Abrantes | Javalis regressam à cidade e circulam pela Encosta do Castelo

Os javalis voltam a circular pela zona urbana de Abrantes. Os animais deslocam-se das zonas rurais e sobem à cidade passeando-se onde a caça é proibida e a comida é fácil. Um fenómeno cada vez mais recorrente e que inquieta a comunidade, mas Luís Damas, da Associação de Agricultores de Abrantes, considera que dificilmente colocarão em perigo a integridade física das pessoas, a não ser uma fêmea na defesa das crias ou no caso de um javali ferido. Contudo, uma cidadã abrantina, Lurdes Gil, faz um relato pouco animador no Facebook, dando conta de javalis na Encosta do Castelo, junto à habitação dos pais tendo causado ferimentos no cão da família.

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Mais uma vez foram avistados javalis no perímetro urbano da cidade de Abrantes. De noite e mesmo de dia, são vários os vídeos e os testemunhos que circulam nas redes sociais mostrando os javalis em passeio pela cidade. O caso mais recente foi publicado no Facebook pela abrantina Lurdes Gil dando conta da presença daqueles animais selvagens na Encosta do Castelo. Garante que há um mês e meio que devastam a horta dos seus pais. Mas no passado dia 19 “um javali adulto subiu a barreira até perto da casa e atacou o cão que ali estava. A cerca de 2 metros da casa e de outras casas em zona residencial”, relatou.

Acrescenta que “como o cão se escondeu na casota” o javali “investiu contra ela” até que cão e casota rebolaram “barreira abaixo” sendo o animal selvagem afugentado por gritos e pedradas “da minha mãe e do vizinho. O cão sobreviveu mas está bastante ferido”.

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Lurdes Gil deixa algumas questões, nomeadamente: E se fosse uma pessoa? O mediotejo.net também quis saber se há uma solução. Luís Damas, presidente da Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Mação e Sardoal, explica que em 2020 o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) abriu uma exceção; a “Correção Extraordinária de Densidade de Javali”, uma ação de âmbito nacional que pretende um maior controlo daquelas populações, aberta até finais de setembro, mas nas zonas urbanas onde os javalis se refugiam, a caça é proibida.

Ou seja, perante autorizações do ICNF “os caçadores podem agora caçar javalis todos os dias. O que se passa na cidade é que não sendo uma zona de caça, até por também ser proibido caçar junto às povoações por representar um perigo para a vida das pessoas, os javalis refugiam-se nos espaços interurbanos onde sabem que não são caçados e onde têm alimento disponível”, refere Luís Damas.

O engenheiro salienta que o aparecimento de javalis nas zonas urbanas não é um caso isolado de Abrantes mas “a acontecer no País todo” chamando a atenção também para o comportamento de outras espécies. Na Europa “isto está a passar-se com outras espécies como resultado do abandono dos campos” sendo que “as espécies maiores têm aumentado a sua população”.

Luís Damas vinca que, no que toca a javalis, “99% são inofensivos para o ser humano. Só uma fêmea com crias que sinta alguma atacada é que pode investir, normalmente fogem ou um macho ferido, como qualquer animal ferido, pode colocar em perigo” a integridade física das pessoas. Os javalis “tendem a fugir do ser humano”, insiste.

O problema amplia-se tendo em conta que os animais “já começam a ter crias dentro da zona urbana e começam a habituar-se aos carros, às pessoas porque percebem que ninguém lhes faz mal”.

Javalis em busca de comida fotografados dentro da cidade de Abrantes. Foto de arquivo. Créditos: Teresa Paulino

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra uma porca com 8 crias o que para Luís Damas representa um aumento da população. “Tem alimento e sossego”, diz, apontando como solução “uma ação conjunta” para minimizar o problema. No entanto, vinca, “não há muito que se possa fazer”.

Nessa “ação conjunta” defende uma articulação entre a tutela, a entidade responsável pela população de javalis, o ICNF, e as entidades locais, nomeadamente “a Câmara Municipal, se assim o entender, e a Proteção Civil, no caso de se tornar um problema para a segurança das pessoas”.

Luís Damas assegura existirem formas de afugentar os javalis. Além da caça “contratar matilhas de cães que os perseguem para os afugentar, uma situação que pode funcionar durante uns dias mas com o risco de voltarem. Ou então eliminá-los ou apanhá-los com grandes armadilhas e isco e depois deslocá-los para outro lado”, sugere.

Outra solução passa pelo hábito, ou seja, a comunidade “habituar-se a conviver com os javalis, um animal que não come nem morde e só ataca nas situações referidas”, diz, alertando para o facto de “algumas notícias darem conta de pessoas os alimentarem com milho perto da cidade”. Prática que agravará a situação, segundo o engenheiro. “Habituam-se a comida fácil! A alimentá-los está-se a fomentar a população de javalis em grande escala. Não se deve fazer!”, alerta.

Luís Damas deu ainda conta que “nesta altura os agricultores têm sofrido muitos prejuízos porque os javalis saem dos meios mais secos e vão para os milheirais, para as culturas regadas. Neste caso, com as hortas [na Encosta do Castelo], sentem-se confortáveis, com a rega dos jardins… é um bom habitat para passar o verão”. No entanto, e falando de normalidade, os javalis “deveriam abandonar a cidade e ir para zonas onde houvesse mais alimento disponível e meios com mais humidade”.

Por seu lado, Lurdes Gil comunicou o ocorrido à Junta de Freguesia de Abrantes e fez queixa junto da Polícia de Segurança Pública (PSP) logo na sexta-feira, 19 de junho. Esta segunda-feira enviou informação para o ICNF e SPNA (Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente) e Câmara Municipal de Abrantes, aguardando por respostas.

Lurdes, em declarações ao nosso jornal, explicou que a sua intenção é “alertar as pessoas” temendo que os javalis possam estar “a mudar de comportamento uma vez que estão cada vez mais familiarizados” com o ser humano, podendo representar um risco futuro.

Entretanto, o presidente da Câmara Municipal de Abrantes deu conta que o Município já questionou o ICNF sobre a circulação de javalis na zona urbana de Abrantes, aguardando respostas que indiquem o que pode ser feito para minimizar o problema. Manuel Jorge Valamatos desconhece a solução, sublinhando que a entidade competente é o ICNF, mas afirmou que o Município está “disponível” para colaborar numa ação conjunta se a tutela o solicitar.

Foto de um javali na Encosta do Castelo, em Abrantes. Créditos: Lurdes Gil

(Notícia atualizada a 23 de junho de 2020)

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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