Gala do Sport Abrantes e Benfica assinala 100 anos da filial nº 2 do SLB

Esta sexta-feira, dia 10 de junho, o Benfica de Abrantes comemora 100 anos de existência com a realização de uma Gala no Cine-Teatro São Pedro, em Abrantes, que vai contar com a presença do vice presidente do Sport Lisboa e Benfica e outros convidados. Uma data que servirá para fazer o lançamento do livro com os 100 anos de história deste clube abrantino, que chegou a trazer a Abrantes e velha glória do Benfica, Eusébio, e que teve em cima da mesa uma proposta de fusão com o Sporting de Abrantes.

PUB

Colocar num artigo de jornal os 100 anos de história de um Clube não é tarefa fácil, mas o mediotejo.net contou com a ajuda do professor e historiador José Martinho Gaspar, autor do livro que será lançado no dia 10 de junho sobre os 100 anos do Benfica de Abrantes.

Fundado em 1916 por Francisco Neves, Manuel Luís Ribeiro, João Alves Matias e Raul Campos Petronilho, este clube é a 2ª filial do Sport Lisboa e Benfica e começou por chamar-se Sport Lisboa e Abrantes porque, como nos explicou José Martinho Gaspar, “os Estatutos do Sport Lisboa e Benfica obrigavam a que as filiais tivessem esta estrutura no nome de Sport Lisboa e depois o nome da terra onde estavam”.

PUB

Esta designação de Sport Lisboa e Abrantes manter-se-ia até final dos anos 50, altura em que há uma alteração dos Estatutos do SLB. “Nos anos 60 já começa a aparecer a designação Sport Abrantes e Benfica”, refere José Martinho Gaspar.

Em 1916, este “é o primeiro clube que aparece no concelho de Abrantes”, refere José Martinho Gaspar, acrescentando que “começou, sobretudo, a dedicar-se ao futebol e os jogos faziam-se no campo de Vale de Roubam, onde é hoje o Quartel”.

PUB

Estes primeiros jogos “eram, sobretudo, com equipas de Tomar, Santarém e Torres Novas e o primeiro jogo aconteceu em julho de 1916, com uma equipa de Tomar, e ficou empatado 0-0”, crê José Martinho Gaspar.

“Os jogos eram muito diferentes do que são na atualidade. Ttradicionalmente havia uma banda que tocava no intervalo; havia dois jogos, primeiro com as equipas de reserva, tipo equipa B, que era um aperitivo para o jogo principal, que depois se seguia; pagavam-se entradas, em que o valor das entradas revertiam a favor de algumas instituições, como a Cruz Vermelha, porque decorria a 1ª Guerra Mundial, e também há referências ao facto do futebol funcionar como agente de solidariedade e entreajuda”, explica o historiador.

Em 1918, a atividade do Sport Lisboa e Abrantes estagna. “Há a fase da pneumónica, a chamada gripe espanhola, que atinge também aqui a região e as coisas param um bocadinho. Mas depois, a partir dos anos 20, reativam-se novamente e passamos a ter outros clubes locais, como o Tramagal Sport União (1922), o Sporting de Abrantes e Dragões de Alferrarede (1923), e começam a surgiu torneios e campeonatos locais”, refere José Martinho Gaspar.

Uma curiosidade interessante é que o Sport Abrantes e Benfica e a Associação de Futebol de Abrantes acabam por ser mais antigos que a própria Associação de Futebol de Santarém.

Nos anos 20, começam então a realizar-se estes campeonatos locais de futebol “ainda muito amadores, com algumas coisas que, aos olhos do século XXI, são um bocadinho esquisitas… Os jogos começam tarde, às vezes não há jogadores suficientes das equipas, às vezes estão mal equipados, noutras o campo está mal marcado, estas pequenas coisas a que os jornais fazem referência”, salienta José Martinho Gaspar que, para retratar os primeiros 50 anos de vida do Clube de Abrantes recorreu sobretudo à imprensa local.

