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Segunda-feira, Novembro 29, 2021

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Abrantes | Extermínio da vespa asiática tem novas técnicas com feromonas e biocida de crisântemo

Abrantes registou e eliminou 140 ninhos de vespa velutina em 2019 e 86 ninhos em 2020, uma redução “enorme”, segundo Carlos Filipe, da Associação Modelismo Centro Portugal. Tudo por causa das feromonas e das novas técnicas de extermínio dos ninhos de vespa asiática.

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A predominância da espécie velutina conhecida também como vespa asiática esteve em debate na sexta-feira, 21 de maio, na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, numa palestra promovida pelo Serviço Municipal de Proteção Civil.

O objetivo passou por explicar e dar a conhecer os meios que permitem intensificar a eliminação desta espécie invasora, nomeadamente melhorando os mecanismos de deteção, vigilância e controlo.

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Para isso, o Município conta com a Associação Modelismo Centro Portugal e com a sua técnica que escolhe princípios ativos sem repelentes, utiliza químicos retirados de crisântemos, que não destrói os ninhos através de fogo nem os retira no próprio dia e é aceite pelo INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária I.P..

Como ferramenta principal é usada uma cana de carbono e alumínio, para intervenção de ninhos a vários metros de altura, controlada a partir de baixo, equipada com bomba elétrica, depósito de químico de 50 ml (25 ml dá para exterminar 20 ninhos) e uma agulha que injeta nos ninhos um atrativo mortal, ou seja, literalmente um presente envenenado “com impacto ambiental zero”, garante Carlos Filipe.

Palestra sobre a vespa asiática realizada pelo Serviço Municipal de Proteção Civil, no auditório da EPDRA. Créditos: mediotejo.net

Tal sistema permite atuar “de forma mais rápida e eficaz” em todos os ninhos detetados, contrariamente ao que acontecia até 2017, em que o extermínio era realizado através de uma metodologia “que não estava a ser eficaz”. Entretanto foram identificados “alguns erros” apesar do estudo e dos contributos do projeto Gesvespa existirem desde 2017, segundo Carlos Filipe, não obstante as medidas implementadas, a espécie foi invadindo o País inteiro porque “o estudo indicava um caminho mas as entidades seguiram o caminho contrário”, critica.

E nesse “caminho contrário” estavam incluídos os repelentes, a destruição dos ninhos pelo fogo, sabendo-se agora que não é um sistema de controlo – nomeadamente os incêndios – mas de disseminação porque “queima o ninho mas não queima a espécie”, refere o engenheiro. E ainda a retirada do ninho no próprio dia da intervenção.

A eliminação dos ninhos pelo fogo “hoje em dia já não se fazem. Podíamos até equacionar o fogo mas sempre num segundo passo depois da intervenção química. Neste momento penso que está cientificamente aceite que o fogo não era um sistema de controlo. Realmente, em termos de sistema de alarme funcionava bem porque as pessoas viam o ninho desaparecer mas em termos de controlo da espécie não era eficaz”, explica Carlos Filipe ao jornal mediotejo.net.

Carlos Filipe durante a palestra sobre a vespa asiática realizada pelo Serviço Municipal de Proteção Civil, no auditório da EPDRA. Créditos: mediotejo.net

A solução é então composta por um atrativo para vespas velutinas, com feromonas – para controlar o comportamento da espécie – e um inseticida determinado pelos serviços de veterinária de cada município, “um biocida de longo espectro” para entrar no sistema de alimentação das colónias e garantir resultados mais eficazes.

As feromonas “é uma técnica utilizada há muitos anos para controlo de insetos em que se utiliza uma substancia química que induz a um comportamento, e é precisamente isso que se pretende” na vespa velutina, explica Carlos Filipe. Neste caso “falamos não de uma feromona química mas de uma feromona proteica que é retirada das larvas com uma técnica de maceração, uma técnica laboratorial em que se retiram as feromonas da espécie”.

O nome técnico é feromona de agregação “para com isto termos um comportamento de agregação da espécie para quando injetamos o ninho não haja o efeito repelente mas sim o efeito atrativo”.

Palestra sobre a vespa asiática realizada pelo Serviço Municipal de Proteção Civil, no auditório da EPDRA. Créditos: mediotejo.net

Carlos Filipe explica que os químicos anteriormente utilizados “repeliam a espécie do ninho e o que pretendemos é precisamente o contrário; tentar extinguir toda a colónia e para isso precisamos de uma feromona de agregação”.

