Abrantes | Histórias de mulheres em universos masculinos num dia de celebração

Dia Internacional da Mulher, em Abrantes

Para assinalar o Dia Internacional da Mulher (data relacionada com reivindicações e conquistas de direitos das mulheres, sobretudo no contexto trabalhista), realizou-se em Abrantes, no dia 8 de março, uma tertúlia na Escola Superior de Tecnologia (ESTA), no âmbito do Plano Municipal para a Cidadania, Igualdade de Género e Não – Discriminação. Este encontro teve como tema: ‘Profissões sem género – Mulher quem te viu e quem te vê’ – onde foram apresentados testemunhos de mulheres abrantinas que exercem ou exerceram profissões que ao longo dos tempos, têm sido, maioritariamente, desempenhadas por homens. A iniciativa promoveu o debate colocando em causa algumas “distinções” que ainda na atualidade são sentidas na sociedade.

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“Ser feminista não é ser contra o género masculino mas é trazer para o debate as questões que nos fazem mais iguais”. Esta frase é de Mariana Figueiredo, engenheira Mecânica na empresa Silicália, no concelho de Abrantes, e uma das seis mulheres convidadas para contar na ESTA, no Dia Internacional da Mulher, as suas histórias de vida ligadas às profissões que num passado recente foram apenas ocupadas por homens.

Ana Diogo Fernandes é treinadora de futebol masculino e considera que o Dia da Mulher está “completamente subvertido”. Abordando o tema da linguagem inclusiva, para Ana igualdade de género passa por “fazer-se valer pelas capacidades que cada pessoa tem naquilo que faz” e não tanto pela existência gramatical apenas no masculino de uma profissão como é o caso de sargento-ajudante, posto ocupado por Maria Calado, militar da brigada mecanizada em Santa Margarida, ou de Helena Chambel, que exerce a profissão de operador de condução na Central Termoelétrica do Pego.

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Profissões que ainda hoje a língua portuguesa não comporta no feminino, tal como a antiga autarca de Tramagal, Rosa Barralé, que entre 1989 e 1993 foi presidente de Junta de Freguesia.

“É por isto que devemos lutar: por direitos sociais, culturais, económicos iguais, de acordo com as nossas capacidades” defendeu Ana Diogo Fernandes recordando um recente acordão do Tribunal da Relação do Porto, onde a violência doméstica foi justificada pela prática de adultério. “Isso sim é preocupante!” sustentou.

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Carla Vasco, Ana Diogo Fernandes e Rosa Basalé

Maria Calado também trouxe ao debate o tema da violência no namoro, muito presente nas novas gerações. Afirma-se surpreendida com tal aceitação por parte de jovens mulheres, vítimas de violência, quando ela, de outra outra geração, já não aceitava a violência doméstica quando a observava na geração dos seus pais. “Não sei o que se está a passar mas elas não se amam a si mesmas”, observa.

Da tertúlia saiu a conclusão que o caminho faz-se caminhando mas ainda há muito por trilhar, mesmo nos institutos públicos. O ponto comum na ação destas seis mulheres de diferentes gerações assenta na tentativa de abrir mentalidades, quer com os colegas de trabalho, maioritariamente homens, quer em casa com os filhos do género masculino.

Criticando a prática “fofinha” das celebrações atuais do Dia da Mulher, Ana Diogo considera que “jantares de mulheres e flores não representam nada a luta que algumas mulheres têm vindo a fazer, cada uma com as suas motivações”. Refere a legislação que acolhe a igualdade de géneros mas lembrou “entidades de topo de organizações humanitárias que em troca de ajuda humanitária exigem favores sexuais a crianças e mulheres”. Tal preocupa-a.

Este ponto foi visto como “um passo atrás” na luta feminina pela igualdade, mas mais que isso um retrocesso civilizacional.

A vereadora Celeste Simão, presente na iniciativa, lembrou o desequilíbrio na distribuição de tarefas domésticas e parentais. “As mulheres trabalham, em média, mais quatro horas diárias do que os homens porque têm as tarefas domésticas. As mulheres dizem que os homens em casa ajudam mas há uma diferença entre ajudar e repartir tarefas”.

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A vereadora mencionou também o facto de em Portugal das mulheres serem, em maior número, mais qualificadas e verificar-se que são os homens quem ocupam maioritariamente os cargos de topo.

Mariana Figueiredo, Helena Chambel, a vereadora Celeste Simão ao centro e a moderadora Hália Santos à direita.

