Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Sábado, Maio 8, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Abrantes | Ferreira Dias quer revelar em livro como foram os seus dias na prisão (c/vídeo)

Em prisão domiciliária com pulseira eletrónica, o ex-construtor civil que ficou na miséria contou ao mediotejo.net como foram os 23 dias que passou na cadeia, acusado de agressão ao Presidente da Câmara de Abrantes: "Todos me reconheciam da televisão e trataram-me bem. Ali eu era um preso político."

Quando na manhã de 22 de dezembro Jorge Ferreira Dias se dirigiu à Câmara Municipal de Abrantes, não esperava ser preso – nem imaginava que o Natal e a Passagem de Ano viram a ser passados atrás das grades. Acusado de agressão ao presidente da Câmara (crime que nega), está em prisão domiciliária desde 14 de janeiro, com pulseira eletrónica. Aquele que foi um dos mais importantes empreiteiros da região e que hoje vive do Rendimento Social de Inserção, tem dedicado os dias a escrever e já concluiu dois livros de memórias: um sobre a sua vida, outro sobre as semanas que passou na cadeia. O seu sonho é conseguir agora publicar esses livros, para que o país possa saber tudo o que passou, pelas suas próprias palavras.

- Publicidade -

“Esta é a opinião de um homem livre”. A afirmação surge ao fim da primeira dezena de páginas de “As noites mais longas da minha vida – testemunho do recluso 380/9044 – cela 7 – pavilhão 1 do Estabelecimento Prisional de Leiria”, a obra memorial de Jorge Ferreira Dias sobre os seus dias no cárcere (ainda sem editora). A frase pode resumir o espírito do livro que começou a escrever assim que foi preso, na parte de trás de uma receita médica – o único papel que tinha consigo.

Ferreira Dias permanece em prisão domiciliária, sem data prevista para ir a julgamento. Foto: mediotejo.net

- Publicidade -

Melancólico, mas em paz consigo próprio, Ferreira Dias enumera com curioso detalhe as várias peripécias do seu dia a dia na cadeia, as refeições, a interação com outros presos e com os guardas, a vivência solitária do Natal, os seus sonhos, orações e reflexões. As suas longas noites de insónia, os silêncios e os tumultos pontuais a que vai assistindo.

O relato acaba por ser o testemunho das condições e das vivências de uma prisão portuguesa, pela perspetiva de um recluso que se sente vítima do sistema e procura na partilha de histórias com outros reclusos, na escrita quase obsessiva da sua rotina e na espiritualidade, um sentido para a sua passagem por este tipo de penitência.

“Fiquei a conhecer esquemas onde se vendem e compram certos artigos, como atuam certas pessoas, o que faz a falta de trabalho, a falta de dinheiro, as más relações entre familiares, os problemas com os filhos… Tudo uma lição de vida interessante”, escreve.

A crítica à gestão municipal de Abrantes é uma constante ao longo da obra.

Diz-se que a resiliência é uma forma de caráter. Se assim for, Jorge Ferreira Dias será um dos derradeiros homens de caráter. Ou talvez estejamos a ler apenas relatos de fé. Se não na justiça dos homens, pelo menos na justiça divina. No caso de Ferreira Dias, o empresário reduzido a pastor, a dada altura já não sabemos muito bem o que comanda o quê nas suas palavras e nos seus atos.

O abrantino de 65 anos tem a seu favor a sabedoria dos pastores. A linguagem, a forma de estar e de conversar é simples, intuitiva, mas de algum modo rica. É a experiência de quem viveu, sentiu e lutou. De quem tenta defender-se, da maneira que pode ou sabe.

Por isso, estando preso, sentia-se livre. Feliz. Sentiu chegado o tempo da redenção. As pessoas reconheciam-no, trataram-no com certo respeito, teve um ou outro privilégio. Não era, apesar de tudo, um preso comum. “Estava ali como um preso político”, afirma.

As psiquiatras que o observaram a pedido de uma juíza, já noutra ocasião menos afortunada, garante que disseram que só lhe faltava este episódio para se igualar a tantos outros homens que foram espezinhados pelas suas convicções, mas que viriam a marcar a história. Por isso escreveu. Primeiro em folhas soltas que foi arranjando, em letra miúda para dar rentabilidade ao papel, depois num caderno que a família lhe levou.

São milhares de documentos, devidamente arquivados e catalogados, de todos os processos de construção que tiveram problemas com o município de Abrantes Foto: mediotejo.net

Lembra-se com frequência do neto de dois anos a perguntar-lhe o que estava a acontecer no tribunal e a honestidade do avô ao dizer-lhe que iria ser preso. Chora várias vezes.

“Um homem também chora”, reflete, apesar da sua geração não ser a dos homens a quem era permitido verter lágrimas em público. Pensa que há muito devia ter denunciado os seus problemas com o poder autárquico ao mundo. “Ainda vou a tempo e sem medo, para que outros não passem por aquilo que passei”, escreve.

O frio e os sonhos acompanham-no. Sonha muito. A sua mente vagueia por cenários fantásticos de revolução ou episódios abstratos do passado, que descreve ao pormenor nas suas notas. Também fala com o divino, embora não percebamos se não falará apenas para si próprio.