Acrescenta que esta solução foi desenvolvida tendo em conta “as boas práticas” designadamente ambientais, no sentido de causar o menor impacto possível. “O estudo Gesvespa, o estudo cientifico mais completo nesta área, dizia-nos em 2017 que o comportamento desta vespa é de não ir todos os dias ao ninho, e nesta perspetiva todas as técnicas que seja retirar o ninho na hora não são aconselhadas”, diz referindo “no mínimo 72 horas. Ou seja, o ninho ser retirado sim, pelo alarme social e pelo impacto ambiental mas 72 horas depois da intervenção, de garantirmos a extinção da colónia”.

O que significa que a observação de um ninho de vespa asiática no topo de uma árvore “já pode estar intervencionado. Aí haverá uma responsabilidade do município de passar essa informação. Realmente há sistemas de sinalização para as pessoas saberem se o ninho está ou não intervencionado”.

Por isso, a Associação Modelismo Centro Portugal, que desenvolve os produtos e dá formação às equipas para procederem à destruição de ninhos, pede “às equipas de intervenção ou que deixem uma fita de sinalização no ninho, ou na própria árvore, ou no suporte onde o ninho está, marcar com uma fita da proteção civil”.

Palestra sobre a vespa asiática realizada pelo Serviço Municipal de Proteção Civil, no auditório da EPDRA. Créditos: mediotejo.net

O ninho deve, no entanto, ser retirado porque a vespa asiática “faz parasitismo da própria espécie” ou seja “vai buscar as larvas a um ninho para alimentar as suas larvas”.

Garante que os ninhos que não sejam retirados “nunca caem antes de 14 dias. Todos os testes laboratoriais nos dizem que ao fim de um mês o valor residual do químico é praticamente zero. Portanto, quando os ninhos caem não temos impacto ambiental”, assegura.

Durante a palestra à qual assistiram várias entidades do concelho e de concelhos vizinhos, nomeadamente alguns presidentes das Juntas de Freguesia de Abrantes, Carlos Filipe estabeleceu a distinção entre a vespa velutina e a nativa vespa crabro, uma espécie protegida que não deve ser intervencionada, a não ser que estejam pessoas em perigo.

Deu conta de existirem 23 espécies de vespa asiática, tendo chegado a Portugal a nigrithorax proveniente de Mianmar (antiga Birmânia) e da China, sendo o único vespídeo que hiberna fecundada. E já existem em Portugal “vespas velutinas sem patas amarelas” devido às mutações.

Explicou que durante o ano não há machos nos ninhos e que a rainha só começa a fazer machos quando as temperaturas atingem os 10 graus (noturnos). Acrescentou que o macho terá uns 2.3 cm enquanto a fêmea tem 3 cm.

Trata-se de uma espécie de grande adaptação. Atualmente “já não há uma verdadeira hibernação” porque “a vespa faz hibernação no ninho e não sai como se pensava para ir para árvores ou buracos” e “todas são potenciais rainhas”. Entre os grandes predadores de vespa asiática encontramos por exemplo o louva-deus.

Os ninhos secundários grandes encontram-se, em cerca de 80% dos casos, entre 12 a 20 metros de altura mas também podem ser encontrados, numa pequena percentagem acima dos 20 metros de altura e uma percentagem ainda mais pequena no chão, nos troncos das árvores, nos silvados. Curiosamente, a vespa asiática aprecia construir ninhos em plantações de kiwis.

Carlos Filipe criticou ainda a utilização dos chamados “cavalos de troia”, classificando-os de “absurdo” que servem para “matar abelhas”. Afirmou que o Manual de Boas Práticas no Combate à Vespa Velutina, da autoria da Federação Nacional de Apicultores de Portugal (FNAP) “foi o maior erro da história” porque “precisou de dar dinheiro à apicultura e saiu uma aberração […] enquanto os apicultores tiverem interesses económicos em vender queimadores não vamos controlar a vespa asiática”, criticou.

Sobre as armadilhas aconselhou os apicultores presentes a utilizar sistemas que não matem as vespas por afogamento mas permaneçam vivas porque assim a captura de vespas acontece em maior número e considerou as armadilhas “uma boa ferramenta de trabalho”, dando preferência a uma mistura de fermento padeiro, água e açúcar.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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