Rosa Basalé conta como chegou a presidente da Junta de Freguesia de Tramagal. “Nem sequer era cabeça de lista”, mas como a vida dá muitas voltas acabou por ficar à frente com vozes discordantes a criticar: “uma mulher? Tem algum jeito!”. Mas venceu.

Rosa sempre sentiu a desvalorização da mulher, que começava logo no nascimento. Sobretudo porque em menina sofreu de poliomielite, doença que aos olhos do pai complicou ainda mais a sua condição. “O meu pai dizia no meio da sua pobreza” que se com 100 contos Rosa conseguisse ser rapaz, empenhava-se para que isso acontecesse. Falava um homem que ganhava 20 escudos por dia.

O desabafo espelhava bem a importância de (não) ser mulher numa sociedade conservadora e machista. Foi por isso que Rosa estudou e tirou o curso comercial. O pai queria que ela fosse independente e não necessitasse de ninguém para sobreviver.

Naquela época eram raras as mulheres que trabalhavam fora de casa, talvez por esse motivo Rosa tenha sido a primeira mulher funcionária na linha de montagem da MDF, onde só trabalhavam homens. “Claro que existiam velhos do Restelo e velhas também”, conta. Anos passados, considera a atualidade “ainda mais difícil para as mulheres” obrigadas à pressão social de progressão na carreira profissional e ao mesmo tempo a serem responsáveis pela gestão familiar, mantendo-se mais relevante o papel maternal do que o paternal.

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E como bebés precisam-se “talvez seja tempo de o Estado tomar medidas” ativas e eficazes de apoio ao nascimento.

Ana Diogo treina rapazes de 13 e 14 anos na equipa de futebol do Sport Abrantes e Benfica. Licenciada em Direito, confessa-se uma “apaixonada pelo futebol”. Quando tirou o curso de treinador “era a única mulher no meio de 29 homens que maioritariamente tinham licenciatura em Desporto”, afirma.

Revela ter sido “bem recebida, acarinhada, auxiliada e respeitada”. Mas no terreno, ou melhor, no campo de futebol e no balneário “no início foi complicado estar à frente de uma equipa de 22 homens”, coisa que uma prática de bom senso, respeito e passagem de valores fundamentais não resolva. Curiosamente a aceitação de Ana Diogo com treinador da equipa masculina acabou por revelar-se “mais fácil para os jovens atletas do que para os pais e adeptos. E entre os pais, as mães tiveram maior dificuldade” nessa aceitação.

Carla Vasco é cabo sub-chefe na Guarda Nacional Republicana. “Não tinha sonho de vestir fardas. Sonhava ser jornalista. Nem sequer brincava com carrinhos. Somos quatro irmãs e brincávamos com bonecas” explicou. Certo dia arriscou entrar num concurso que tinha visto na RTP2 e acabou a fazer a recruta nos paraquedistas na primeira recruta de mulheres. Não estava sozinha, uma irmã de Carla também entrou na aventura de ser militar. “Todos os dias dizíamos que imos desistir”. Nunca aconteceu e Carla está há 18 anos colocada em Vila Nova da Barquinha e a irmã nas tropas paraquedistas.

Recorda “as bocas, os comentários e as indiretas” inevitáveis tratando-se de jovens homens mas hoje com a devida distância temporal é fácil fazer uma retrospetiva e concluir que foram “protegidas, numa espécie de redoma, as meninas dos paraquedistas”.

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Carla Vasco foi a primeira mulher GNR no distrito de Santarém a andar na rua e temeu quando foi colocada num posto territorial rural. Contudo, encontrou nos camaradas homens, mais velhos, um desempenho “quase paternalista”. Nota que as mulheres, no serviço público, passaram a ser melhor recebidas nas áreas ditas masculinas e descobriu que delas nem mesmo a população esperava que ficassem na cozinha. “Nunca fui abordada de forma negativa”, conta.

Carla foi a primeira mulher a engravidar na Escola Prática e deram-lhe uma “bata” em jeito de farda. Recusou vestir o modelo e mais tarde a GNR concebeu “uma espécie de macacão” para as militares que engravidavam.

Profissões sem género no Dia da Mulher em Abrantes

Helena Chambel, pelo contrário, sempre foi “muito maria rapaz”. Razão provável da sua escolha enquanto estudante. “Entrei para eletrónica. Em Santarém numa turma de 25 alunos era a única mulher”. Algum tempo depois surgiu a oportunidade de tirar um curso de operadores de condução para a Central Termoelétrica do Pego. Em 120 pessoas Helena, mais uma vez, era a única mulher.

