Abrantes | IPSS defendem reabertura de centros de dia e alertam para problemas psicológicos para os utentes (C/VIDEO)

IPSS defendem reabertura de centros de dia e alertam para problemas psicológicos para os utentes. Foto: mediotejo.net

A União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social (UDIPSS) de Santarém defendeu em Abrantes a reabertura dos centros de dia, encerrados devido à pandemia de covid-19, apontando “casos muito complicados”, especialmente no “domínio da saúde física e psicológica” dos utentes. António Mor, presidente do Centro Social do Pego, por sua vez, alertou para situações em que utentes de lares em hemodiálise correm o risco de ficar em quarentena para toda a vida. Sobre o trabalho inestimável dos colaboradores das IPSS, Duarte Costa falaria de um reconhecimento devido mas feito de “uma mão cheia de nada”.

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“Estamos a viver uma situação em que não se sabe bem qual o momento seguinte”, disse ao mediotejo.net o presidente do Centro Social do Pego, em Abrantes, tendo mostrado a sua preocupação com uma situação em que parece que ninguém tem reparado. “Alguém do lar que tenha de ir a uma consulta médica vai ter de ficar em isolamento 14 dias [quando regressa à instituição]. Alguém que está a fazer hemodiálise vai ter de ficar 14 dias. Mas a hemodiálise é dia sim, dia não, significa que estes 14 dias serão o resto da vida deles”, notou António Gomes Mor, tendo afirmado a sua preocupação com os efeitos psicológicos nos utentes, mas também nos familiares e nos profissionais das instituições.

A União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social (UDIPSS) de Santarém defendeu em Abrantes a reabertura dos centros de dia, encerrados devido à pandemia de covid-19. Foto: mediotejo.net

O Centro Social do Pego tem 96 funcionários e 169 utentes, dos quais 68 em ERPI, 30 em Serviço de apoio Domiciliário, 16 em Centro de Dia, 35 em creche e 20 no Pré-escolar e é um exemplo da realidade vivida por outras instituições similares no distrito e no país.

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Abrantes | IPSS do concelho debatem em Pego impacto da pandemia nas instituições, utentes e familiares

Hilário Teixeira, presidente da direção da União Distrital das IPSS do distrito de Santarém, reuniu no Centro Social do Pego, em Abrantes, com as instituiçõe do concelho para aferir dos seus problemas relativamente ao impacto da pandemia

Publicado por mediotejo.net em Sexta-feira, 31 de julho de 2020

O presidente da UDIPSS, Hilário Teixeira, por sua vez, reclamou pela reabertura dos centros de dia. “Deve haver uma resposta diferenciada para os problemas dos centros de dia, alguns dos quais funcionam de forma autónoma e sem qualquer relação com as Estruturas Residenciais Para Idosos (ERPI)”. Segundo o responsável, a reabertura daquelas respostas sociais permitiria resolver “situações periclitantes” em que se encontram muitos dos utentes de centros de dia, muitas vezes sem retaguarda familiar”.

Em declarações à Lusa, à margem de uma reunião de trabalho que decorreu na sexta-feira nas instalações do Centro Social do Pego, em Abrantes, com as IPSS do concelho, Hilário Teixeira reiterou os problemas sentidos pela generalidade das instituições distritais, ao nível económico, de sustentabilidade financeira e de recursos humanos, e apontou o isolamento de muitos dos utentes dos centros de dia, agora “em confinamento e apenas com apoio domiciliário”, como sendo a causa de uma “situação periclitante em termos de saúde mental e física”.

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Hilário Teixeira, presidente da direção da União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social (UDIPSS) de Santarém. Foto: meidotejo.net

O presidente da UDIPSS, que representa 186 IPSS com valência de lar, creche, centro de dia e centro de recuperação, entre outras, defendeu que “os centros de dia que funcionam de forma autónoma e sem ligação direta às ERPI deviam poder reabrir de imediato”.

“Quando há convivência entre as duas respostas sociais, devia-se ver se é possível criar barreiras arquitetónicas, provisórias, para poder separar os utentes e permitir, deste modo”, com as devidas regras de segurança, o regresso aos centros de dia, declarou.

Hilário Teixeira sustentou que urge “encarar este problema rapidamente e tomar medidas diferenciadas, consoante as particularidades de cada instituição, onde apenas existe essa resposta social e o serviço de apoio domiciliário” que também os serve.

António Gomes Mor, presidente da direção do Centro Social do Pego. Foto: mediotejo.net

“Não há razões para que os centros de dia não reabram, pelo menos para os casos de maior necessidade, cumprindo as regras sanitárias recomendadas, nem que para isso seja necessário encontrar outros espaços alternativos e complementares”, reiterou este responsável.

Questionado sobre a sustentabilidade financeira das IPSS, Hilário Teixeira disse que a atualização dos acordos de cooperação variou entre os 3,5% e os 5,5%, que considerou razoável, mas que “não chega tendo em conta o défice crónico” prolongado no tempo.

As 186 IPSS ligadas à UDIPSS do distrito de Santarém prestam assistência e cuidados a 27.452 utentes e cidadãos e contam com 6.253 profissionais, dos quais 1.215 com contrato a termo.

“Com esta atualização, as verbas acordadas cobrirão cerca de 40% a 45% do custo real da resposta social e o desejável seria os 50%, para não colocar em causa a sustentabilidade financeira das instituições de solidariedade social”, acrescentou.

