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Quarta-feira, Outubro 20, 2021

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Abrantes | Helena e David partiram em busca de um futuro melhor na Alemanha, em tempo de pandemia

O mês de março foi marcante para todos mas, para David Almeida e Helena Marques, foi particularmente decisivo: ele enfermeiro, ela assistente social, emigraram pela primeira vez para Munique, na Alemanha, procurando um futuro melhor. Nunca poderiam prever, nos meses anteriores, que uma pandemia iria virar o mundo do avesso.

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Em janeiro e fevereiro, as notícias sobre um novo coronavírus ainda se centravam na China. Foi em março que entrou de rompante pela Europa, e que a OMS declarou o surto de covid-19 como pandemia. Seria depois decretado o primeiro Estado de Emergência Nacional em Portugal, bem como o primeiro cerco sanitário, em Ovar. Estabeleceram-se medidas e planos de contingência, iniciou-se uma nova forma de vida, que muito passa pelo confinamento e distanciamento social. O teletrabalho e o ensino em casa caíram no seio das famílias. Até porque, apesar da covid-19, a vida tem de continuar. Mesmo que forma diferente.

Foi a 11 de março que o jovem casal, natural de Abrantes, partiu para uma nova vida em Munique, na Alemanha. O enfermeiro David Fialho de Almeida, 29 anos, de São Facundo, viajou juntamente com a namorada Helena Marques da Palma, 26 anos, de Alvega, que é assistente social, mas que atualmente está desempregada devido ao covid-19.

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“Iniciámos esta aventura em setembro de 2019, muito antes de toda esta situação que se está a viver agora por toda a Europa e pelo mundo. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar num país como a Alemanha não pensámos duas vezes e aceitámos logo, apesar de a língua ser um dos obstáculos”, explica Helena ao mediotejo.net.

Apesar do receio que tiveram “sempre”, o contrato assinado por David seis meses antes “não deixou hipótese de escolha”.Mudaram-se há mais de um mês, “antes de o vírus chegar em força à Europa” e quando nada fazia prever grandes mudanças de planos. “Não tínhamos ideia do que iríamos encontrar em Munique, não sabíamos nada da situação na Alemanha em relação ao covid-19. Viajámos no dia 11 de março, o aeroporto de Lisboa funcionava normalmente, algumas pessoas usavam máscara, mas a grande maioria não trazia qualquer tipo de proteção”, conta o jovem casal.

Não se arrependem de ter emigrado nesta altura? Ou teriam optado por adiar a ida? “Arrependidos não estamos, apesar dos primeiros dias não terem sido fáceis. Apesar de toda esta situação, não optaríamos por adiar a vinda para cá. Gostamos de acreditar que, se viemos nesta altura, era porque assim estava predestinado”, refere Helena.

A verdade é que já tinham feito as despedidas dos amigos, das famílias, das suas terras. Estavam já com as malas prontas para o embarque e mentalizados da decisão que haviam tomado no segundo semestre de 2019. O verbo era ir.

Rotreuzplatz. A vida continua, com muita gente pelas ruas, a andar de bicicleta, mesmo com a imposição de medidas de segurança. Foto: DR

À chegada, uma realidade diferente num país diferente. “Na primeira semana conseguimos tratar de todas as burocracias que eram necessárias, o nosso registo de morada, abertura de conta no banco, seguro de saúde, todas essas coisas conseguimos fazer sem qualquer tipo de restrição”, contam.

Acontece que, após a primeira semana em terras alemãs, as medidas e restrições começaram a aparecer. “Após essa semana todas as pessoas foram informadas de algumas medidas que deveriam ser cumpridas, como por exemplo a distância de segurança, o sair à rua com apenas uma pessoa da família. As entradas no supermercado seriam feitas com uma pessoa de cada vez (máximo é de cerca de 10 pessoas dentro do estabelecimento)”, recordam.

No caso de David, a trabalhar na chamada “linha da frente” num hospital, a realidade tornava-se mais assustadora. “Como trabalho no serviço de Cardiologia e Pneumologia, todos os doentes negativos ao covid-19 descem dos isolamentos para o meu serviço”, começa por mencionar.

“De início tive contacto com doentes infetados. Numa fase inicial era muito difícil perceber se o doente era portador do vírus ou não, e havia alguns falsos negativos que, mais tarde e após segunda avaliação, testavam positivo. Com isso, era visível o receio com que os profissionais de saúde desempenhavam funções”, refere.

O hospital onde David trabalha no serviço de Cardiologia e Pneumologia, em Munique. Foto: DR

No meio do desconhecido, na luta contra o inimigo invisível, eis que o controlo e o esforço aumentam.

“Após as três primeiras semanas de trabalho, verificou-se um decréscimo do número de doentes infetados no meu serviço. O controlo nos isolamentos tornou-se mais apertado, os doentes negativos só vinham para o serviço de Cardiologia e Pneumologia após a realização de dois ou mais testes. Apesar de toda esta pandemia e do receio, todos os profissionais de saúde têm feito todos os esforços no sentido de combater toda esta situação”, afirma David.