A primeira vitória do Sport Lisboa e Abrantes aconteceu em 1925, durante um jogo dos capeonatos locais. Hoje, são muitos os troféus que o Benfica de Abrantes ostenta (Foto: gentilmente cedida por José Martinho Gaspar)
A primeira vitória do Sport Lisboa e Abrantes aconteceu em 1916. Hoje, são muitos os troféus que o Benfica de Abrantes ostenta (Foto cedida por José Martinho Gaspar)

A primeira vitória do Sport Lisboa e Abrantes acontece num destes campeonatos locais, em 1925, altura em que o futebol aparecia ainda como o único desporto.

“No final dos anos 20 e início dos anos 30, as coisas começam a esmorecer novamente e temos aqui um quase desaparecimento do Sport Lisboa e Abrantes”, refere José Martinho Gaspar.

Só em meados dos anos 40 o Clube volta a surgir com atividade. “Em 1946 surgem muitas notícias que dão conta de uma reorganização do Clube, que aparece com uns Estatutos novos e modernos, que são bastante inovadores porque são muito completos. São cerca de 15 páginas, em que vão muito ao pormenor em muitas coisas, no que diz respeito ao diferente tipo de sócios que existiam, e com um caráter muito democrático, que põe tudo muito a limpo, num tempo em que as coisas às vezes eram pouco claras”, explica o historiador.

Nesta altura de novo ressurgimento do Clube, “aparecem algumas pessoas que tinham sido atletas nos primeiros tempos, agora como dirigentes, lançando o ciclismo, andebol, vólei, ténis de mesa, atletismo, futebol, xadrez, ginástica, hóquei, uma série de modalidades”, esclarece José Martinho Gaspar.

Um fator curioso é que nesta altura, quando há esta retoma em finais dos anos 40/início dos anos 50, “há muita proximidade entre as direções do Sporting e do Benfica de Abrantes, há jogos que passam para o jornal como sendo festas e a rivalidade que havia antigamente esmorece. Chega mesmo a haver uma proposta, de pessoas ligadas à Câmara Municipal e de várias pessoas, no sentido de se fazer uma fusão dos clubes, que chegou a ser votada nas assembleias gerais dos clubes: a Assembleia Geral do Sporting foi favorável, ainda que deixasse em aberto algumas condições e a proposta de uma nova reunião; e a do Benfica, que depois rejeitou, não sei precisar com que número de votos, e a partir daí pôs-se de parte essa possibilidade. Mas houve quem defendesse que isso era importante para a cidade ter outra força em termos futebolísticos”.

Jogos no Barro Vermelho e a vinda de Eusébio

É por esta altura que o futebol começa a ser praticado no Barro Vermelho (local onde hoje se realiza o mercado semanal de Abrantes), campo que tinha sido inaugurado em 1936 mas que não tinha grandes condições. “Havia queixas de que o campo não era vedado e os clubes gostavam que houvesse um estádio”, refere José Martinho Gaspar.

Nesta fase do Sport Lisboa e Abrantes, quem se encontra aos comandos do Clube é o Capitão António de Oliveira Mateus, “que tinha sido atleta no início e que se manteve muitos anos como presidente, mantendo esta dinâmica até final dos anos 50”, salienta o historiador.

“Porque o Clube de Abrantes é filial e nesta altura havia uma grande proximidade com Lisboa, há muitas vindas de delegações do Sport Lisboa e Benfica aqui. Na altura da celebração do aniversário vinha sempre uma equipa que fazia patinagem nos claustros do Convento de São Domingos, e vinham atletas do Benfica, de voleibol, hóquei em patins, equipas de futebol de veteranos e de reserva e, em 1961, chegou a vir uma equipa de reserva que trazia o Eusébio. Mas aí não foi para jogar com o Benfica de Abrantes, que não tinha equipa de futebol na altura, foi o Tramagal Sport União (TSU) que jogou. O Eusébio até entrou um pouco, dizem que foi o segundo ou terceiro jogo no Benfica e ao que parece nem jogou assim tão bem”, recorda José Martinho Gaspar.

Com a ida do Coronel António de Oliveira Mateus para a presidência da Câmara, no final dos anos 50, e depois com a sua morte, a atividade do Benfica de Abrantes começa novamente a esmorecer.