Nestas suas reflexões, tenta compreender porque tem tido tantos problemas nos últimos 30 anos com a Câmara de Abrantes. Revê episódios antigos, analisa eventuais soluções, interroga-se sobre o perfil dos autarcas. “Eram professores, nunca fizeram outros serviços onde tivessem que ser responsabilizados e sofressem no corpo as consequências da má gestão”, reflete. Narra assim a sua perspetiva sobre os complexos enredos negociais e administrativos que o conduziram à insolvência: um dos maiores empresários de Abrantes, dono de várias empresas que movimentavam milhões de euros, e que vive hoje com pouco mais do que 300 euros do Rendimento Social de Inserção.

Recorda o episódio de 22 de dezembro de 2020, quando se exaltou na reunião da Câmara de Abrantes, batendo com o seu cajado nas mesas dos vereadores e gritando com todos os presentes. Em tribunal segue o processo em que é acusado de agredir o Presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos, bem como um vereador e uma funcionária.

Jorge Ferreira Dias ameaçou autarcas durante uma reunião do executivo, a 22 de dezembro de 2020. Créditos: mediotejo.net

Garante que nada fez de mal, que só queria que o executivo municipal lhe resolvesse de vez o imbróglio em que o envolveram. Afirma que não está louco, que nunca na vida esteve tão lúcido. Quer justiça e o fim do que considera ser a corrupção política que o conduziu à miséria.

Hoje todos o conhecem da televisão, todos ouvem as suas histórias e, na sua presença, todos lhe dão razão. Espera o dia em que a liberdade lhe permita dar conta destas suas longas noites de insónia. “Deus é justo”, acredita.

Lido de um fôlego, com pouco mais de uma centena de páginas, o livro do cárcere de Jorge Ferreira Dias acaba por ser o prelúdio de uma obra mais extensa, a sua biografia, que vem querendo publicar há um ano, mas que ainda não tem editor interessado. Na sua casa na Chainça, agora em prisão domiciliária, Ferreira Dias conta-nos os seus dias sem história, reduzido aos metros quadrados da moradia, sem poder deslocar-se para tratar dos seus animais, que desde sempre o acompanharam.

A sua obsessão é com os processos, os tribunais. Diz-se “vítima da injustiça da justiça”. Tem todos os seus casos organizados e documentados, lembra-se de todos os pormenores, tenta explicar os seus objetivos e o que correu mal.

Não sabe quando irá a julgamento ou se alguma vez verá devolvidos os milhões que perdeu, mas permanece crente no futuro. Continua a pensar em projetos para desenvolver Abrantes e a frisar o potencial do concelho.

De cajado na mão e olhar pousado no horizonte, é ainda o mesmo empreendedor que no pós-25 de abril começou a comprar terrenos e a construir habitações. Ferreira Dias é a personificação dos tempos áureos da construção civil nacional nos anos que sucederam a conquista da liberdade. Só lhe faltou a internacionalização.

Talvez seja esse o problema. No fundo, é um romântico. Acreditou na mudança e nunca se deixou vender, afirma. Se o fizesse, explica-nos, entraria num enredo de corrupção de que nunca se libertaria. Mesmo que fosse socialmente aceite na época. Mesmo que todos o fizessem. Ele diz que sempre se recusou a fazê-lo.

“As noites mais longas da minha vida” ainda não têm editora oficial Foto: mediotejo.net

É isso que conta, repetidamente. Não pagava nada por fora – para acelerar os processos, para resolver problemas, para criar núcleos de amizades dentro das estruturas governativas – mas era dono de demasiadas propriedades para que o município simplesmente o ignorasse. E ele queixou-se, repetidamente. Há 30 anos que se queixa. Teve mais de 60 processos judiciais abertos, garante. Num deles pediu uma indemnização superior a 6 milhões de euros. A Câmara de Abrantes foi absolvida em novembro do ano passado, mas Ferreira Dias recorreu da decisão.

A história deste ex-construtor civil dava um filme sobre o Portugal dos últimos 50 anos, sobre as relações de poder no Interior, sobre a ascensão e queda dos negócios construídos a pulso. Agora, com a passagem pela prisão, sente-se verdadeiramente um “mártir”, em luta contra um sistema demasiado corrupto para lhe reconhecer o direito à Justiça.

As “doutoras” da psiquiatria bem que o avisaram: “Ainda teria que ir à cadeia, ser preso, para depois mais tarde ser dado como herói”, recorda Ferreira Dias. Ele não temia ser preso, não mudou uma vírgula ao discurso, nem mudará. Afinal, como tantas vezes disse nos seus protestos públicos, que mais tem a perder?

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Abrantes | Nasceu pobre, construiu empreendimentos, ganhou milhões e perdeu tudo: a história de Jorge Ferreira Dias

Abrantes | Câmara absolvida no caso que a opôs à empresa “Construções Jorge Ferreira Dias”

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

- Publicidade -
- Publicidade -

COMENTÁRIOS

Please enter your comment!
O seu nome