Para estar em pé de igualdade teve de abrir a mente dos selecionadores argumentando que “a área precisa de força mas também de inteligência”. Convenceu-os. Há 12 anos que trabalha como operador de condução e para que fosse possível foi necessário construir um balneário só para ela e mandar fazer sapatos que lhe servissem. Também a sua história não foi pêra doce: “Foi complicado conquistar o meu lugar, mas quando queremos muito uma coisa, é ir em frente”. Helena lamenta que em 45 trabalhadores do gabinete de produção não exista uma colega mulher, até porque desconhece a parceria laboral no feminino.

A engenheira Mecânica Mariana Figueiredo também rabalha num ambiente maioritariamente masculino. Na sua profissão sempre sentiu que “ser boa não chegava. Tinha de ser a melhor do que a média no grupo onde estava inserida”. Mariana fala de uma batalha diária, uma necessidade de “mostrar diariamente que somos capazes e ter de me dar ao respeito para não ser apanhada em falso” o que na sua opinião é a prova de que “ainda há muito caminho por fazer” no que concerne à libertação feminina.

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E se antigamente não entendia bem a necessidade da existência do Dia Internacional da Mulher, hoje a engenheira percebe a pertinência de um dia para refletir sobre os direitos da mulher. “Sinto-me cada vez mais feminista, não por ser contra os homens mas para chamar a atenção para as coisas que necessitam ser melhoradas”. Defende, por isso a existência de quotas. No contexto profissional ainda se sente o “extraterrestre do sítio”.

Mariana referiu ainda uma contradição da sociedade. “Há mais mulheres licenciadas, não necessariamente nas áreas tradicionalmente masculinas, mas essa condição não lhes traz mais-valias nem o retorno que seria esperado”. Da parte da família sempre contou com apoio que ao longo da vida a preparou para a igualdade “não só entre géneros mas também entre pessoas”.

Maria Calado, Mariana Figueiredo e Helena Chambel.

Maria Calado é sargento-ajudante. Entrou para o Exército em 1999, vinda de uma família “extremamente pobre” de Setúbal. Com média de 18 valor no final do ensino secundário mas sem dinheiro para prosseguir o sonho da psicologia, Maria viu na tropa o escape a uma vida de carência. Encontrou 12 mulheres num universo de 120 homens. A aventura correu bem e ela e mais duas camaradas vieram para Santa Margarida dar instrução, sabendo que “os homens não se chefiam, lideram-se”. Passou pela Escola de Sargentos nas Caldas da Rainha, onde eram 70 homens e 4 mulheres. “Optei pelo secretariado” disse.

Em 2012 foi convidada para ir para o Afeganistão, “o meu capitão na altura queria levar 10 militares e deu os nomes” O general negou, não queria mulheres no Afeganistão até perceber que as mulheres também eram capazes. “Éramos 100 homens, duas mulheres” que integraram o contingente português. “A maior experiência que levo da minha vida. Uma preparação muito intensa. Posso dizer que fui ao fim do mundo”.

Maria passava na época por um processo de divórcio e tinha um filho de sete anos, mas não desistiu. Em cima da sua feminilidade está a farda, e lembra que no Afeganistão teve de carregar um colete com um peso de 30 quilos e caminhar horas a fio, estudar inglês e ter nota superior a qualquer dos camaradas homens. Ainda assim, depois de despir a farda sobressai a mulher, que gosta de se maquilhar, de ir ao cabeleireiro, de usar sapatos de salto alto. Mesmo quando veste a farda camuflada “arranjo o meu cabelo ao espelho, meto o meu perfume. Não deixo de ser mulher por baixo de uma farda”. Quando Maria entrou para o Exército deparou-se com o mesmo problema de Helena. “Não havia fardamento que me servisse nem sapatos número 36”.

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Os testemunhos destas seis mulheres abrantinas, mais um de Carla Ribeiro Ferreira profissional da área florestal que não podendo comparecer escreveu um testemunho lido por uma aluna da ESTA, mostraram pontos de vista diferentes mas foi notória a unanimidade em aceitar as diferenças e saber tirar o melhor partido delas. Concluiu-se ter ficado para trás a sociedade machista na qual as avós ensinavam as netas a cuidar dos “seus homens” sugerindo que as mulheres nasciam biologicamente programadas como fadas do lar.

Que ainda persiste nos semblantes de algumas, rugas de desilusão com a injustiça do preconceito e das desigualdades como o fosso salarial. Mas certo é que um novo tempo desabrochou, apesar do muito trabalho ainda por fazer, nomeadamente na mudança de mentalidades. Por isso a luta continua principalmente no mundo do trabalho onde é maior a discriminação.

A tertúlia contou com a moderação de Hália Santos num auditório da ESTA quase cheio.

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