Renascimento do Clube em finais dos anos 60

Em 1967/1968 volta a verificar-se uma reorganização do Clube e “aparecem pessoas novas, que chegaram até aos nossos dias, nomeadamente Virgílio Rapazote, que foi presidente nessa altura, durante um ano, mas depois, no final dos anos 70 até 1999, é ele que é presidente do Sport Abrantes e Benfica”, recorda José Martinho Gaspar.

Outro dos nomes que José Martinho Gaspar salienta é o de Américo Bica, nos anos 70, e um conjunto de outras pessoas “que reconstituem novamente o Clube com equipas de futebol de juvenis e juniores”.

abrantes_benfica_equipa seniores (Foto: JMG)
Equipa de seniores do Sport Abrantes e Benfica na Época 1983/1984, que chegaram a ascender à 1ª Divisão Distrital (Foto: Fundo de M. Martinho, gentilmente cedida por José Martinho Gaspar)

Nos anos 80, regista-se a existência de uma equipa de seniores, em 1983/1984, durante três épocas, “que gerou grande entusiasmo, com grande rivalidade nos jogos com os Dragões e com o Tramagal, com grandes enchentes no Barro Vermelho”, recorda o historiador.

Mas depois desta equipa de seniores, a aposta do Sport Abrantes e Benfica virou-se para o futebol de formação, a partir de 1986, prioridade que se prolonga há 30 anos.

Inclusivamente, refere José Martinho Gaspar, “o Benfica de Abrantes fez um acordo com o Sporting de Abrantes, em que o Benfica ficava só com futebol de formação e o Sporting ficava com as restantes modalidades, mas depois surgiram outros clubes na cidade que acabaram por assumir algumas modalidades, como o Clube Náutico”.

30 anos de futebol de formação

Outros dos nomes incontornáveis da história do Benfica de Abrantes é o de João Paulo Milheiriço, professor de Educação Física, que foi também jogador de clubes como o Sporting de Abrantes (1969), esteve três anos na Académica de Coimbra, outros três anos no Elétrico de Ponte de Sôr, nos Dragões de Alferrarede, Casa do Povo do Pego, Tramagal Sport União e Sport Abrantes e Benfica. Como treinador, esteve ligado à União Desportiva Rossiense (formação), Dragões de Alferrarede, Clube Desportivo do Pego e Tramagal Sport União.

A ligação de João Paulo Milheiriço ao Sport Abrantes e Benfica já tem 33 anos.”É um clube que tenho servido como jogador, treinador, dirigente, vice-presidente, coordenador de futebol de formação e outros cargos”, refere ao mediotejo.net.

Sobre os momentos mais marcantes da história do Benfica de Abrantes, João Paulo Milheiriço destaca “todo o ecletismo patenteado até 1985 e a aposta num projeto de formação de futebol desde essa data até hoje. Esse projeto teve e tem a participação dos pais e muitos amigos do clube. A prioridade máxima sempre se situou, não tanto na prática da modalidade de futebol, mas essencialmente na formação global do atleta nas dimensões social, ética, desportiva e académica”.

Equipa de Infantis B do Sport Abrantes e Benfica (Foto: gentilmente cedida por Luís Macieira - SAB)
Equipa de Infantis B do Sport Abrantes e Benfica (Foto cedida por Luís Macieira/SAB)

Com tantos atletas que lhe passaram pelas mãos, há histórias que são marcantes e João Paulo Milheiriço destaca uma: “Em 1986, após um jogo para o campeonato nacional de iniciados contra o Sport Lisboa e Benfica, em Abrantes, o clube ofereceu um lanche a todos os atletas e pais dos dois clubes. Em conversa com um diretor do Sport Lisboa e Benfica, questionei-o sobre o sucesso escolar dos atletas do seu clube (que seria campeão nacional). Respondeu-me que apenas um atleta tinha tido sucesso escolar nesse ano: Rui Costa, jogador internacional e hoje dirigente do clube. Em contra partida, apenas um atleta na nossa equipa não tinha obtido sucesso escolar”.

O presente e o futuro

Paulo Neto é o atual presidente da Direção do Sport Abrantes e Benfica. Em entrevista ao mediotejo.net, destaca como momentos mais marcantes durante a sua ligação ao Clube a atribuição da medalha de mérito desportivo e o reconhecimento do estatuto de utilidade pública desportiva.