Quanto à forma como a Alemanha encara a pandemia, dizem crer que o governo está a agir como os restantes da União Europeia e têm tomado “todas as medidas que acham adequadas e necessárias face a esta situação”, uma vez que “o número de infetados é bastante elevado, apesar de o número de mortos ser inferior ao de Itália e Espanha”.

O dia-a-dia vai-se fazendo com as devidas precauções e com o acatar das medidas impostas, sendo que David sai para o hospital “normalmente”, e “cumpre com as regras de segurança e toma todos os cuidados necessários”.

Já Helena diz que só sai de casa para questões essenciais. “Eu saio para ir ao supermercado e para tratar de assuntos estritamente necessários. Infelizmente não estou a exercer devido ao covid-19. O meu dia-a-dia é passado a preparar refeições, tratar da casa e roupa. E vou aproveitando para colocar algumas séries em dia e estudar alemão, para não ir esquecendo o que aprendi. Continuo a ter aulas de alemão online, tal como o David, quando está de folga”, diz.

As idas ao supermercado por norma são tranquilas, mas apenas “se for logo pela manhã, bem cedo”, à tarde já se encontram filas, “mas nada por aí além”. Quanto aos serviços, não conseguem aceder ao banco nem a serviços de domínio público. Apenas correios, esses continuam a funcionar, cumprindo tal como os supermercados e farmácias com distância e número reduzido de clientes dentro do estabelecimento.

Englischer Garten. Os jardins e os relvados têm sempre gente a aproveitar o bom tempo, nomeadamente famílias com crianças. Foto: DR

As idas à rua podem acontecer, mas cumprindo com as medidas de segurança. “Nas folgas dele aproveitamos de vez em quando para dar uns passeios nos jardins aqui perto, cumprindo a distância, usando máscara e sempre com o gel desinfetante à mão”, começa por contar Helena, referindo que “os jardins continuam abertos ao público, mas os parques para as crianças brincarem e as esplanadas nos jardins onde, por norma se pode beber e comer, encontram-se vedados com fita”. Por outro lado, “vê-se muita gente a correr, a andar de bicicleta e a caminhar”.

Apesar de tudo, no meio do caos, há quem force a normalidade. E, nas saídas apressadas para ir à rua tratar de assuntos prementes, encontram-se situações caricatas. “O que mais nos impressiona no dia-a-dia são as filas que as pessoas fazem para comer gelados. Apesar de cumprir com o 1,5 metros de distância, existem filas todos os dias e com crianças pequenas. A grande maioria não usa máscara, e nota-se que a maioria das pessoas que a usam têm mais idade”, afirma o casal.

“As pessoas andam na rua normalmente, caminham, correm, andam de bicicleta, e ficam horas sentadas nos espaços relvados dos jardins com as crianças”, asseguram.

A situação caricata: a constante fila da gelataria, com a distância de segurança assegurada, mas com crianças no local. Foto: DR

Apesar de estarem longe das suas famílias e amigos, David e Helena mantêm o contacto e estão atentos às notícias sobre a sua região e sobre o que acontece no país. O receio do que possa acontecer aos seus é uma realidade também.

“Infelizmente as notícias de Portugal não são as melhores, e temos medo pela nossa família, pelos nossos amigos. Mas achamos que o Governo português está a agir bem e a maioria do povo português está a cumprir, há sempre um por outro que não o faz e coloca em risco os outros. Nem todos têm noção da realidade e da gravidade da situação”, referem.

“Ao jantar vemos sempre o jornal e estamos sempre atualizados do que se está a passar por aí”, diz Helena, ainda que reconhecendo que “não tem sido fácil acompanhar tudo à distância”.

Apesar de tudo, do medo por estarem longe da família e do seu país, dizem que nunca esteve em cima da mesa voltar para Portugal e adiar o novo percurso na Alemanha.

“Nunca ponderámos voltar a Portugal, não era a opção correta… Não iríamos arriscar levar o vírus e colocar a nossa família ou amigos em risco. Hoje em dia com a Internet e as redes sociais estamos apenas à distância de uma videochamada, que nos deixa mais tranquilos e nos permite saber que os nossos estão bem”, admitem.

Quanto ao futuro, e aos planos para virem matar saudades de Portugal e das suas pessoas por altura das festividades, provavelmente estarão em causa.

Helena e David numa das saídas à rua. Referem ser muito poucas as pessoas com máscara envergada, notando-se que apenas as pessoas de mais idade a usam. Foto: DR

“Queríamos ir a Portugal este ano, tínhamos apontado para agosto, para podermos estar presentes nas festas anuais de São Facundo e na festa em Honra da Senhora dos Remédios, em Alvega… Mas não sabemos ainda quando irão abrir os aeroportos, nem tão pouco se as festas este ano se irão realizar…”, lamentam.

Por agora a vida acontece no novo país, com a promessa de que um dia irão regressar ao retângulo à beira-mar plantado. O truque para apaziguar as saudades, dizem, passa por ir preservando a memória da sua terra natal e das suas origens, mantendo contactos com familiares e amigos. Bendita Internet.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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