultivar plantas em água, no caso cultivo de morangos em Abrantes e abacate no Algarve. No futuro não se veem a fazer outra coisa e só pensam na expansão da produção.

Abertura oficial das Jornadas de Educação de Abrantes 2019. Créditos: mediotejo.net

Enquanto decorria o primeiro debate das Jornadas da Educação de Abrantes, alguns alunos a Escola Secundária Dr. Solano de Abreu desenhavam livremente pelo auditório do Parque Tejo, em Rossio ao Sul do Tejo onde decorreu o painel. Antes ocorreu um momento de volteio a cavalo e após um momento musical pelos alunos da Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes.

As Jornadas prosseguem agora na quarta-feira, dia 9, no Centro Escolar de Rio de Moinhos. A participação é gratuita e o convite dirigido a docentes, alunos, famílias e toda a comunidade em geral.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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