Atualmente com cerca de 170 atletas, só com futebol de formação, com 7 equipas em competição nos diversos escalões, desde os 8 aos 18 anos, mais as escolinhas que entram nos torneio promovidos pela Câmara de Abrantes, é com orgulho que Paulo Neto refere que ser este o único Clube do concelho que tem “todos os escalões, desde os Sub-10 até aos Juniores”.

“Temos mantido nestes últimos anos todos os escalões, temos feito muitos esforços, com a ajuda de todos temos conseguido mas num futuro próximo não sei se será possível porque as dificuldades são cada vez maiores e os apoios cada vez menores e no concelho há muitas coletividades que têm futebol de formação”, refere Paulo Neto.

Ainda com um mandato pela frente, refere: “Não pensamos fazer futebol sénior, já nos foi várias vezes solicitado, já estivemos a apoiar o futebol veterano, mas os 100 anos de história dizem-nos para estarmos onde estamos e não irmos mais além. Todas as semanas vemos escalões a desistir e não é essa a nossa intenção, porque quando começamos uma coisa é para a levar até ao fim”.

Sobre projetos futuros, Paulo Neto responde: “É aprender com os erros e melhorar nos escalões de formação”.

Relativamente a uma possível recandidatura a comandar os destinos do Sport Abrantes e Benfica, diz que, para já, não é uma hipótese: “Para já não penso recandidatar-me, há que dar lugar a novo sangue para ver se as coisas andam por outros caminhos porque nós temos consciência de que tudo fazermos pelo melhor do Clube, mas sabemos que caímos muitas vezes na rotina.”

A Gala dos 100 anos do Benfica de Anos deverá contar com a presença de Luís Filipe Vieira, presidente do SLB (Foto: SAB)
A Gala dos 100 anos do Benfica de Anos vai contar com a presença de vários dirigentes do SLB (Foto: SAB)

“Espero que as coisas evoluam no sentido de continuarmos a fazer história na formação juvenil no concelho de Abrantes e não só porque temos atletas de outros concelhos: já tivemos atletas de Tomar, Entroncamento, Ponte de Sor, Montargil, Vila de Rei, Sardoal, Montalvo, mas os custos eram altos e tivemos de fazer aquilo que as nossas metas nos permitem fazer a nível de orçamento que é olhar para dentro, olhar mais para o concelho e tentar não fazer gastos desnecessários com deslocações porque irmos buscar um atleta longe custa-nos muito dinheiro, com treinos e jogos. Temos excelentes atletas, não estão é todos concentrados num clube, estão dispersos por vários clubes. E o concelho perde com isso, com a representatividade ao nível da Associação e a nível nacional, porque se todos os melhores atletas do concelho estivessem concentrados numa equipa, se calhar estávamos a lutar no nacional, de igual para igual”, refere Paulo Neto.

Programa das comemorações

Para as comemorações dos 100 anos do Clube são várias as iniciativas previstas pela Direção do Sport Abrantes e Benfica, que iniciam já este sábado, 14 de maio, com a realização de um arraial popular na Casa do Povo de São Miguel do Rio Torto, a partir das 22h, cuja animação musical estará a cargo de Marco Morgado.

No dia 10 de junho, data em que o Clube assinala os seus 100 anos, tem lugar a Gala do Benfica de Abrantes, que deverá contar com as presenças de Luís Filipe Vieira, presidente do SLB, ainda a confirmar, de José Nunes Martins, diretor do Jornal Benfica, de José Augusto, bi-campeão do SLB, de Rui Manhoso, vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, entre outros, para além da possível presença do secretário de Estado do Desporto (ainda a confirmar) para a entrega da medalha de mérito atribuída ao Benfica de Abrantes há três anos.

Nesta Gala, além do lançamento do livro da autoria de José Martinho Gaspar sobre os 100 anos do Benfica de Abrantes, será feita uma homenagem à primeira equipa a ser campeã pelo SAB, em 1973, e também a Virgílio Rapazote, que foi presidente do Sport Abrantes e Benfica durante mais de 30 anos.

A 18 de junho o SAB organiza uma nova edição do Abrantes CUP F7, com a presença, já confirmada, de uma equipa espanhola.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here