Colaboradores na linha da frente e agradecimentos com uma mão cheia de nada

Na reunião com as IPSS do concelho de Abrantes, onde se fizeram representar 12 das 16 instituições, a intervenção de Duarte Costa, diretor técnico do Centro Social do Pego, foi elogiada pela representatividade do pensar generalizado dos presentes, com palavras dirigidas aos milhares de funcionários destas instituições.

Duarte Costa, diretor técnico do Centro Social do Pego. Foto: mediotejo.net

“Numa altura singular e conturbada, de crise pandémica, chega o momento em que, após uma decisão ponderada e difícil, há que dizer aos nossos colaboradores: “Não fiquem em casa, temos de continuar a missão de cuidar de quem mais precisa, deixem as vossas famílias, filhos, pais maridos… saibam apenas que ‘Nós Temos de Continuar’”.

O pedido parecia difícil, um paradoxo em relação a tudo o que eram as recomendações e preocupações na altura, mas o pior estava por vir. Aos poucos o desconfinamento instalou-se e as medidas impostas foram perdendo a “rigidez”, dando lugar a um “novo normal”.

Cumprida a missão, era então preciso agradecer a todos aqueles que sem pestanejar continuaram, pondo em causa a sua saúde e a dos seus familiares, em parte conduzidos pelo seu sentido de missão altruísta porque alguém lhes dissera: “Nós Temos de continuar”. Agradecer… era esta agora a missão, mas como? Com tudo o que tinha ao alcance: “Um Obrigado e uma mão cheia de nada” e, assim, como começou, também terminou: com um novo paradoxo.

Agora, temendo uma nova vaga, Duarte Costa afirma continuar a ter como única aliada a mesma voz: “Nós temos de continuar”. Contudo, na antecipação dos acontecimentos, “o meu problema agrava-se”, afirma, “pois chegará a altura de ter de agradecer novamente, mas desta vez será particularmente mais difícil pois agora será “Um Obrigado e duas mãos cheias de nada.” Meus senhores: esta é a realidade das IPSS no nosso país”.

“As IPSS são um pilar fundamental do setor social, logo o trabalho que fazem não pode ser substituído por nenhuma outra resposta do Estado, pela simples razão que somos a única resposta existente disponível a prestar um serviço diferenciado aos mais desfavorecidos da nossa sociedade, a troco de “Um Obrigado e uma mão cheia de nada”, notou.

O responsável lembrou que as IPSS “são a resposta imediata de apoio nos cenários mais diversos, incêndios, catástrofes naturais, situações de emergência social, pobreza, isolamento e até em crises sanitárias como a que, de forma ímpar, vivemos presentemente. É nas IPSS que está a resposta que tem de ser dada e que mais ninguém consegue dar”.

“Com este pano de fundo, como pode ser possível que passem estas instituições completamente despercebidas aos olhos dos nossos governantes, mas sobretudo da nossa sociedade?”, questionou.

Duarte Costa completaria o seu raciocínio, colocando mais algumas questões que a todos os presentes faziam sentido, embora a falta de resposta às mesmas gere alguma frustração.

“Como é possível que a grande maioria da população desconheça por completo o trabalho das IPSS e o seu papel fundamental na sociedade? Como podem os jovens tornar-se parte ativa das instituições se apenas têm conhecimento da sua existência quando necessitam dos seus serviços porventura numa fase tardia das suas vidas? Porque razão quem trabalha nas IPSS tem de ser mal remunerado, porque afinal, quem lá está tem de ser uma pessoa solidária e como tal grande parte do que faz tem de ser encarado como solidariedade”, refletiu.

Em jeito de apelo, o diretor técnico da instituição pegacha defendeu que “a realidade do trabalho desenvolvido pelas IPSS tem de estar presente na cabeça de cada cidadão. Não podemos continuar apenas com uma mensagem a dizer simplesmente que existimos, temos de dizer o que fazemos!”.

“Estima-se que o conjunto das IPSS sirvam cerca de 27000 Utentes [no distrito de Santarém], que representam obviamente um universo muito maior num conjunto de famílias apoiadas. Experimentem, agora, trocar a palavra “utentes” por “pessoas”, e rapidamente o problema ganha outra dimensão”, notou Duarte Costa, para concluir lembrando mais uma vez uma “mão cheia de nada”.

“Nós somos uma fábrica cujo produto final são sorrisos e, em muitos casos, mais alguns anos de vida com a qualidade e a dignidade merecidas. Contudo, enquanto colaboradores ativos e pessoas somos esquecidos, mal tratados e pagos com um “Obrigado e uma mão cheia de nada”.

 

Colaboradores das IPSS na linha da frente e os agradecimentos com uma mão cheia de nada, a reflexão de Duarte Costa na reunião com dirigentes de instituições de Abrantes. Foto: mediotejo.net

Nesse sentido, sintetizou, “é urgente a divulgação da realidade deste setor, na sociedade civil, é urgente uma negociação com a tutela no sentido de devolver a dignidade aos profissionais que neste setor trabalham, é urgente a intervenção do Estado na atualização comparticipações às instituições de forma a cobrirem um valor percentual condizente com as despesas por utente, é urgente cuidar de quem cuida!”, concluiu, perante o sentimento unânime dos presentes que se reviram nesta reflexão, em jeito de desabafo.

A direção da UDIPSS de Santarém tomou posse em junho e vai reunir nos próximos tempos com todas as IPSS do distrito, concelho a concelho. Foto: mediotejo.net

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